A renúncia do prefeito de Manaus, David Almeida, oficializada em um evento na Câmara Municipal nesta terça-feira (31/3), foi duramente criticada por parlamentares da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Durante a 22ª Sessão Ordinária, o presidente da Casa, deputado Roberto Cidade (UB), a deputada Alessandra Campelo (Podemos) e o deputado Delegado Péricles (PL) manifestaram insatisfação com a gestão do agora ex-prefeito e com a forma como a renúncia foi conduzida.
“Hoje é um dia muito triste para quem confiou no atual prefeito, para quem deu oportunidade para o homem público assumir um cargo por mais de quatro anos. Hoje é o dia da renúncia do atual prefeito David Almeida, um prefeito que não cumpriu suas promessas“, declarou Cidade.
O presidente da Aleam criticou a administração de Almeida, afirmando que Manaus está “abandonada” e “só buraco”, e atribuiu a renúncia a interesses eleitorais.
“Por uma questão pessoal, por alguém que quer chegar ao poder do governo do Estado de qualquer jeito, hoje ele vai fazer uma coisa jamais vista na história da política amazonense”, disse, se referindo à cerimônia em que Almeida oficializou sua renúncia.
Cidade ainda lançou um desafio ao ex-prefeito, cobrando transparência sobre as emendas parlamentares que teria destinado à capital durante seus 12 anos como deputado. “Ele cobra dos deputados, nunca mandou nada, e nós não vamos mandar emenda para quem não tem responsabilidade com os recursos públicos”, afirmou.
“Administração perdida”
A deputada Alessandra Campelo (Podemos) iniciou sua fala destacando o estranhamento com o convite para o evento.
“Ontem, quando eu recebi um convite para renúncia, eu achei até estranho. Eu achei que ia ser um convite para a posse do novo prefeito, mas era um convite para a renúncia do ex-prefeito e a posse do novo prefeito vinha embaixo, nas entrelinhas”, observou.
Ela classificou a atitude como reflexo de uma “sede de poder” e usou o termo “narcisista” para descrever o ex-prefeito.
“Uma coisa é querer ser prefeito de Manaus. Outra coisa é saber ser prefeito, e foi exatamente o que ele não soube. Uma administração perdida”, criticou.
Campelo também rebateu a estratégia de Almeida de culpar deputados pela falta de investimentos na capital. “Não adianta só querer ser governador. Precisa saber fazer a diferença na vida das pessoas, e foi exatamente isso que faltou”, afirmou.
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A deputada finalizou desejando sorte ao novo prefeito, Renato Junior (Avante), e pedindo uma gestão com responsabilidade e sem terceirização da culpa.
“Eu espero que a administração, daqui para frente, tenha uma atitude diferente e com responsabilidade para o povo de Manaus, que pare de terceirizar a administração e a culpa pelos erros cometidos.”
“Vergonha” e “festa para renunciar”
O deputado Delegado Péricles (PL) foi o mais incisivo em suas críticas. Ele classificou como “vergonha” o evento realizado na Câmara Municipal para oficializar a renúncia.
“O que o prefeito está fazendo na Câmara agora é uma festa para renunciar o mandato que foi dado pelo povo. Já aconteceu isso em outros momentos, em que o mandatário apenas oficiava a sua renúncia. Mas não, o prefeito, com toda a sua arrogância, ele quer fazer um evento para mostrar que tem força, totalmente desconectado com a realidade”, disparou.
Péricles destacou a rejeição de Almeida entre a população e listou problemas estruturais da cidade.
“Os buracos que nós temos nas ruas, isso é em todos os bairros. Foi um dinheiro gasto para a infraestrutura, e o ano passado foi gasto um bilhão de reais, e nós não vemos isso na ponta. Com fortes indícios de desvio de dinheiro público”, afirmou, lembrando que chegou a propor uma CPI para investigar o caso.
O deputado também criticou o papel da Câmara Municipal. “É uma vergonha a gente saber que a Câmara Municipal, hoje, é o quintal da prefeitura, que o presidente da Câmara está aceitando fazer uma solidariedade de renúncia para o atual prefeito”, disse.
Renúncia de David Almeida
David Almeida renunciou ao cargo de prefeito de Manaus após menos de dois anos de mandato, ele foi reeleito em 2024. Com sua saída, assume o posto o vice-prefeito Renato Junior (Avante), que se torna, desde a redemocratização do Brasil em 1985, o primeiro prefeito da capital amazonense a nunca ter recebido um voto sequer do eleitor para qualquer cargo eletivo. Renato Junior herdou a prefeitura após ter se tornado vice na primeira eleição que disputou, no pleito do ano passado.