O uso de plantas medicinais e fitoterápicos no tratamento do câncer desperta interesse entre pacientes, familiares e profissionais de saúde. Em meio aos efeitos colaterais das terapias convencionais e à busca por melhor qualidade de vida, substâncias naturais passaram a ser vistas como alternativas ou complementos no enfrentamento da doença. No entanto, especialistas alertam: apesar de pesquisas promissoras, a ciência ainda não respalda o uso seguro de fitoterápicos em oncologia clínica.
O câncer e os desafios do tratamento
O câncer compreende mais de cem doenças caracterizadas pelo crescimento desordenado de células anormais, capazes de invadir tecidos e órgãos. No Brasil, a estimativa foi de aproximadamente 625 mil novos casos por ano no triênio 2020–2022. Fatores como idade acima de 50 anos, histórico familiar, tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, excesso de peso e alimentação inadequada aumentam o risco de desenvolvimento da doença.
Cirurgia, quimioterapia, radioterapia e transplante de medula óssea seguem como os principais pilares do tratamento. Contudo, essas abordagens frequentemente provocam efeitos adversos como dor oncológica, mucosite, náuseas, vômitos e alterações gastrointestinais, condições que podem reduzir a adesão ao tratamento e impactar negativamente o prognóstico e a qualidade de vida.

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Fitoterapia: o que diz a legislação brasileira
No Brasil, os fitoterápicos são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pela RDC nº 14/2010, esses medicamentos devem ser produzidos exclusivamente a partir de matérias-primas vegetais, com eficácia, segurança e qualidade comprovadas por documentação científica ou ensaios clínicos.
Na Nutrição, a prescrição de fitoterápicos é regulamentada pelo Conselho Federal de Nutricionistas (CFN). Apenas profissionais com título de Especialista em Nutrição em Fitoterapia podem prescrever medicamentos fitoterápicos como complemento da prescrição dietoterápica. A indicação de plantas medicinais e chás, entretanto, é permitida a todos os nutricionistas.
As plantas mais estudadas em oncologia
Algumas plantas concentram maior volume de estudos na área oncológica:
- Aloe vera, investigada para prevenção e tratamento da mucosite induzida por quimioterapia e radioterapia;

- Cannabis sativa, estudada principalmente para controle da dor, náuseas e melhora do apetite;

- Gengibre (Zingiber officinale), avaliado para redução de náuseas e vômitos em pacientes em quimioterapia.

Apesar dos resultados iniciais, não há consenso científico que comprove segurança e eficácia desses fitoterápicos em pacientes com câncer.
Câncer de pâncreas: baixa sobrevida e novas esperanças
Considerado um dos tumores mais letais, o câncer de pâncreas apresenta uma das menores taxas de sobrevivência entre os tipos de câncer. De acordo com a instituição filantrópica Cancer Research UK, apenas 5% dos pacientes vivem mais de dez anos após o diagnóstico.
Nesse cenário, um estudo recente da Universidade Batista de Hong Kong, na China, trouxe novos olhares para a fitoterapia. Pesquisadores analisaram a isoliquiritigenina (ISL), um composto presente no alcaçuz (regaliz), e observaram que a substância foi capaz de reduzir significativamente o crescimento de tumores pancreáticos em camundongos.
Nos experimentos, o ISL diminuiu a sobrevivência de células cancerígenas em laboratório e reduziu o volume tumoral em modelos animais. Os cientistas também observaram que o composto potencializou o efeito de medicamentos quimioterápicos já utilizados, por meio do bloqueio da autofagia, um processo celular que pode ser explorado por tumores para sobreviver.
“Vale a pena considerar este composto para o desenvolvimento de uma nova geração de tratamento quimioterápico”, afirmou Joshua Ko Ka-Shun, professor da Universidade Batista de Hong Kong.

Alcaçuz não é tratamento
Apesar dos resultados animadores, os próprios pesquisadores fazem um alerta: o consumo do alcaçuz não deve ser feito de forma indiscriminada. A planta possui efeitos farmacológicos que podem causar danos quando usada em excesso e não substitui tratamentos médicos. Os estudos ainda estão restritos a laboratório e animais, sem comprovação clínica em humanos.

O perigo da automedicação
Pesquisas mostram que mais da metade dos pacientes oncológicos não informam à equipe de saúde sobre o uso de fitoterápicos. Essa omissão aumenta o risco de interações medicamentosas, toxicidade e falhas terapêuticas, já que substâncias naturais podem interferir na ação de quimioterápicos.
Além disso, muitos profissionais de saúde não abordam rotineiramente o tema durante as consultas, criando uma lacuna perigosa na comunicação.
A última atualização do Consenso Nacional de Nutrição Oncológica em 2016 não estabeleceu recomendações para o uso de fitoterápicos em pacientes com câncer, justamente pela falta de evidências clínicas sólidas.
Especialistas são categóricos: não existe, até o momento, recomendação segura para o uso de fitoterápicos no tratamento oncológico. A prática pode representar riscos reais e comprometer a eficácia da terapêutica convencional.
O que a ciência aponta
Embora pesquisas como a da isoliquiritigenina apontem caminhos promissores, o uso clínico de fitoterápicos em oncologia ainda depende de:
- Ensaios clínicos em humanos
- Definição de dosagem segura
- Avaliação de interações medicamentosas
- Protocolos baseados em evidência científica
Até lá, a orientação é clara: qualquer uso de plantas medicinais ou suplementos deve ser comunicado à equipe de saúde.