Manaus é conhecida mundialmente por sua arquitetura histórica, pelos prédios do período da borracha e por símbolos como o Teatro Amazonas. Mas a memória arquitetônica da cidade vai muito além do patrimônio do século XIX. Um dos capítulos mais importantes dessa história está nas obras de Severiano Mário Porto, arquiteto que transformou a relação entre arquitetura, clima e materiais da Amazônia e que, apesar de sua relevância internacional, ainda enfrenta problemas de preservação na própria cidade onde deixou parte de seu legado.
A questão foi levantada pela Rede Onda Digital em entrevista com o vice-presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Pedro Paulo Cordeiro, que também é arquiteto. Ao falar sobre Severiano, Cordeiro reconheceu que existe uma espécie de apagamento da memória arquitetônica mais recente de Manaus.

“Foi exatamente isso, a falta de memória. A falta de memória afetiva com as obras do Severiano”, afirmou.
Para Cordeiro, o reconhecimento deveria começar ainda na formação dos próprios arquitetos. Segundo ele, estudar Severiano Mário Porto é praticamente obrigatório para quem se forma em arquitetura em Manaus, diante da dimensão de sua produção.
“O Severiano Mário Porto é uma referência mundial”, destacou.
Um arquiteto que levou a Amazônia para o mundo
Nascido em Uberlândia, Minas Gerais, em 1930, Severiano Mário Porto construiu boa parte de sua trajetória profissional na Amazônia e ficou conhecido pela capacidade de adaptar a arquitetura às condições climáticas, culturais e ambientais da região.
Sua produção valorizava materiais como madeira, aço e concreto e buscava soluções que dialogassem diretamente com o clima amazônico.
A madeira, em especial, tornou-se uma das marcas de sua arquitetura. O reconhecimento internacional veio também por esse trabalho. Segundo Cordeiro, Severiano recebeu premiações em Helsinki justamente pela utilização da madeira em seus projetos.
“Ele não trabalhava só com um tipo de material. Ele trabalhava com aço, trabalhava com concreto, trabalhava com madeira”, explicou.
Essa combinação ajudou a construir uma arquitetura que não apenas ocupava o espaço amazônico, mas procurava responder às características da região.
Manaus ainda olha para o passado de forma limitada
Na avaliação de Cordeiro, um dos principais problemas está na maneira como o patrimônio é compreendido em Manaus. Quando se fala em preservação, a associação mais imediata costuma ser feita com os grandes monumentos do período áureo da borracha. O resultado é que construções do século XX, mesmo quando possuem enorme relevância arquitetônica, acabam ficando fora do imaginário coletivo de patrimônio.
“Infelizmente, as pessoas, quando você fala na questão de patrimônio, sempre remetem à época da borracha. Elas não consideram as obras do Severiano Mário Porto como patrimônio. E elas são um verdadeiro patrimônio”, afirmou.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre Severiano ganha importância para Manaus. Preservar suas obras não significa apenas conservar prédios antigos. Significa reconhecer uma parte da identidade arquitetônica construída pela cidade no século XX e a contribuição da Amazônia para a arquitetura brasileira e mundial.
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Obras foram tombadas, mas a preservação não avançou
Pedro Paulo Cordeiro também revelou um capítulo importante dessa história. Durante o período em que participou do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, ele esteve envolvido em um movimento pelo tombamento das obras de Severiano Mário Porto. Ao todo, 23 construções foram incluídas no processo de proteção.
O tombamento, no entanto, enfrentou resistência institucional.
Segundo Cordeiro, o próprio Estado chegou a recorrer ao Tribunal Superior para contestar a medida, sob o argumento de que o tombamento seria ilegal. A contestação não prosperou: “Eles perderam”, relatou.
Apesar da vitória jurídica e da proteção formal das obras, veio o que, para Cordeiro, é um problema ainda maior: a falta de continuidade das ações necessárias para garantir a conservação dos imóveis. “Infelizmente, também não aconteceu a evolução, que seria exatamente a questão da preservação”, lamentou.
Da Credilar Teatro ao abandono: uma obra de Severiano Porto no coração de Manaus
No coração do Centro Histórico de Manaus, em frente ao Teatro Amazonas, uma construção carrega uma história que mistura modernidade, arquitetura e esquecimento.
O prédio onde funcionou a Credilar Teatro, uma das lojas de departamento mais conhecidas da cidade no século passado, foi projetado pelo arquiteto Severiano Mário Porto, nome que se tornou referência mundial por sua arquitetura adaptada à realidade amazônica.
Inaugurado na década de 1970, o espaço representava uma Manaus que buscava se modernizar. A construção valorizava elementos marcantes da obra de Severiano, como o uso da madeira, a ventilação natural e a integração entre arquitetura e clima amazônico.
Com o passar dos anos, o imóvel deixou de abrigar a tradicional loja de departamentos e passou a funcionar como uma agência da Caixa Econômica Federal. Durante esse período, parte das características originais do projeto foi alterada.
Hoje, o prédio permanece abandonado, tornando-se um exemplo do contraste entre a importância histórica de uma obra e a dificuldade de preservação do patrimônio arquitetônico moderno de Manaus.
A antiga Credilar Teatro representa justamente a preocupação levantada pelo vice-secretário do Implurb, Pedro Paulo Cordeiro: muitas obras de Severiano Mário Porto ainda não recebem o reconhecimento como patrimônio, apesar de sua relevância para a história da arquitetura brasileira.
São situações que ajudam a dimensionar o paradoxo: Manaus possui obras reconhecidas como patrimônio e, ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades para mantê-las preservadas. “Todas essas construções que você citou estão listadas. São 23 obras”, explicou Cordeiro.
O que Manaus perde quando deixa sua arquitetura desaparecer?
A discussão vai além da conservação de prédios. Cada obra de Severiano Mário Porto conta uma parte da história de como a arquitetura brasileira passou a olhar para a Amazônia de maneira diferente. Seus projetos ajudaram a mostrar que construir na região não deveria significar simplesmente reproduzir modelos desenvolvidos para outros climas.
Sua arquitetura incorporou ventilação, sombra, materiais regionais e soluções construtivas adaptadas ao ambiente amazônico. Por isso, seu legado ultrapassa a estética dos edifícios e envolve conhecimento sobre como viver e construir na floresta.
É justamente por isso que o abandono dessas construções representa também uma perda de memória.
Manaus corre o risco de preservar apenas aquilo que lembra o período da borracha e deixar desaparecer uma outra fase fundamental de sua história arquitetônica.
O desafio colocado pela discussão é, portanto, transformar o tombamento em preservação efetiva. Porque reconhecer oficialmente uma obra como patrimônio é apenas o primeiro passo. O verdadeiro patrimônio só permanece vivo quando a cidade decide cuidar dele.
E, no caso de Severiano Mário Porto, a pergunta que fica é incômoda: se um arquiteto reconhecido internacionalmente não consegue ter suas obras preservadas na própria Manaus, o que isso diz sobre a forma como a cidade cuida da própria memória?
Principais obras no Amazonas
1965 – Estádio Vivaldo Lima, Manaus (demolido)
1967 – Restaurante Chapéu de Palha (demolido)
1969 – Edifícios como a sede da Petrobrás
1971 – Sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus Suframa, Manaus
1971 – Residência do Arquiteto, Manaus
1973 – Campus da Universidade da Amazônia (UFAM)
1978 – Residência Robert Schuster, Tarumã, Manaus
1983 – Centro de Proteção Ambiental de Balbina, Presidente Figueiredo
1979 – Pousada dos Guanavenas, Ilha de Silves
1992 – Parque Urbanização de Ponta Negra, Manaus
1994 – Sede da Aldeia Infantil SOS (ONG vinculada à Unesco)
Sede do Fórum de Justiça Henoch Reis


