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Entre o aperto e a disciplina: história real ilustra dilema financeiro de milhões de brasileiros

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Entre o aperto e a disciplina: história real ilustra dilema financeiro de milhões de brasileiros
(Foto: Arquivo / Agência Brasil)

Com uma trajetória marcada por décadas de trabalho informal e orçamento apertado, a história de Wanda Serrão expõe uma realidade comum a milhões de brasileiros: a dificuldade crônica de poupar mesmo com esforço contínuo. Aos quase 60 anos, a cozinheira autônoma afirma que sempre esteve inserida em um ciclo de renda voltado exclusivamente para a sobrevivência, sem margem para planejamento financeiro.

Em entrevista à Rede Onda Digital, Wanda relata que, durante anos, o dinheiro recebido era integralmente destinado ao pagamento de despesas básicas e à manutenção da casa. Mesmo com a melhora gradual da situação familiar, à medida que os filhos cresceram, o equilíbrio financeiro nunca foi alcançado.

“Eu sempre vivi no vermelho, só trabalhando. O que eu recebia era pra pagar as contas, não dava pra guardar nada. Era difícil comprar as coisas, pagar, sustentar a casa. Depois que meus filhos foram crescendo, as coisas foram melhorando, me sobrava alguma coisa, mas mesmo assim eu continuava no vermelho”, lembra a cozinheira.

Esse cenário só começou a mudar a partir da venda de um imóvel, cuja quitação é feita em parcelas mensais. O novo fluxo de renda, ainda que limitado, passou a representar mais do que um reforço financeiro, tornou-se um ponto de partida para a construção de uma nova relação com o dinheiro. Cada parcela recebida passou a ser tratada como um compromisso pessoal de organização e disciplina, sinalizando uma mudança de comportamento baseada menos no aumento de renda e mais na gestão dos recursos disponíveis.

Wanda Serrão (Foto: Arquivo pessoal)

Guardar antes de gastar

A estratégia adotada por Wanda Serrão revela um comportamento financeiro pautado pela disciplina e pelo compromisso com objetivos de longo prazo. Segundo ela, todo recurso que entra é direcionado para uma reserva específica, mantida em uma conta bancária com finalidade definida, o que reforça o controle sobre os gastos.

“A maneira que eu estou economizando é guardar o dinheiro que chega na minha mão, no meu objetivo do banco. Tô guardando. Se eu tiro alguma parte, eu coloco no lugar. Porque eu não posso gastar e não colocar no lugar. Senão mais tarde eu não vou poder nem comprar outro imóvel, muito menos colocar um negócio”, revela Serrão.

Sem saber, Wanda aplica, na prática, o que o influenciador de finanças Primo Pobre (Eduardo Feldberg) prega em seus vídeos para milhões de seguidores: pagar a si mesmo primeiro. Feldberg, que criou o canal justamente para quem tem pouca renda, explica que não adianta esperar sobrar dinheiro no fim do mês para investir, porque ele não vai sobrar. A solução, segundo ele, é separar um percentual assim que o dinheiro entra.


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Fontes de renda alternativas

Outro ensinamento do Primo Pobre é a importância de criar novas fontes de renda. Ele costuma dizer que não conhece nenhum milionário que tenha apenas uma fonte de renda. No caso de Wanda, a venda do imóvel gerou um fluxo mensal como uma segunda renda que, mesmo temporária, foi o impulso de que ela precisava para começar a poupar.

“Guardar um dinheirinho, economizar. Porque como eu já tô com quase 60 anos, eu preciso ter uma renda mais tarde lá no meu futuro, quando eu tiver já bem velhinha”, diz Wanda.

É uma lição simples, mas poderosa, e que vai de encontro aos ensinamentos do Primo Pobre: enquanto a pessoa não tiver uma meta ou um sonho claro para realizar, qualquer coisa na vitrine de um shopping pode levar o seu dinheiro.

Primo Pobre (Foto: Reprodução / Redes sociais)

Pequenos gestos, grandes mudanças

A trajetória de Wanda Serrão evidencia uma mudança de comportamento financeiro construída fora dos circuitos tradicionais de educação econômica. Sem formação específica, sem consumo regular de conteúdos sobre investimentos e distante do mercado financeiro, ela adotou uma estratégia baseada em decisão pessoal e prática cotidiana: interromper o ciclo de gastos imediatos e iniciar a formação de reserva a partir de uma nova fonte de renda.

O movimento, ainda que simples, dialoga com princípios amplamente difundidos por educadores financeiros populares. Entre eles, está a ideia de disciplina no consumo, sintetizada pelo influenciador Eduardo Feldberg, conhecido como Primo Pobre, ao defender que a incapacidade de renunciar a pequenos gastos compromete a possibilidade de alcançar objetivos maiores no longo prazo.

As declarações de Feldberg citadas nesta reportagem foram extraídas de vídeos publicados em seu canal oficial no YouTube, entre 2022 e 2025, nos quais o influenciador aborda estratégias de educação financeira voltadas a pessoas de baixa renda.