Um grupo de venezuelanos se reuniu no fim da tarde deste sábado (3/1), no Largo de São Sebastião, no Centro de Manaus, em um ato marcado por muita emoção. A mobilização ocorreu após ações atribuídas aos Estados Unidos contra o regime do presidente Nicolás Maduro que foi capturado na madrugada pelas Forças Militares norte-americanas.
Durante o ato, os manifestantes cantaram o hino nacional da Venezuela, entoaram gritos de liberdade e exibiram bandeiras do país. Apesar do clima de união, os participantes fizeram questão de reforçar que o momento não era de celebração.
“A gente fica com muito sentimento ao olhar essa notícia em todos os meios de comunicação. Também existe alegria, mas isso aqui não é uma festa”, afirmou Jofre, um dos representantes do grupo. “É uma expressão do venezuelano se reunir, dar uma pequena comemoração, mas entendendo o peso do que está acontecendo.”
Segundo ele, o ato também teve como objetivo dialogar diretamente com os brasileiros.
“A gente faz essa incidência para dizer ao cidadão brasileiro: estamos aqui e precisamos de ajuda”, declarou. “Precisamos de ajuda porque estamos enfrentando um regime que tem armas. Nós não temos armas.”
Jofre afirmou que os venezuelanos veem com expectativa a atuação internacional, especialmente dos Estados Unidos.
“A gente olha para os Estados Unidos e entende que isso não é uma invasão, não é um ataque”, disse. “O que foi feito é uma pressão. A gente agradece ao presidente Donald Trump pela extração que fez contra Nicolás Maduro, para que ele responda à justiça americana.”
Para ele, o momento simboliza um possível ponto de virada após décadas de sofrimento.
“São 26 anos de sofrimento, 26 anos afastados da nossa realidade”, afirmou. “Nós chegamos aqui em Manaus e, no começo, perdemos até a cidadania. Mas o Brasil nos acolheu.”
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Em um relato emocionado, Jofre contou como chegou à capital amazonense em 2017.
“Eu cheguei aqui desidratado, com uma mala só de sonho”, relembrou. “Manaus, a Amazônia e o Brasil brindaram a oportunidade de trabalhar com a gente.”
Ele destacou que os venezuelanos presentes no ato são trabalhadores e profissionais de diversas áreas.
“Aqui tem advogados, professores, pedagogos, trabalhadores da PDVSA. Eu sou formado em administração, técnico em eletrônica”, disse. “Hoje eu tenho minha empresa na Praça 14. A gente trabalha e contribui para o crescimento da Amazônia.”
Questionado sobre a possibilidade de retornar à Venezuela, Jofre foi cauteloso.
“O sentimento de querer voltar para casa sempre vai existir”, afirmou. “Mas nenhum de nós pode ir agora. É cruel. Se a gente voltar, fica preso, fica na cadeia […] O regime ainda não caiu. Isso aqui é só um passo. Por isso eu repito: não é festa.”
Papel da oposição e expectativa por mudanças
A professora Minerva Ribeiro também participou do ato e falou sobre o papel da oposição venezuelana. Para ela, Maria Corina Machado é uma figura central no processo.
“Ela saiu da Venezuela por proteção própria”, afirmou. “É uma mulher que luta há muitos anos pela liberdade da Venezuela, e nós seguimos junto com ela […] Ela tem um apoio muito importante dentro e fora do país. Sem ela, lamentavelmente, não existe liberdade.”
Minerva também comentou a situação de Edmundo González Urrutia.
“Sim, ele deveria assumir como presidente”, disse. “Mas, no momento, não está dado ainda. A família dele sofre perseguição, o genro está preso há meses, ninguém sabe nem como ele está […] Ele quer assumir, mas ainda não tem liberdade para isso.”
Sobre as eleições recentes, Minerva foi direta.
“Era muito difícil Maduro entregar o poder”, afirmou. “A gente já sabia que era uma ditadura. As eleições anteriores já foram roubadas, e essas agora foram ainda mais descaradas.”
Ela também criticou a falta de participação dos venezuelanos que vivem no Brasil.
“Os consulados foram fechados pela ditadura”, disse. “Somos cerca de oito mil venezuelanos fora do país [em Manaus] que queriam votar, mas não tivemos oportunidade. Mesmo assim, a oposição ganhou.”
Desde 2017, o Brasil acolheu mais de 609 mil venezuelanos, com Roraima como principal porta de entrada; em 2025, os venezuelanos eram o maior grupo estrangeiro residente, cerca de 271 mil vivem no Brasil como refugiados,
Carreata e manifestações pela cidade
Além do ato no Largo de São Sebastião, venezuelanos realizaram uma carreata na Avenida Max Teixeira, na Zona Norte de Manaus. Motoristas de aplicativo se uniram ao buzinaço, acompanhados de amigos e familiares.