A morte do serralheiro Jorge Alves Lopes, de 61 anos, após ser picado por formigas durante uma pescaria em São João da Paraúna, no oeste de Goiás, chama a atenção para os riscos associados às chamadas formigas-de-fogo. O caso aconteceu no dia 10 de outubro, quando o homem estava com o irmão e um sobrinho às margens do Rio Turvo.
Segundo a família, Jorge encostou em uma árvore durante a pescaria e foi picado pelas formigas. Pouco depois, começou a passar mal e foi levado a uma unidade de saúde, mas não resistiu. À época, a sobrinha relatou que o serralheiro já tinha histórico de reação alérgica a esse tipo de inseto e sofreu um choque anafilático, reação grave que pode comprometer a respiração e a circulação sanguínea.
O que é a formiga-de-fogo?
Conhecidas também como formigas-lava-pés, as formigas do gênero Solenopsis possuem veneno e podem atacar quando se sentem ameaçadas. No Brasil, uma das espécies mais comuns desse grupo é a Solenopsis saevissima, de coloração avermelhada.
Segundo o Instituto Butantan, o veneno dessas formigas contém substâncias capazes de provocar dor, coceira e lesões na pele. Na maioria dos casos, a reação fica restrita ao local da picada. Entretanto, pessoas sensibilizadas ao veneno podem apresentar reações alérgicas sistêmicas, que exigem atendimento imediato.
O biólogo especialista em animais silvestres Nonato Amaral explica que a diversidade de formigas é grande e que esses insetos podem ser encontrados em diferentes ambientes, inclusive em áreas de floresta e locais frequentados por pessoas durante atividades ao ar livre.
“É uma característica bem diversificante, porque, quando se trata de formigas, existe uma dimensão gigantesca. Desde mitos, como aqui na Amazônia nós temos algumas espécies de formigas que deram até nome de municípios, como Novo Airão, um exemplo”, explicou.
Por que as formigas atacam?
O ataque das formigas-de-fogo costuma ocorrer como mecanismo de defesa, principalmente quando uma pessoa pisa em um formigueiro, encosta em uma árvore onde os insetos circulam ou entra em contato com uma trilha de formigas.
Amaral destaca que o risco não está restrito ao contato direto com o formigueiro. Na floresta, os insetos podem circular por troncos, cipós e palmeiras, aumentando as possibilidades de contato com pessoas.
“Certo, o ataque da formiga basicamente é uma auto-defesa. Ela não vai em busca da pessoa para um ataque. Você está ali, de repente pisou no formigueiro, houve uma infestação em cima daquele membro ali que foi tocado, ou você se encosta numa árvore, já percebeu que tudo que está conectado na floresta? é uma árvore, que está conectado com cipó, que está conectado com uma palmeira, que está conectado com um formigueiro. Então isso é trânsito desses animais”, explicou.
O biólogo também relata uma situação em que ele próprio e outras pessoas foram surpreendidos por formigas durante uma permanência noturna em uma área de mata em Novo Airão, no Amazonas.
“Como não houve uma preparação para ir, para ficar lá, eu não esperava isso, mas tivemos por obrigação do ofício de ficar, tivemos ataque de formigas também lá. Então pessoas que estavam deitadas naquele entorno ali, que varreu um pouco da folha, mas se deitou na areia, foi tomado, levantou no espantado com formiga na madrugada, e formiga de fogo”, revelou.
O relato reforça a importância de observar o ambiente antes de montar um abrigo ou se deitar em áreas de vegetação.
“Então esses cuidados têm que ser tidos. Como a gente ensina também numa das leis dos quartel, é que sempre que for para uma região de mata, observar uma árvore, se não tem uma casa de morimbundo, observar se não tem um formigueiro próximo, antes de fazer seu abrigo para um pernoite”, contou.
Como o veneno pode provocar uma reação grave?
A intensidade da reação depende de fatores como a sensibilidade individual, o histórico de exposição e a quantidade de veneno envolvida. Em pessoas alérgicas, o contato pode desencadear anafilaxia, uma reação sistêmica que pode evoluir rapidamente e comprometer a respiração e a circulação sanguínea.
Amaral chama a atenção para a possibilidade de acidentes envolvendo múltiplas picadas, especialmente quando uma pessoa cai sobre um formigueiro.
“Ah, e quando você tem uma pessoa alérgica, aí o risco é muito maior. A quantidade, a concentração de ferroadas é o que vai levar uma pessoa a óbito por conta da concentração, posso falar, do veneno daquele animal.”
A quantidade de picadas pode aumentar o risco de intoxicação, mas pessoas com alergia também podem apresentar uma reação grave após uma única picada. Por isso, não é possível determinar a gravidade de um acidente apenas pela quantidade de lesões na pele.
Entre os sinais de alerta para anafilaxia estão falta de ar, inchaço na língua ou na garganta, tontura, desmaio e queda da pressão arterial. A ausência de manifestações na pele não descarta uma reação grave.
O que fazer após uma picada?
A orientação do especialista é sair da área onde estão os insetos e afastar as formigas do corpo com cuidado. A região atingida deve ser higienizada, e a pessoa precisa observar o surgimento de sintomas. Amaral recomenda atenção especial quando há múltiplas picadas, aumento do inchaço ou piora dos sintomas.
“O primeiro ponto é de praxe. É a higienização do local. Então eu tenho que higienizar, eu tenho que ficar atento com os meus sintomas. E se eu suar automático ou não. Ah, me deu febre, não me deu. Eu estou me sentindo um pouco estranho com as múltiplas picadas que eu levei. Eu tenho que procurar um socorro médico. Entende? Um SPA, o que for.”
O biólogo também orienta a procurar atendimento quando a coceira é intensa, as lesões aumentam ou a pele apresenta ferimentos.
Em caso de falta de ar, inchaço na língua ou na garganta, tontura intensa ou perda de consciência, a orientação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192. A suspeita de anafilaxia exige atendimento emergencial, e não se deve esperar que os sintomas desapareçam sozinhos.
O que dizem as pesquisas recentes?
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Frontiers in Allergy investigou a ocorrência de anafilaxia provocada pelo veneno de formigas-de-fogo nos Estados Unidos. Os pesquisadores estimaram que a reação alérgica grave atingiu 0,048% da população analisada, percentual que chegou a 0,085% nos estados onde esses insetos estão estabelecidos.
A pesquisa também identificou 20 episódios de anafilaxia atribuídos às formigas-de-fogo entre pacientes com mastocitose sistêmica ou uma condição relacionada, doenças que podem aumentar a vulnerabilidade a reações graves.
Além de demonstrar os riscos associados às picadas, o estudo apontou dificuldades no reconhecimento e no tratamento da anafilaxia, destacando a importância do atendimento médico imediato. Embora a maioria das picadas provoque apenas dor e irritação local, algumas podem desencadear sintomas como dificuldade respiratória, queda da pressão arterial e desmaios.
