Pesquisadores da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, identificaram que o calor pode afetar a comunicação química de besouros da espécie Nicrophorus vespilloides, conhecidos por enterrar carcaças de animais. Em laboratório, a temperatura passou de 20°C para 26°C e, com isso, as interações de caráter sexual entre os machos se tornaram mais frequentes.
O estudo foi conduzido pela doutoranda Solène Morelle e apresentado em uma conferência da Sociedade de Biologia Experimental, em Florença, na Itália.
A principal hipótese dos cientistas é que o calor tenha afetado os sinais químicos usados pelos besouros para identificar o sexo de outros indivíduos. A mudança na temperatura pode modificar a composição da camada externa do corpo do inseto, que protege contra a perda de água e também carrega informações para o reconhecimento de outros besouros.
Sob estresse térmico, a composição da superfície do corpo pode ser modificada rapidamente para manter sua função de proteção, e isso pode ocorrer às custas das informações contidas no sinal, explicou Morelle.
No experimento, a maioria das duplas de machos já apresentou esse tipo de interação em condições normais. A média, que era de pouco mais de um episódio por dupla a 20°C, praticamente dobrou sob a temperatura mais alta, chegando a cerca de dois.
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Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que ainda não há evidências de que o calor tenha alterado a atração dos animais. A hipótese considerada mais provável é que os machos tenham encontrado maior dificuldade para identificar corretamente o sexo de outros besouros.
Morelle também ressalta que esse comportamento não deve ser interpretado com base em conceitos aplicados aos seres humanos. Segundo ela, os dados indicam uma possível falha no reconhecimento sexual, e não uma mudança na preferência dos insetos.
Além disso, os cientistas registraram um aumento nas interações recíprocas entre machos sob temperaturas mais elevadas. O significado desse comportamento ainda está sendo investigado.
O que esse estudo pode trazer para discussão?
A pesquisa reforça que as mudanças climáticas podem provocar efeitos inesperados sobre os animais, indo além da sobrevivência e da perda de habitat.
Os resultados sugerem que o aumento da temperatura pode interferir na comunicação química entre indivíduos da mesma espécie, afetando o reconhecimento de parceiros e, possivelmente, o sucesso reprodutivo das populações.
A próxima etapa do estudo será verificar se essa dificuldade de reconhecimento reduz o contato dos machos com as fêmeas e se isso pode impactar a reprodução. Os pesquisadores também querem descobrir se essas alterações dificultam a identificação de invasores, o que poderia comprometer a sobrevivência da espécie.
Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, ela abre uma nova linha de investigação sobre como o aquecimento global pode influenciar comportamentos essenciais para a manutenção das populações animais.
