Humilhações repetidas, apelidos constrangedores e investidas que ultrapassam os limites profissionais podem ser sinais de assédio no trabalho. Identificar esses comportamentos nem sempre é fácil, principalmente quando ocorrem de forma sutil ou partem de alguém em posição de chefia.
Em entrevista ao programa Conexão Onda, nesta terça-feira (13/10), a psicóloga Roberta Marques explicou como reconhecer situações de assédio moral e sexual, os impactos na saúde mental e os caminhos para buscar ajuda e denunciar.
Segundo ela, cobrar a entrega de um relatório ou o cumprimento de metas faz parte das relações profissionais, no entanto, a situação muda quando o superior utiliza humilhações, apelidos constrangedores ou comentários que desqualificam a capacidade do funcionário.
A psicóloga citou como exemplo comentários que colocam em dúvida a competência do trabalhador ou questionam sua permanência no emprego. Ela também alertou que o assédio nem sempre ocorre de maneira explícita.
“Às vezes, sutilmente também, pode ser um abuso ali sutil, que a pessoa, um apelido engraçadinho”, disse.
Para a especialista, é importante observar a repetição das condutas e a gravidade dos comportamentos. “Geralmente, o assediador vai repetir a situação, não é uma vez ou outra, não é uma cobrança um pouquinho mais rígida. Não, é algo que ele repete e que fica configurado como uma afronta”, afirmou.
Assédio sexual pode ocorrer sem contato físico
O assédio sexual também pode se manifestar por meio de abordagens que ultrapassam os limites da relação profissional, sem necessariamente envolver contato físico. Entre os exemplos citados por Roberta estão investidas, convites insistentes e pedidos de telefone em contextos inadequados.
“No caso do assédio sexual, pode ser algum chavequinho, um convite persuasivo também para jantar, para pedir telefone, um telefonema que não tem nada a ver com a situação de trabalho”, explicou.
A psicóloga ressaltou que essas situações podem acontecer de maneira sutil, o que dificulta a identificação por parte de quem as vivencia. Ela também destacou que as mulheres estão mais vulneráveis a esse tipo de violência em razão de fatores estruturais e culturais.
Outro problema apontado pela especialista é a culpabilização das vítimas, que frequentemente são questionadas sobre roupas, comportamentos ou atitudes, como se fossem responsáveis pelas investidas sofridas.
“É como se nós tivéssemos essa responsabilidade. Não é o homem que tem que se educar, é a mulher que tem que se restringir para que ela não cause algum comportamento”, lamenta.
Leia mais
Nunes Marques diz que ameaças e assédio a eleitores serão reprimidos
Presidente Figueiredo recebe R$ 60 mil do Ministério da Saúde para ações emergenciais
Ela também chamou a atenção para o gaslighting, comportamento em que o agressor tenta fazer a vítima duvidar da própria percepção dos acontecimentos. “O próprio abusador começa a fazer a vítima achar que ela está ficando louca, que não é bem daquele jeito”, explicou.
Medo de denunciar e impactos na saúde mental
A vergonha, o medo de não ser acreditado e a insegurança sobre as consequências profissionais podem dificultar a denúncia. Segundo a especialista, muitas vítimas passam a questionar se realmente estão vivendo uma situação de assédio.
“A própria pessoa começa a duvidar se o que ela está passando realmente é um assédio. E aí ela começa: será que é um assédio? Será que eu entendi bem?”, relatou.
Logo, explicou que essas dúvidas podem fazer com que a pessoa adie a busca por ajuda, enquanto continua exposta ao comportamento abusivo.
O impacto também pode aparecer na autoestima e na maneira como o trabalhador se percebe. “A pessoa começa a se ver como o problema”, afirmou Roberta, ao explicar que a desqualificação constante pode levar a vítima a questionar suas próprias capacidades.
Entre os sinais de alerta estão a ansiedade antes de ir ao trabalho, a angústia ao encontrar determinada pessoa, a dificuldade de sair da cama e a sensação de não pertencer ao ambiente profissional.
O sofrimento prolongado também pode contribuir para o agravamento da saúde mental. “É toda uma questão que acaba com a gente, criando também a ansiedade, depressão”, destacou. Marques acrescentou que o receio de perder o emprego ou sofrer retaliações torna a situação ainda mais delicada, principalmente quando o assédio parte de um superior hierárquico.
Como reunir provas e buscar ajuda
Ao perceber que o ambiente profissional está afetando seu bem-estar, o trabalhador pode procurar orientação para compreender o que está acontecendo e avaliar quais medidas pode tomar.
“Se você está vendo que a sua rotina, o seu dia a dia está começando a ficar mais pesado, estou com dificuldade de querer ir para o trabalho, quando eu chego perto daquela pessoa, eu começo a ficar angustiada. A pessoa pode gravar reunião, pode gravar conversa. Ela pode registrar por e-mail e guardar os e-mails, pode registrar pelo WhatsApp”, afirmou.
A utilização desses registros deve considerar as circunstâncias de cada caso, e a orientação jurídica pode ajudar a avaliar sua admissibilidade e o uso adequado.
Quem deseja formalizar uma denúncia pode procurar o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) ou buscar orientação de um advogado para entender os procedimentos disponíveis.
A psicóloga ressaltou, porém, que nem todas as vítimas estão preparadas para denunciar imediatamente. Nesses casos, procurar apoio e compreender as alternativas também pode ser um primeiro passo.
Empresas devem prevenir e apurar denúncias
A responsabilidade pelo combate ao assédio também é das empresas, que precisam oferecer canais de denúncia efetivos, investigar os relatos e adotar medidas para evitar novos casos.
A psicóloga alertou que disponibilizar um canal de denúncia não basta se a organização não estiver preparada para acolher as vítimas e apurar as situações relatadas.
Acompanhamento psicológico é importante
O acompanhamento psicológico pode ajudar a vítima a lidar com os impactos emocionais do assédio e a recuperar a confiança. Dependendo do caso, também pode ser necessário buscar atendimento psiquiátrico.
“O ideal é que ela faça um acompanhamento com um psicólogo, com um psiquiatra, faça o seu check-up de saúde mental, sua avaliação de saúde mental, para ela se fortalecer”, orientou Roberta.
A especialista ressaltou que o enfrentamento do problema não deve depender apenas da vítima, mas também de medidas das empresas para garantir um ambiente profissional seguro e respeitoso.
