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Deepfakes e IA nas eleições de 2026 impõem novos desafios à Justiça Eleitoral

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Deepfakes e IA nas eleições de 2026 impõem novos desafios à Justiça Eleitoral

Em 4 de outubro de 2026, mais de 155 milhões de brasileiros devem ir às urnas para escolher deputados federais e estaduais ou distritais, dois senadores, governadores e o presidente da República. O tamanho do pleito já impõe desafios logísticos históricos. Mas o maior teste da democracia brasileira neste ciclo pode ser invisível: o impacto da inteligência artificial sobre a formação da opinião pública.

Segundo a Unesco, a desinformação consiste em tentativas deliberadas de confundir ou manipular pessoas por meio da disseminação de informações falsas ou enganosas. No ambiente eleitoral, o efeito vai além da mentira explícita. O objetivo é interferir na racionalidade do eleitor, alterar prioridades e influenciar decisões políticas.

Se em 2018 o debate esteve centrado no disparo em massa de mensagens e na circulação de boatos em aplicativos fechados, em 2026 o cenário é mais sofisticado. A IA generativa tornou a produção de textos, imagens, vídeos e áudios falsos mais rápida, barata e com aparência profissional. Deepfakes e conteúdos hiperpersonalizados passaram a integrar o arsenal da disputa política.

Wollace de Souza Picanço: Doutorando em Engenharia Elétrica (Sistemas de Controle e Automação Modernos), Mestre em Engenharia Elétrica (Automação e Controle de Sistemas) pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Graduado em Computação e Graduando em Engenharia Elétrica, tem experiência em Projeto de interface homem-máquina, Algoritmos Computacional, Inteligência Artificial (Machine Learning), BigDdata.

Para o especialista em IA, consultado pela Rede Onda Digital, Wollace de Souza Picanço, o debate sobre os impactos da tecnologia precisa ir além do alarmismo.

“O avanço acelerado das tecnologias de Inteligência Artificial tem provocado debates intensos sobre seus impactos na cognição humana. Entre os argumentos mais recorrentes, destaca-se a ideia de que o uso frequente de sistemas inteligentes levaria a uma suposta ‘preguiça cognitiva’”, afirma.

Ele pondera que a crítica, embora legítima, muitas vezes simplifica o problema. “Historicamente, toda inovação, da escrita às calculadoras, gerou receios semelhantes, sem que isso resultasse, necessariamente, em empobrecimento cognitivo coletivo. O verdadeiro risco não está na IA, mas na falta de planejamento, orientação e reflexão crítica sobre seu uso.”

Chatbots como mediadores políticos

Estudos internacionais indicam que chatbots vêm sendo utilizados como fonte de informação política e até como orientadores de voto. Na Holanda, pesquisa da Universidade de Amsterdã apontou que parte dos eleitores estaria disposta a seguir recomendações feitas por sistemas de IA. No Chile, mais de um quarto declarou ter recorrido a chatbots durante o período eleitoral. Nos Estados Unidos, levantamento do MIT mostrou que interações com chatbots politicamente orientados foram capazes de alterar preferências de voto de forma mensurável.

No Brasil, o cenário é especialmente sensível. Pesquisa do InternetLab revelou que metade dos usuários de WhatsApp afirmou já ter utilizado algum recurso de IA poucos meses após o lançamento da Meta IA no país. Considerando que 99,1% dos usuários de aplicativos de mensagem utilizam o WhatsApp, a circulação de conteúdos políticos nesses ambientes ocorre em escala massiva e com baixo grau de transparência.

Helso do Carmo Ribeiro:Possui graduação em Ciências Sociais Jurídicas DIREITO pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ (1987) e graduação em FILOSOFIA pela Universidade Federal do Amazonas UFAM (1998). Mestre Profissional em Direito Processual pela Universidade Nilton Lins (2002). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público.

O cientista político Helson Ribeiro, avalia para a Rede Onda Digital, que a capacidade de identificação dessas ferramentas ainda é limitada.

“Olha só, eu entendo que a grande maioria do eleitorado não tem condições, eu me incluo nisso, de definir claramente se ele está conversando com um humano real ou é um chatbot que colocaram para influenciá-lo. Então eu acredito que sim, vai influenciar na decisão dos votos, e a proteção do eleitor eu acho muito pequena.”

Ele estima que menos de 10% dos eleitores tenham condições de perceber quando estão diante de um sistema automatizado. “A grande maioria vai passar batido e não vai saber do que se trata. O problema é quando isso vem com as deepfakes. Você pega um pedaço de notícia verdadeira, desvirtua, e o eleitorado não tem condições de decifrar o que é verdadeiro e o que é falso.”

Ribeiro relata um episódio pessoal para ilustrar o fenômeno. Durante uma viagem, ouviu de um vizinho a reprodução de uma suposta notícia internacional manipulada por IA. “Isso é difícil ser diagnosticado de primeira e quando é transmitido em larga escala, às vezes de outro país, fica muito difícil para a Justiça Eleitoral fiscalizar e punir quem faz.”

Regulação corre atrás da tecnologia

Diante desse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou a Resolução 23.732/2024, que passa a valer integralmente nas eleições de 2026. A norma proíbe o uso de deepfakes na propaganda eleitoral, obriga campanhas a informarem quando utilizarem inteligência artificial e restringe o uso de robôs no contato com eleitores. Também prevê responsabilização de plataformas que não removerem conteúdos ilegais ou antidemocráticos.

Para Helson Ribeiro, porém, as lacunas permanecem. “As lacunas existem e vão continuar existindo. Essa galera das EAs que dominam isso está sempre à frente. Quando a Justiça Eleitoral, principalmente o Ministério Público Eleitoral, chega próximo, eles já inventam algo mais complicado ainda.”

Segundo ele, há ainda o desafio da origem dos conteúdos. “Às vezes disparam as deepfakes de lugares que você não vai ter facilidade de coibir, de acessar. Alguma fiscalização existe e vai existir, mas essa galera sai na frente. Vai ser difícil concorrer com eles.”

Wollace Picanço concorda que o debate precisa ser sistêmico. “Grande parte das críticas à IA revela uma lacuna de pensamento estratégico. Em vez de analisar a tecnologia como parte de um sistema maior que envolve educação, cultura organizacional, políticas públicas e ética, o debate se limita a reações defensivas.”

Ele defende que a IA pode atuar como ferramenta de ampliação cognitiva, inclusive no ambiente político. “Quando utilizada de forma orientada e crítica, a IA pode auxiliar na organização de informações, na simulação de cenários e no apoio ao raciocínio analítico. O problema não está na automação do esforço, mas na ausência de critérios claros para seu uso.”

Democracia sob teste tecnológico

A eleição de 2026 tende a consolidar uma nova etapa da disputa política digital. Se antes o foco estava em fake news compartilhadas manualmente, agora a preocupação recai sobre sistemas capazes de gerar conteúdos personalizados, interagir individualmente com eleitores e operar em ambientes privados, como grupos fechados de mensagens.

Nesse contexto, a Justiça Eleitoral enfrenta o desafio de equilibrar liberdade de expressão, inovação tecnológica e igualdade de condições entre candidatos. Ao mesmo tempo, especialistas apontam que a proteção democrática não depende apenas de regulação, mas de educação midiática e formação crítica do eleitor.

Como resume Wollace Picanço, “o verdadeiro risco não está na IA, mas na falta de planejamento e reflexão estratégica sobre seu uso”. Em um país com dimensões continentais e eleições historicamente polarizadas, a inteligência artificial deixa de ser apenas ferramenta tecnológica e passa a ocupar o centro do debate sobre o futuro da democracia brasileira.