O desmatamento e as queimadas são os principais responsáveis pelas emissões de carbono na Amazônia na maioria dos anos analisados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O estudo, baseado em 15 anos de medições aéreas, também aponta que eventos climáticos extremos agravam os efeitos dessas atividades e reduzem a capacidade da floresta de absorver carbono da atmosfera.
Os resultados serão publicados nesta quarta-feira (21) na revista científica Nature. A pesquisa foi liderada pela cientista Luciana Gatti, do Inpe, e analisou dados coletados entre 2010 e 2024 em quatro localidades da Amazônia brasileira.
Em média, a Amazônia apresentou um balanço de carbono de 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, considerando a diferença entre as emissões e a absorção pela floresta. As queimadas emitiram, em média, o equivalente a 1,47 bilhão de toneladas anuais de CO₂. A absorção realizada pela vegetação não foi suficiente para compensar as emissões, tornando a região uma fonte líquida de carbono.
Queimadas aumentam no Amazonas
Os dados do estudo ganham relevância diante do avanço recente dos focos de calor no estado. Entre 4 e 14 de outubro de 2026, a região metropolitana de Manaus e municípios do entorno registraram 5.598 focos, 37 vezes mais que os 149 identificados no mesmo período de 2025.
O levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), divulgado na terça-feira (21), considera 19 municípios das regiões metropolitana e central do estado. De janeiro a 14 de outubro, foram contabilizados 15.674 focos, alta de 109,4% em relação à média histórica para o período.
Autazes, Maués e Itacoatiara concentraram 44% dos registros identificados na região monitorada. Segundo o IPAM, 77% dos focos ocorreram em áreas de vegetação nativa.
A pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do instituto, ressaltou que a seca favorece a propagação do fogo, mas não é responsável por iniciá-lo. O uso do fogo por pessoas está entre os fatores que precisam ser enfrentados para evitar novos incêndios.

Seca e desmatamento agravam o problema
Para comparar os fatores que influenciam as emissões, o estudo do Inpe dividiu os anos analisados em três grupos. No período de 2019 a 2022, o desmatamento aumentou 97% e a área queimada cresceu 25% em relação ao grupo de anos com condições climáticas mais favoráveis. As emissões subiram 391%, mesmo sem seca extrema.
Já entre 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos marcados por condições climáticas extremas, o balanço de carbono chegou ao equivalente a 1,8 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. Nesse grupo, a temperatura média durante o pico da estação seca foi de 27,3 °C, a mais alta entre os períodos comparados.

O levantamento também aponta que, ao longo de 46 anos, o desmatamento e a degradação reduziram a precipitação anual na Amazônia em 8%. No pico da estação seca, a queda chegou a 20%, enquanto a temperatura média anual subiu 1,13 °C.
Segundo os pesquisadores, a perda de vegetação reduz as chuvas e aumenta o calor, deixando a floresta mais vulnerável a novos incêndios. O estudo defende a redução do desmatamento, o controle do uso do fogo e a recuperação de áreas degradadas para diminuir as emissões e preservar a capacidade da Amazônia de armazenar carbono.
