Antes da bola começar a rolar nas quartas de final da Copa do Mundo, o torcedor brasileiro pode até dizer que está “órfão”. Afinal, a Seleção já fez as malas. Mas isso não significa que acabou a torcida. Pelo contrário. A história do Brasil oferece alguns bons motivos para escolher quem merece um empurrãozinho para avançar e quem merece o nosso “secador” aceso para voltar para casa mais cedo.
Se o critério for o nosso passado, a primeira torcida vai para a França. Os franceses tentaram por duas vezes fundar colônias em terras portuguesas da colonia brasileira, uma no Rio de Janeiro e outra no Maranhão, e nas duas deixaram uma influência que atravessa os séculos e chega até hoje.
A capital maranhense, São Luís, é a única capital brasileira que não foi fundada por portugueses. No Rio de Janeiro o rastro deixado por franceses está na geografia, como a Ilha de Villegainon, quanto na gastronomia, uma das mais sofisticadas fora da própria França.
A Missão Artística Francesa ajudou a moldar a cultura brasileira ao ser convocada por Dom João VI. Artistas como o pintor Jean-Baptiste Debret, o paisagista Nicolas-Antoine Taunay, o arquiteto Auguste Henri Victon Montigny e o chefe da missão, Joaquim Lebreton, organizaram o ensino oficial de artes no Brasil pré-imperial.
Além disso, os dois países dividem uma fronteira aqui na Amazônia por causa da Guiana Francesa e a relação diplomática é uma das mais antigas do continente. Hoje, França e Brasil são parceiros em diversas áreas. Dá para torcer sem culpa.
Do outro lado estará Marrocos. E, curiosamente, também há razões históricas para simpatizar com os marroquinos. Foi de lá que partiram milhares de judeus sefarditas que ajudaram a escrever um capítulo importante da história da Amazônia.
No século XIX, famílias vindas de cidades como Tânger, Tetuão e Rabat chegaram a Belém, Manaus e ao interior amazônico, participando do comércio da borracha e da ocupação econômica da região. Se França e Marrocos se enfrentam, o Brasil acaba tendo um pé em cada lado.
Simpatias históricas
No duelo entre Espanha e Bélgica, a escolha parece mais fácil. A Espanha faz parte da própria formação da América do Sul e enviou uma das maiores correntes migratórias para o Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX.
Milhões de brasileiros têm sobrenomes e raízes espanholas. Já a Bélgica nunca teve um papel histórico comparável na construção do país. Nesse confronto, os espanhóis largam na frente também na arquibancada da história.
Abertura dos portos x meio ambiente
Noruega e Inglaterra colocam outro dilema em campo para o torcedor orfão da Seleção Brasileiira.
Os noruegueses acabaram de eliminar o Brasil, o que já seria motivo suficiente para muitos torcedores cruzarem os braços e colocarem a camisa vermelha deles na “boca do sapo”, mas não podemos deixar de considerar outros aspectos.
Eles são, por exemplo, os maiores investidores do Fundo Amazônia, que garante a realização de projetos de preservação, conservação e sustentabilidade ambiental até aqui no Amazonas.
Para se ter idéia, eles já injetaram no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o gestor do Fundo Amazônia, R$ 3,8 bilhões. O segundo maior investidor deste fundo é a Alemanha, que injetou R$ 387 milhões, dez vezes menos.
Já os ingleses tiveram papel decisivo no reconhecimento da Independência do Brasil, financiou boa parte da infraestrutura do Império e pressionou pelo fim do tráfico negreiro e o fim da escravidão negra no País.
Aqui em Manaus, no Largo de São Sebastião há um monumento em homenagem a abertura dos portos brasileiros as nações amigas, uma decisão imperial que beneficiou principalmente este comércio com os ingleses.
Manaus, por exemplo, concentrou os investimentos deles em áreas como comércio (construíram o complexo Booth Line), transporte público por bondes (Manaus Trailway) e serviços públicos, como a importação, bloco por bloco, do prédio da Alfândega e a construção do Manaus Harbour, também conhecido como Porto de Manaus.
Se o torcedor decidir pela memória histórica, os ingleses levam vantagem. Se decidir pela dor da eliminação, basta torcer contra a Noruega e a simpatia deles pela Amazônia.
Hermanos x a turma do chocolate e relógios
O confronto mais difícil para o brasileiro definir uma torcida é o que reúne Argentina e Suíça. A Suíça ajudou a fundar Nova Friburgo, cidade da região Serrana do Rio de Janeiro, e mantém relações históricas importantes com o Brasil (grandes importadores de cacau para a indústria de chocolates), mas a Argentina ocupa um lugar único na nossa história, que vai do amor ao ódio.
Os dois países já estiveram em lados opostos de guerras, disputaram influência no continente, transformaram a rivalidade em parceria com o Mercosul e construíram, dentro de campo, a maior rivalidade do futebol mundial.
É justamente essa rivalidade que embaralha a lógica. Pela história diplomática, a Argentina é um dos países mais ligados ao Brasil. Pela história do futebol, talvez seja o adversário que o brasileiro mais goste de ver perder.
No fim das contas, com o Brasil fora da Copa, a arquibancada verde e amarela pode recorrer aos livros de História para escolher um novo favorito. Afinal, às vezes a rivalidade entre nações começou muito antes do primeiro apito, e algumas amizades também.
