Com o início do horário eleitoral das eleições de 2026, candidatos voltam a ocupar diariamente espaços reservados no rádio e na televisão para apresentar propostas e disputar a atenção dos eleitores. Em meio ao crescimento das redes sociais e à mudança na forma como o público consome informação política, uma pergunta permanece: quem ainda para para assistir?
A resposta encontrada pela Rede Onda Digital nas ruas de Manaus é menos simples do que um “sim” ou “não”. Há quem acompanhe a propaganda para conhecer os projetos dos candidatos, quem prefira mudar de canal, quem não demonstre interesse e quem considere que as promessas apresentadas dificilmente serão cumpridas.
Para o advogado e cientista político Helso Ribeiro, o horário eleitoral continua sendo um espaço de exposição das candidaturas, mas seu impacto varia conforme o perfil de cada eleitor.
“O eleitor não é um ser homogêneo. São diversas pessoas com heterogeneidade de pensamento”, afirma.
Segundo ele, existe o eleitor mais crítico, que acompanha a propaganda para comparar propostas, e também quem assista sem grande interesse, por curiosidade ou para conhecer candidatos que ainda não fazem parte de seu repertório político.
Quem assiste, assiste para comparar propostas
Entre os eleitores ouvidos pela equipe, o autônomo Raí Tavares afirmou que costuma acompanhar o horário eleitoral e considera a propaganda uma forma de avaliar os projetos apresentados pelos candidatos.
“É muito importante você assistir, porque você vê os projetos que os políticos têm”, disse.
Para ele, a propaganda também permite ao eleitor comparar o discurso dos candidatos com aquilo que conhece sobre suas trajetórias.
“O eleitor conhece o político, se ele está com historinha ou ele vai fazer mesmo o que está prometendo.”
Para outros, desconfiança supera o interesse
Essa percepção não é compartilhada por todos. A autônoma Edilena Ribeiro contou que assiste apenas ocasionalmente e afirma que as propagandas não foram capazes de mudar sua escolha em eleições anteriores. Segundo ela, parte do discurso apresentado durante as campanhas é vista com desconfiança.
“Eu não olho muito a propaganda, o que eles falam, porque, infelizmente, tem muita mentira”, afirmou.
Marlon Baraúna disse que não costuma acompanhar o horário eleitoral e relacionou a falta de interesse à percepção sobre as promessas dos candidatos no cotidiano da cidade.
“Eles só fazem prometer e não cumprem com o que eles prometem”, declarou.
Outro eleitor ouvido também afirmou que não costuma acompanhar a propaganda, embora ainda se considere indeciso sobre o voto.
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Ter audiência não significa mudar o voto
Para Helso Ribeiro, a existência de audiência não significa necessariamente capacidade de persuasão. Segundo o cientista político, um eleitor pode assistir ao programa sem alterar sua escolha, enquanto em outros casos uma mensagem pode reforçar uma convicção existente ou até provocar uma mudança de opinião.
“É possível, sim, ter audiência sem alterar o voto, e às vezes vai alterar o voto de alguns no horário”, explica.
Segundo ele, candidatos que já possuem mandato podem usar o espaço para prestar contas e reforçar presença junto ao eleitorado. Para quem ainda é pouco conhecido, a função pode ser mais básica.
“Para quem não é conhecido é um momento de aparecer, o eleitor ver o rosto da pessoa, tentar mostrar um trabalho.”

TV e rádio seguem como complemento às redes sociais
A transformação no consumo de informação política também alterou a posição da televisão e do rádio dentro das campanhas. Para Helso, o horário eleitoral não desapareceu, mas passou a funcionar como complemento aos canais digitais, já que parte da população ainda não utiliza redes sociais como Instagram, YouTube e TikTok com a mesma intensidade.
O rádio também mantém espaço, especialmente entre públicos que vivem em comunidades mais distantes dos centros urbanos, segundo o cientista político. Ele observa ainda que o público mais jovem tende a acompanhar menos a propaganda eleitoral tradicional, enquanto a televisão consegue alcançar pessoas que não necessariamente procuram conteúdo político na internet.
Especialista critica excesso de ataques na propaganda
Para Ribeiro, um dos principais problemas do horário eleitoral está no uso que os candidatos fazem do espaço. Na avaliação dele, a propaganda deveria ser usada prioritariamente para apresentar propostas, mas é comum encontrar músicas, elementos cômicos e troca de acusações.
“O grande problema que eu vejo no horário eleitoral é que há muita musiquinha, muita coisa cômica e pouca proposta”, critica.
Segundo ele, o excesso de ataques pode reduzir a capacidade do espaço de cumprir sua principal função, que seria ajudar o eleitor a conhecer as candidaturas e suas ideias. Ainda assim, considera que o horário eleitoral continua tendo valor dentro de uma eleição.
“Quem não é visto não é lembrado”, resume.
Os relatos colhidos em Manaus mostram que a audiência do horário eleitoral não desapareceu, mas também não ocorre de maneira uniforme. Em uma eleição em que televisão e rádio dividem espaço com vídeos curtos, influenciadores e conteúdos personalizados nas redes sociais, talvez a principal disputa de 2026 não seja apenas aparecer na tela, mas fazer o eleitor continuar olhando.
