A criação de abelhas nativas sem ferrão reúne geração de renda e conservação ambiental no Amazonas. Conhecida como meliponicultura, a atividade permite produzir mel e outros derivados, além de contribuir para a polinização de plantas e a manutenção da biodiversidade amazônica.
Na comunidade União da Vitória, no Tarumã-Açu, em Manaus, o meliponicultor Railson Tavares transformou uma tradição familiar em profissão. À frente do Meliponário e Apiário Doce Ferroada, ele trabalha com abelhas nativas sem ferrão e também com espécies que possuem ferrão.
A relação com as abelhas começou ainda na infância, acompanhando o trabalho do pai e dos irmãos. “Meu pai já criava abelhas, meus irmãos criam abelhas, então eu apenas dei sequência no legado da família”, conta.

Mais do que uma atividade herdada, a criação se tornou uma escolha pessoal. Railson compara a convivência com as colônias a uma dedicação que ultrapassa o trabalho cotidiano.
“As abelhas são uma civilização. Quando você lida com elas, você acaba… é um vício, mas é um vício bom. Então não tem como largar esse sacerdócio que eu chamo. É um ofício que eu gosto muito”, afirma.
A experiência do produtor mostra como um conhecimento transmitido entre gerações pode se transformar em negócio, reunindo produção de alimentos, cuidado com a natureza e possibilidade de renda.
Mel é o carro-chefe da produção
No Meliponário e Apiário Doce Ferroada, o mel é o principal produto comercializado. A atividade também oferece outras possibilidades de receita, a partir de derivados e da venda de enxames.
“Hoje, por exemplo, o carro-chefe é o mel. Tanto o mel da abelha jandaíra, que é esse grupo de abelhas que tem aqui, quanto o mel das abelhas com ferrão, que estão distantes daqui, mas a gente trabalha também com elas”, explica Railson.
O produtor destaca que a atividade não se limita à extração do mel. “Além de pólen, própolis, cera, geleia real, venda, comércio de enxames, tudo isso gera receita para a gente”, acrescenta.

A diversificação permite trabalhar com diferentes produtos, mas exige conhecimento sobre as características de cada espécie e os cuidados necessários para manter as colônias. O manejo precisa respeitar o desenvolvimento das abelhas e o momento adequado para a coleta.
Cuidados e regularização
Embora as abelhas sem ferrão sejam conhecidas por não oferecerem o mesmo risco de ferroadas das espécies com ferrão, sua criação exige atenção ao ambiente e às condições de manejo.
Railson explica que as colmeias precisam ficar protegidas de fatores que prejudicam as colônias. “As abelhas têm que ter um local protegido do sol, da chuva, do calor, de fumaça”, afirma.
A coleta também precisa seguir procedimentos adequados para preservar a qualidade do produto. “Os cuidados no manejo, ou seja, coletar o mel no tempo certo, dividir a abelha no tempo certo, usar os equipamentos necessários quando for coletar esse mel para que seja isento de contaminação”, orienta.
O produtor ressalta ainda a importância da regularização. Segundo ele, quem pretende trabalhar com abelhas sem ferrão deve buscar a licença exigida para a atividade junto ao órgão ambiental competente.
Além do manejo diário, a organização da produção e o acesso ao mercado consumidor são desafios para quem deseja transformar a criação em uma fonte de renda contínua.

IDAM registra produção acompanhada no estado
Dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) mostram que, em 2025, 103 criadores assistidos pelo órgão reuniam 2.124 colmeias e produziram 954 quilos de mel.
Os números correspondem aos produtores acompanhados pelo instituto e não representam necessariamente toda a produção estadual de mel de abelhas sem ferrão.
Em 2024, um relatório do IDAM registrou uma estimativa municipal de 31 criadores, 774 colmeias e 5.163 quilos de mel. O documento também apresenta separadamente os resultados dos produtores que receberam assistência técnica.
Como os levantamentos podem considerar grupos e critérios diferentes, não é possível concluir, a partir desses números, que houve aumento ou queda na produção entre os dois anos.
Outra referência é a Pesquisa da Pecuária Municipal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, o valor da produção de mel de abelha no Amazonas chegou a R$ 4,388 milhões. A estatística, porém, não separa o mel das abelhas nativas sem ferrão daquele produzido por outras espécies.
Os dados ajudam a dimensionar a atividade, mas ainda não permitem calcular isoladamente o volume total e o faturamento da meliponicultura no Amazonas.
Abelhas ajudam a manter a floresta em pé
A importância das abelhas vai além do que chega às embalagens de mel. Ao visitar flores em busca de recursos para as colônias, elas transportam pólen e contribuem para a reprodução de diversas espécies vegetais.
Na Amazônia, esse trabalho tem relevância para a manutenção da biodiversidade. A criação de abelhas nativas pode aliar atividade econômica e conservação ambiental, desde que respeite as necessidades de cada espécie e as condições adequadas de manejo.
Railson destaca a relação entre a criação e o equilíbrio da natureza. “Hoje a gente sabe que 70% ou 80% de todos os frutos que a gente consome é resultado da polinização das abelhas”, afirma.
A proporção citada pelo produtor não foi confirmada por uma fonte científica específica para esta reportagem, por isso deve ser tratada como uma declaração dele, e não como um dado comprovado pelo levantamento.
Ao explicar o papel da atividade na conservação ambiental, Railson resume sua experiência: “Quando a gente cria as abelhas, a gente acaba ajudando na polinização, ajudando a manter a floresta em pé, e isso ainda gera uma receita para a gente”.
A meliponicultura também pode ser integrada a quintais produtivos e sistemas agroflorestais, criando oportunidades para pequenos produtores e agricultores familiares.
A história de Railson mostra como uma tradição familiar pode se transformar em profissão e contribuir para a economia local. No Amazonas, a criação de abelhas nativas sem ferrão reúne potencial de geração de renda e importância ambiental, embora os dados disponíveis ainda não permitam dimensionar toda a produção estadual.
