O avanço das redes sociais transformou a forma como opiniões são construídas no ambiente digital. Nesse cenário, uma prática tem ganhado destaque entre pesquisadores e especialistas em comunicação: o astroturfing, estratégia que simula apoio popular para influenciar percepções públicas, inclusive em processos eleitorais.
De acordo com a especialista portuguesa em comunicação e relações públicas Marta Araújo, o astroturfing representa “a criação artificial de apoio popular”, onde ideias, opiniões ou movimentos parecem espontâneos, mas são, na verdade, resultado de estratégias planejadas para moldar a opinião pública .
Marta, disse em seu canal do YouTube que a prática atua exatamente no ponto mais sensível da comunicação atual: a dificuldade de distinguir o que é autêntico do que é fabricado. “São comentários, publicações e grupos que parecem espontâneos, mas são coordenados e controlados”, explica .

Uma técnica antiga, potencializada pela tecnologia
Embora pareça um fenômeno recente, o astroturfing existe há décadas. Antes da internet, já era aplicado por meio de cartas ao leitor, associações de fachada e campanhas organizadas para simular apoio popular. O que mudou foi a escala.
Com as redes sociais, a prática se tornou mais rápida, acessível e difícil de detectar. Hoje, é possível criar milhares de contas falsas, automatizar interações e até utilizar perfis aparentemente independentes, os chamados “influenciadores sombra”, para reforçar narrativas específicas .
Esse cenário se torna ainda mais complexo com o uso de inteligência artificial. Ferramentas generativas permitem produzir textos, imagens, vídeos e até vozes com aparência humana em larga escala, ampliando o alcance e a sofisticação dessas operações. Para Marta Araújo, isso elevou o astroturfing “a um novo patamar”, tornando a manipulação mais discreta e difícil de identificar .
Impacto direto na opinião pública
Estudos internacionais reforçam o alerta da especialista. Pesquisa conduzida por Thomas Zerback, Florian Töpfl e Maria Knöpfle, publicado na revista New Media & Society, mostrou que comentários coordenados podem alterar percepções políticas e aumentar a incerteza dos eleitores, mesmo quando há alertas sobre possível manipulação.

Outro estudo, liderado por Robert Bond e publicado na revista Nature, demonstrou que sinais sociais em redes digitais têm impacto direto no comportamento eleitoral, influenciando decisões reais de voto.
No Brasil, pesquisas também indicam o uso dessas estratégias em disputas políticas. O pesquisador David Arnaudo identificou operações digitais com uso de bots e disseminação coordenada de conteúdo em processos políticos recentes. Já Viktor Chagas analisou grupos de WhatsApp nas eleições de 2018 e apontou padrões compatíveis com ações organizadas para influenciar o debate público.

Risco para as eleições de 2026
Para Marta Araújo, o principal perigo do astroturfing está na criação de uma falsa sensação de consenso. “Dá a impressão de que toda a gente concorda com determinada ideia, quando isso não corresponde à realidade”, destaca .
Esse efeito pode impactar diretamente as eleições de 2026. Ao inflar artificialmente o apoio a candidatos ou pautas, a prática distorce o debate público, influencia indecisos e reforça a polarização. Além disso, contribui para um cenário ainda mais preocupante: a perda de confiança na informação.
“Ao mesmo tempo que propaga desinformação, enfraquece a confiança geral. Quando tudo pode ser falso, o público tende a duvidar de tudo”, alerta a especialista .

No cenário das eleições de 2026, o desafio não será apenas combater notícias falsas, mas também identificar redes artificiais que simulam apoio popular. Mais do que convencer, o astroturfing atua moldando percepções, e é justamente esse efeito invisível que o torna uma das ferramentas mais perigosas da comunicação política contemporânea.