Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, as campanhas eleitorais intensificam a disputa pela atenção do povo, com vídeos nas redes sociais, mobilização em canais de WhatsApp e mensagens voltadas ao confronto direto entre os adversários. No Amazonas, a polarização nacional também influencia a corrida pelo governo, disputada por Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL).
Para o empresário e consultor político Durango Duarte e a jornalista e marketeira política Jamile Galvão, a comunicação digital ganhou peso na mobilização das bases, mas seus resultados não podem ser medidos apenas por visualizações, curtidas e compartilhamentos. Na reta final, a capacidade de alcançar eleitores fora das bolhas políticas e de diminuir a resistência aos candidatos pode fazer diferença no resultado.
Segundo turno intensifica confronto entre campanhas
À Rede Onda Digital, Jamile Galvão avalia que a comunicação eleitoral ficou mais incisiva com a passagem do primeiro para o segundo turno. “Antes, no primeiro turno, o foco, querendo ou não, estava em se destacar entre várias outras opções. Agora, no segundo turno, virou mesmo um contra o outro, um verdadeiro fight”, afirma.

A jornalista aponta que a disputa digital passou a envolver vídeos curtos, conteúdos provocativos e canais de mobilização de apoiadores. No cenário presidencial, ela cita o deputado federal Nikolas Ferreira, associado à mobilização em favor de Flávio Bolsonaro, e André Janones, que usa linguagem informal e canais digitais para engajar apoiadores de Lula.
Durango Duarte também observa mudança no direcionamento das campanhas. “O primeiro turno focou em capilaridade e validação de palanques. No segundo turno, o tom virou cirúrgico e regionalizado”, avalia. Segundo ele, “Flávio quer consolidar a classe média e a centro-direita urbana. Lula tenta estancar a resistência nas capitais e blindar sua vantagem no interior”.

WhatsApp amplia mobilização, mas engajamento não garante votos
Os canais de WhatsApp e as convocações para que apoiadores compartilhem publicações, comentem conteúdos e cumpram tarefas tornaram-se parte importante das estratégias digitais. Para Durango, essas ferramentas são “a espinha dorsal da guerrilha digital para baixar custos de inserção e driblar restrições de impulsionamento pago”.
O consultor alerta, no entanto, que a mobilização busca “criar engajamento orgânico artificial, dar sensação de onda popular”. Na avaliação dele, é um modelo que produz uma percepção de popularidade sem que isso signifique necessariamente a conquista de novos eleitores.

Jamile concorda que a mobilização em aplicativos pode ajudar as campanhas a superar limitações de alcance nas redes sociais. Segundo ela, as estratégias “são para tentar burlar as regras ou a forma como o algoritmo funciona”. Mas, ressalta, “o campo menos democrático que tem é o campo das redes sociais, porque ele é uma bolha. As pessoas se retroalimentam só daquilo que elas querem ver”. No Amazonas, acrescenta, a comunicação digital encontra limites adicionais: “Em muitas áreas a internet não chega com facilidade, ainda é muito o lance de relacionamento corpo a corpo”.
Para avaliar se um conteúdo alcançou pessoas além da base, Jamile afirma que “esse impacto é um impacto qualitativo, não quantitativo”. Ela recomenda observar a qualidade das interações, e não apenas o volume.
“Você vai ter comentários também que criticam o seu ponto de vista. Isso significa que o conteúdo, de fato, estourou uma bolha e começou a ser entregue para outras pessoas”, explica.

Durango defende outra forma de avaliação. “Curtidas e compartilhamentos vêm de bolhas convertidas. O eleitor que decide o voto geralmente é o silencioso”, diz. Para medir o impacto, propõe “cruzar trackings diários de intenção de voto com o comportamento qualitativo em grupos focais e dados de busca, ignorando métricas de vaidade”.
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Os dois especialistas também alertam para os riscos da disputa digital. Durango cita “a circulação de deepfakes, áudios cortados e desinformação em ambientes criptografados”. Segundo ele, “a mentira ganha tração rápida e o desmentido costuma chegar tarde demais”.
Jamile afirma que as campanhas têm “o lado A, que traz as pautas positivas, e o lado B, equipes montadas para espalhar fake news, para fazer o bullying cibernético, para fazer os ataques online”. Na avaliação dela, isso “fere vários outros valores éticos, morais” que, em suas palavras, a sociedade precisa discutir.
Disputa pelo Governo do Amazonas combina pautas locais e polarização nacional
No cenário estadual, Durango avalia que “Omar aposta na máquina, na capilaridade de prefeitos e na imagem de gestor experiente. Maria do Carmo nacionalizou o pleito, ancorando sua campanha na onda bolsonarista”. Na reta final, afirma, “o debate ficou inevitavelmente polarizado”, o que tende a influenciar as estratégias dos dois lados.
Jamile também identifica diferenças na construção das candidaturas. “Omar está cada vez mais falando muito da experiência dele, da trajetória política, porque ele tem isso muito forte, ele tem as ações para comprovar”, avalia, citando a defesa da Zona Franca de Manaus como parte do repertório do candidato. Já a campanha de Maria do Carmo, na análise da jornalista, “é mais pautada em ideologia”, associada à família Bolsonaro.
A jornalista aponta ainda diferença entre o comportamento eleitoral da capital e o do interior do Amazonas. Segundo ela, “Manaus é de direita e conservadora”, e Maria do Carmo “ganha na capital e perde no interior”, enquanto Omar, “quando chega no interior, ganha força”. Essa divisão torna mais importante adaptar a comunicação às características de cada região.
Apesar da influência nacional, Durango destaca que “o eleitor consome o debate nacional, mas decide com base em pautas locais (Zona Franca, BR-319, saúde e segurança)”.
“Candidatos locais tentam colar em padrinhos nacionais fortes, mas precisam modular o discurso para focar nos problemas do quintal amazonense”, diz.
Conquistar indecisos é desafio da reta final
Com a votação próxima, os especialistas apontam limites para estratégias voltadas apenas a mobilizar apoiadores já convencidos. Para Durango, o fator decisivo é “reduzir a rejeição e conquistar indecisos”.
“A esta altura, o voto está cristalizado e a militância já está mobilizada. O resultado depende de quem convencer o moderado a não anular o voto e conseguir desarmar a rejeição do adversário”, avalia.
Jamile segue linha semelhante. “Não adianta você discursar para pessoas que já estão convertidas”, afirma. Na avaliação dela, “você tem que focar nas pessoas que estão indecisas mesmo”, o que ganha peso em uma disputa apertada.
A reta final, portanto, coloca as campanhas diante de um desafio que vai além de ampliar a presença nas redes sociais. A mobilização digital ajuda a organizar apoiadores e a fazer mensagens circularem, mas, segundo os especialistas, o efeito eleitoral depende de a comunicação ultrapassar os grupos já convencidos, dialogar com públicos diferentes e responder às preocupações dos eleitores.
