José Afonso Castro Pires, eletricista que trabalhava na parte elétrica de embarcações, desapareceu em 1º de janeiro de 2025, em Manaus. Desde então, a família não teve mais notícias dele.
“Num desaparecimento não há corpo, então não há resolução. A vida do meu pai sumiu”, afirma o filho, o fotógrafo Diego de Alcântara Pires, à Onda Digital.

Os últimos passos antes do desaparecimento
Segundo Diego, o pai viajava com frequência para o interior, acompanhando embarcações, para verificar quadros de energia e conferir seu próprio trabalho. Por isso, era comum que ficasse dias sem sinal de celular durante essas viagens, sem que a família se preocupasse.
“Ele passou o Natal e o Ano Novo com a gente. No dia 1º, ele foi até a Marina Tauá para fazer a viagem”, relata. Testemunhas informaram à família que José Afonso chegou a cumprimentar pessoas na marina, mas não embarcou na lancha. Ele saiu de carro e não foi mais visto.
O estranhamento só surgiu dias depois. “Em 6 de janeiro recebemos uma ligação de um conhecido que perguntou sobre meu pai, porque fazia dias que estavam tentando entrar em contato com ele. ‘Seu pai nunca chegou aqui no trabalho’, disse esse nosso conhecido. Aí já entramos em desespero”, contou o fotógrafo.
Após o desespero inicial, a família registrou boletim de ocorrência e as buscas foram iniciadas. Ainda em janeiro, notificações de multas indicaram que o veículo do pai continuava circulando. A placa foi incluída no sistema Paredão e, no fim de fevereiro, o carro foi detectado e barrado em uma barreira policial, no trajeto entre Itacoatiara e Manaus.
Diego conta que o motorista abordado afirmou ter comprado o veículo por um preço baixo em uma concessionária de bairro. A polícia chegou a prender pessoas envolvidas com o carro, mas a família não sabe se elas seguem detidas. Parte dos envolvidos está foragida, e, segundo relato do fotógrafo, um dos principais suspeitos estaria em Joinville, Santa Catarina.
Mais de um ano depois, o caso não avançou. “Já querem fechar o inquérito, e aí iria para o Ministério Público, e não sabemos se ele ia continuar alguma coisa, porque nada é feito. Esperamos uma resolução para o caso”, disse Diego.
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Números de desaparecimentos no Amazonas
O Brasil registrou mais de 84 mil pessoas desaparecidas em 2025, o maior número desde o início dos levantamentos, em 2015.
No Amazonas, entre janeiro e maio de 2026, foram 389 casos de desaparecimento, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-AM). Dessas ocorrências, 286 pessoas foram localizadas.
De cada 100 registros no estado, cerca de 74 resultam em localização. Entre crianças e adolescentes, o índice sobe para 81,8%. Entre adultos, cai para 69,8%.
Em 2025, o Amazonas somou 982 desaparecimentos em todas as faixas etárias, número ligeiramente superior aos 967 casos de 2024. Conforme a SSP-AM, 70% dos casos envolvendo maiores de 18 anos registrados em 2025 foram solucionados. Os demais, somados a casos de anos anteriores, seguem em investigação.
No estado, desaparecimentos de menores de 17 anos são apurados pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), enquanto casos envolvendo adultos ficam a cargo da Delegacia Especializada em Ordem Política e Social (Deops).
A Polícia Civil reforça que não é necessário aguardar 24 horas para comunicar um desaparecimento. O registro pode ser feito assim que constatado, pelo Disque-Denúncia da Secretaria de Segurança, no 181, ou pela Emergência Policial, no 197.
Sensação equivalente ao luto
Para compreender a sensação que um desaparecimento provoca numa família, a Onda Digital conversou com Érica Vidal Rotondano, doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e Mestra em Educação e Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Amazonas.

Na avaliação da especialista, o contexto de um desaparecimento pode gerar sintomas físicos, como insônia, depressão, ansiedade, dificuldade de se perdoar e de seguir em frente, devendo-se buscar suporte para aprender a lidar e a conviver com a dor.
“O desaparecimento de um familiar ou amigo promove uma perda ambígua, isso porque gera inúmeras dúvidas a respeito de sua localização, se está vivo ou morto, se sumiu por vontade própria ou não, se foi vítima de sequestro, se está em sofrimento. Caso a ausência persista, a sensação de que não se pôde fazer nada para trazer o ente querido de volta é angustiante. Além disso, a culpa e pensamentos do tipo ‘e se eu pudesse ter feito algo para impedir?’ reavivam e aprofundam a dor”, conclui Érica.
A explicação representa o que está passando com a família de Diego. A avó, ainda viva, enfrenta um quadro de depressão. “Ela já tinha perdido uma filha, mas este caso é diferente. Num desaparecimento não há corpo e nem resolução”, afirma.
Segundo ele, a irmã mais velha e o sobrinho, neto de José Afonso, compartilham a mesma aflição.
O carro do pai foi recuperado e, às vezes, é usado apenas para não deixar o veículo se estragar. “Mas a vida do meu pai sumiu. Não sabemos o que aconteceu”, conclui Diego.
Desde então, a família segue espalhando cartazes em busca de Jose Afonso, na esperança de que um dia ele possa voltar para casa.

