Na política de Coari, sobrenome nunca foi apenas sobrenome. Foi patrimônio eleitoral, estrutura de poder e, durante anos, quase um cartão de visitas. Por isso, a escolha de Keitton de aparecer cada vez mais como “Batista”, deixando “Pinheiro” em segundo plano na identidade política, dificilmente passa despercebida.
Não significa que o sobrenome tenha desaparecido do nome civil. Keitton Wyllyson Pinheiro Batista continua sendo seu nome completo de registro. O que muda é a forma como ele escolhe ser apresentado politicamente.
E aí está o detalhe que interessa. Quando o sobrenome Pinheiro começa a carregar também o peso de uma família politicamente dividida, adotar Batista pode ser uma maneira de tentar vender uma imagem de independência.
O sobrenome que abriu portas agora virou um problema?
Durante anos, Keitton foi apresentado como Pinheiro, e não por acaso. Ser integrante da família de Adail Pinheiro significava estar inserido em um dos grupos políticos mais tradicionais de Coari. Foi nesse ambiente que Keitton construiu sua carreira, chegou à Prefeitura e se tornou uma das principais figuras políticas do município.
Só que a política tem memória curta quando o poder muda de direção. Agora, com a família dividida e projetos eleitorais diferentes dentro do próprio grupo, o sobrenome que antes era ativo eleitoral também pode começar a funcionar como uma espécie de etiqueta política.
Keitton parece ter percebido isso. Se antes bastava ser Pinheiro, agora é preciso explicar quem ele é. Batista quer disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa pelo Agir e tenta apresentar a experiência administrativa como seu principal ativo eleitoral.
Em vez de disputar a eleição apenas como integrante de um clã tradicional, Keitton quer ser reconhecido como alguém que passou pela Prefeitura, enfrentou problemas administrativos e acumulou experiência para levar esse conhecimento ao Legislativo.
De herdeiro político a candidato com marca própria
A eleição de 2026 pode representar justamente esse teste. Keitton terá de provar que consegue transformar a experiência acumulada na Prefeitura em votos para a Aleam sem depender integralmente da estrutura familiar.
O discurso de gestão será fundamental nessa operação. Planejamento, indicadores, resultados e experiência administrativa passam a ocupar o espaço que antes era naturalmente preenchido pelo sobrenome. É uma tentativa de transformar herança política em capital próprio.
Só que existe uma pergunta incômoda nessa estratégia: se o sobrenome Pinheiro foi parte importante da construção de Keitton como político, até onde é possível se afastar dele sem também se afastar da própria história?
Essa é a equação que Keitton terá de resolver, porque em Coari o sobrenome Pinheiro ainda tem peso.
Lados opostos
Do outro lado está Emanoel Pinheiro, filho do prefeito Adail Pinheiro e alinhado ao grupo político do senador Omar Aziz, que também disputa uma vaga na Aleam. Na prática, a eleição de 2026 colocou dois integrantes da mesma família em palanques diferentes.
E é justamente aí que a disputa começa a ficar interessante. Keitton está ligado ao grupo de David Almeida.
Em uma região onde a família Pinheiro construiu uma das estruturas políticas mais tradicionais do Médio Solimões, a existência de duas candidaturas competitivas para a Aleam pode significar a primeira grande disputa interna pelo controle político do grupo em muitos anos.
