Em 2017, a chegada dos aplicativos de transporte mudou definitivamente a mobilidade urbana em Manaus. Em poucos meses, Uber e, depois, 99 passaram a oferecer corridas mais baratas, solicitação pelo celular e maior disponibilidade de veículos, provocando uma transformação que atingiu diretamente uma categoria que, durante décadas, dominou o transporte individual de passageiros na capital: os taxistas.
Quase uma década depois, a realidade é bem diferente daquela vivida antes da concorrência digital. Muitos profissionais abandonaram a atividade, outros cederam à revolução dos aplicativos e os que permaneceram precisaram reinventar a forma de trabalhar para sobreviver.
Senhora sendo levada ao hospital por táxi (Imagens: Rede Onda Digital)
Levantamento feito pelo Sindicato dos Condutores Autônomos e Taxistas de Manaus (Sintaxi) mostra que, antes da chegada dos aplicativos, a capital contava com cerca de 8 mil taxistas, entre permissionários e auxiliares. Após o avanço das plataformas digitais, esse número caiu para menos da metade.
“A entrada dos aplicativos reduziu muito a quantidade de taxistas. Muitos migraram para as plataformas e a categoria sofreu uma queda muito grande”, afirma o presidente do Sintaxi, Márcio Fleury.

Taxistas se anteciparam à chegada dos aplicativos
Enquanto boa parte do setor ainda observava o crescimento dos aplicativos em outras capitais brasileiras, uma empresa tradicional de Manaus decidiu agir antes da concorrência desembarcar na cidade.
A Tucuxi Rádio Táxi lançou seu próprio aplicativo em janeiro de 2017, quatro meses antes da chegada oficial do Uber à capital amazonense.
Segundo o representante da empresa, Silvio Frota, a estratégia foi essencial para evitar um impacto ainda maior.
“Em janeiro de 2017 fizemos o lançamento do nosso aplicativo justamente já nos antecipando à chegada dos apps. Esse aplicativo segurou a gente no mercado e conseguiu manter o nome do táxi mesmo com essa nova tecnologia chegando.”
Frota explica como antecipação foi essencial para aguentar impacto da chegada dos aplicativos (Imagens: Rede Onda Digital)
Hoje, além do aplicativo próprio, a empresa reúne diferentes canais de atendimento, como WhatsApp automatizado, central telefônica 24 horas e contratos corporativos.
Mudanças na profissão
O impacto econômico foi imediato. Se antes bastava estacionar em pontos estratégicos ou circular pela cidade para encontrar passageiros, hoje a rotina é completamente diferente.
Diretor-geral da Tucuxi, Augusto Alcântara acompanhou toda essa transformação.
“Antigamente você saía de casa e ia para a rua esperando alguém fazer sinal. Hoje nós temos aplicativo, WhatsApp, call center funcionando 24 horas. Mudou completamente.”
Alcântara relembra tempos áureos do táxi (Imagens: Rede Onda Digital)
Segundo ele, a sobrevivência dependeu da capacidade de oferecer algo além da corrida.
“O nosso diferencial é o atendimento. Se um passageiro esquecer um notebook, um celular ou uma carteira dentro do carro, ele tem para onde ligar. Existe uma central funcionando 24 horas que localiza o motorista e ajuda a recuperar o objeto.”
Renda despencou
Nas ruas, o sentimento predominante entre os taxistas é de que a chegada dos aplicativos reduziu drasticamente os ganhos.
A taxista Leida Montorbane, de 58 anos, trabalha há 17 anos na profissão e afirma que a adaptação nunca foi completa.
“Foi muito difícil. Até hoje eu ainda não consegui me adaptar.”
Segundo ela, para continuar trabalhando foi necessário reduzir o valor das corridas e buscar outras alternativas.
“Nós temos que fazer um preço menor do que o taxímetro marca. Se não fizer isso, o cliente prefere chamar um aplicativo.”
Montorbane conta que ainda tem dificuldade de se adaptar (Imagens: Rede Onda Digital)
Além do táxi, Leida também passou a dirigir por plataformas digitais.
“Hoje eu trabalho tanto como taxista quanto no aplicativo. Senão, como é que a gente vai levar o leite para as nossas crianças?”
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Lotação virou estratégia de sobrevivência
Entre os taxistas entrevistados, uma palavra apareceu repetidamente: lotação. A modalidade, na qual vários passageiros dividem o mesmo veículo e compartilham o valor da corrida, tornou-se uma das principais estratégias para manter a renda.
Taxista há 46 anos, Raimundo Ferreira afirma que a chegada dos aplicativos reduziu cerca de 60% das corridas tradicionais.
“Hoje a gente trabalha praticamente com lotação. É ela que ainda está segurando a gente.”
Ferreira diz que lotação foi peça-chave na sobrevivência da categoria (Imagens: Rede Onda Digital)
Já Elias Souza, que atua há 36 anos na profissão, explica que o compartilhamento passou a substituir boa parte das corridas individuais.
“Hoje fazemos compartilhado. Colocamos quatro pessoas, dividimos o valor da corrida e é assim que estamos sobrevivendo,” relata.
Segundo ele, antes da chegada dos aplicativos era possível faturar entre R$ 400 e R$ 500 por dia, realizando de 20 a 30 corridas. “Hoje, fazer uma ou duas corridas individuais já é muito.”
Souza compara a demanda pelo serviço antes e depois da chegada dos aplicativos (Imagens: Rede Onda Digital)
Tecnologia virou aliada
Se no início os aplicativos representavam um concorrente praticamente impossível de enfrentar, hoje parte da categoria entende que a tecnologia também se tornou indispensável para os próprios taxistas.
Segundo Márcio Fleury, o maior desafio atual não é mais enfrentar Uber ou 99, mas convencer todos os profissionais a aderirem definitivamente ao ambiente digital.
“O mercado mudou. Hoje ele pede aplicativo, celular, tecnologia. Não é mais o mercado que precisa se adaptar ao taxista. Somos nós que precisamos nos adaptar ao mercado”, alerta.

Além da digitalização, o sindicato aposta na renovação da frota com veículos híbridos e elétricos. Segundo Fleury, a redução dos gastos com combustível tem incentivado muitos profissionais a permanecerem na atividade.
“Quem trabalha hoje com veículo elétrico praticamente dobra a renda porque deixa de gastar boa parte do dinheiro com combustível”, pontua.
Segurança ainda pesa na escolha
Mesmo diante da concorrência, um argumento continua sendo utilizado pelos taxistas para manter parte da clientela: a segurança. Segundo Fleury, muitos passageiros permanecem utilizando táxis por confiarem na identificação do motorista e no controle existente sobre a categoria.
“Muitos clientes continuam fiéis ao táxi por causa da segurança e da confiança.”

O taxista Augusto destaca outro diferencial. “Todos os motoristas têm contrato conosco. Existe responsabilidade. Se acontecer qualquer problema, existe uma empresa para atender o passageiro.”
A categoria “voltou a crescer”
Apesar das dificuldades, o setor voltou a dar sinais de recuperação. Em 2023, uma mudança na legislação municipal ampliou o número de permissões e substituiu o antigo processo licitatório por um processo seletivo conduzido pelo Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU).
Segundo o Sintaxi, somente neste ano cerca de 700 novos taxistas ingressaram na profissão.
“A procura voltou a crescer. As pessoas perceberam que ainda existe espaço para trabalhar como taxista”, afirma Fleury.
Passageiro embarcando em táxi (Imagens: Rede Onda Digital)
Para quem permaneceu durante os anos mais difíceis, a esperança agora é que a profissão encontre um novo equilíbrio em um mercado onde aplicativos e táxis passaram a coexistir.
Quase dez anos depois da chegada dos aplicativos, os taxistas de Manaus descobriram que sobreviver depende menos do retrovisor e mais da capacidade de acompanhar o caminho que o mercado escolheu seguir.
