O garimpo ilegal e as rotas do narcotráfico colocam Japurá, município do interior do Amazonas próximo à fronteira com a Colômbia, no centro de denúncias sobre a possível atuação de organizações criminosas na Amazônia. Relatos recebidos pela Rede Onda Digital apontam uma disputa por áreas de exploração de ouro envolvendo o Cartel de Sinaloa, organização criminosa mexicana, e grupos dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). As denúncias também mencionam cobranças de dinheiro a trabalhadores, presença de homens armados, sequestros e mortes.
Em nota, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) informou que tem conhecimento dos relatos sobre a possível atuação de grupos armados em Japurá, especialmente em áreas próximas à fronteira com a Colômbia. A instituição afirmou que as informações estão sendo levantadas, analisadas e encaminhadas às autoridades competentes.
A PC-AM também informou que apura ocorrências de crimes na região, incluindo homicídios, cujas circunstâncias, autoria e eventual relação com grupos criminosos ainda estão sob investigação. A instituição ressaltou que, neste momento, não é possível confirmar a vinculação dos envolvidos a organizações criminosas específicas nem estabelecer uma relação conclusiva entre os relatos de violência, o garimpo ilegal e o tráfico de entorpecentes.
O Cartel de Sinaloa é uma organização criminosa mexicana conhecida pela atuação no tráfico internacional de drogas. Já os dissidentes das FARC são grupos formados por ex-integrantes da antiga guerrilha colombiana que não aderiram ao acordo de paz assinado com o governo da Colômbia em 2016 ou que retomaram a luta armada posteriormente.
Garimpo ilegal e possível cobrança de dinheiro
Uma fonte ouvida pela Rede Onda Digital, que afirma ter conhecimento direto da situação na região, relata que os dois grupos estão presentes em Japurá e disputam áreas de garimpo. Segundo a pessoa, trabalhadores que atuam na extração ilegal de ouro também sofrem pressão e cobranças por parte dessas organizações. Por temer represálias e possíveis ataques, a fonte terá a identidade preservada.
O delegado Jandervan Rocha informou que a Polícia Civil recebeu relatos sobre possíveis cobranças ilegais contra trabalhadores e proprietários de embarcações.
“A Polícia Civil recebeu relatos que apontam para possíveis práticas de ameaças, extorsões e cobranças ilegais contra pessoas que desenvolvem atividades na região, inclusive trabalhadores do garimpo e proprietários ou operadores de embarcações. Segundo informações preliminares, essas exigências poderiam ocorrer mediante intimidação ou ameaça armada. Os relatos estão sujeitos à verificação e ainda não permitem atribuir as condutas a um grupo específico”, destacou.
Japurá está localizado próximo à fronteira colombiana e, segundo Rocha, ocupa uma posição estratégica nas rotas de circulação de drogas.
“Japurá está situado em uma região estratégica da Amazônia, próxima à fronteira colombiana, e constitui importante corredor de circulação e escoamento de entorpecentes. Esse contexto, somado à atividade de garimpo em áreas de difícil acesso, exige atenção das autoridades para a possibilidade de atuação de organizações criminosas e grupos armados”, explicou.
Denúncias relatam homens armados, sequestro e mortes
Entre os relatos recebidos pela Rede Onda Digital está uma denúncia sobre um suposto sequestro ocorrido em 29 de setembro de 2026. Segundo a mensagem, uma pessoa teria sido sequestrada e posteriormente encontrada amarrada nas proximidades da Ilha do Boi, em Japurá. A embarcação da suposta vítima também teria sido localizada.
O relato menciona ainda a presença de homens fardados e fortemente armados que estariam circulando pela região e cobrando dinheiro de trabalhadores. Segundo o denunciante, esses homens seriam ligados ao Cartel de Sinaloa.
Em outra mensagem enviada à reportagem, um denunciante registrou em vídeo o momento em que uma embarcação do tipo rabeta, com vários homens armados, se aproximava da cidade. Ele também relatou ter visto duas pessoas em uma pequena embarcação equipada com baterias e dispositivos de acesso à internet.
Outro áudio encaminhado à equipe traz o relato de uma testemunha que afirma ter ficado sem combustível durante um deslocamento noturno e avistado uma lancha com vários homens em um trecho escuro do rio.
Segundo a testemunha, a embarcação em que estava seguiu pela correnteza com o motor desligado, o que, na avaliação dela, pode ter evitado que o grupo percebesse sua presença.
“A nossa gasolina tinha acabado um pouco mais em cima, aí a gente veio baixando devagar, veio descendo na correnteza, né, devagarzinho, só que a gente vinha por escuro. Quando eu olhei pro lado, tinha um monte de homem numa lancha, no escuro, num canto assim da ida. Aí eles focaram pra frente, não focaram pra onde a gente tava. Parece que foi Deus que cegou eles. E aí a gente veio descendo devagarzinho, sem barulho, porque a nossa gasolina tinha acabado. Agora que o pessoal pegaram a gente aqui pra descer. Mas eu acho que se nós tivéssemos descido com o motor ligado, eles tinham parado nós. Era muito homem, meu Deus do céu” (sic), relata uma das testemunhas.
Polícia Civil investiga morte de mulher em área de garimpo
Outra denúncia atribui a integrantes do Cartel de Sinaloa a morte de uma mulher identificada apenas como Angélica, de 27 anos. O crime teria ocorrido em 17 de outubro de 2026, em uma área de garimpo de Japurá.
De acordo com o delegado Jandervan Rocha, a vítima era venezuelana e foi atingida por disparos de arma de fogo na região do Purê, zona rural do município. Além disso, o corpo dela apresentava “abertura cirúrgica posteriormente suturada, bem como a ausência de vísceras”.

Delegado relata outros possíveis homicídios e tentativas de assassinato
Além da morte de Angélica, a Polícia Civil recebeu informações preliminares sobre outros episódios de violência na região do Purê. Segundo Jandervan Rocha, foram relatados aproximadamente sete possíveis homicídios, duas tentativas de homicídio e um possível caso de sequestro.
“Até o momento, a Polícia Civil recebeu informações preliminares sobre aproximadamente sete possíveis homicídios, duas tentativas de homicídio e um possível caso de sequestro na região do Purê. Esses episódios estão sendo objeto de levantamento e verificação, buscando confirmar individualmente cada ocorrência, suas circunstâncias e eventual materialidade criminosa.”
O delegado explicou que existem relatos sobre uma possível participação de grupos armados estrangeiros em alguns desses episódios, mas não há confirmação de que todos os casos estejam relacionados ou tenham sido praticados pelos mesmos envolvidos.
Denúncias apontam cobrança de ouro para liberar corpos
Além das ameaças e disputas por áreas de garimpo, as denúncias recebidas pela Rede Onda Digital apontam um esquema de extorsão contra familiares de pessoas assassinadas na região. Segundo os relatos, os responsáveis estariam exigindo entre 50 e 60 gramas de ouro, valor estimado entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, para permitir a retirada dos corpos.
Um dos casos citados é o do colombiano identificado como Edwin Adres Diaz Costa, que teria sido morto por integrantes desses grupos.
A Rede Onda Digital teve acesso a um vídeo em que familiares comemoram ter conseguido recuperar o corpo do colombiano. O material foi encaminhado à reportagem como parte dos registros sobre a violência na região.
Questionado sobre as denúncias, o delegado informou que as possíveis cobranças ilegais estão entre as informações recebidas pela Polícia Civil, mas ressaltou que ainda é necessário verificar os fatos e identificar os responsáveis.
Garimpo milionário e operação apreende 11 dragas
A exploração ilegal de ouro em Japurá ocorre em uma região de difícil acesso, próxima à fronteira com a Colômbia. Investigações do Ministério Público Federal (MPF), realizadas em agosto de 2026, identificaram atividades de garimpo em larga escala e apontaram a influência de dissidentes das FARC na região. Diante do cenário, o órgão pediu a adoção de medidas permanentes de fiscalização.
Em abril de 2026, a Justiça Federal recebeu uma denúncia do MPF contra um homem acusado de extração ilegal de ouro e utilização de mercúrio no rio Puruê, em Japurá. A acusação teve como base uma fiscalização realizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 2024.
O uso de mercúrio na atividade garimpeira representa risco de contaminação dos rios e dos ecossistemas, além de ameaçar a saúde das populações que dependem dessas águas para alimentação e outras atividades cotidianas.
Em setembro de 2026, uma operação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), denominada Pirá’ákãg, foi realizada na Estação Ecológica Juami-Japurá.
A ação resultou na apreensão e inutilização de 11 dragas, além de embarcações, motores e geradores. As equipes também apreenderam aproximadamente 48 mil litros de combustível. As multas aplicadas ultrapassaram R$ 1,6 milhão.
Em agosto, o MPF já havia solicitado a instalação de bases permanentes de fiscalização nos rios Japurá e Puruê, além da atuação coordenada dos órgãos responsáveis pelo combate à exploração ilegal.
Polícia Civil pede que população comunique situações suspeitas
O delegado Jandervan Rocha afirmou que a Polícia Civil está realizando o levantamento das informações, registrando e apurando as ocorrências dentro de suas atribuições e compartilhando os dados com as autoridades competentes. Ele também deixou uma orientação aos moradores e trabalhadores das áreas de garimpo.
“Orientamos que moradores e trabalhadores comuniquem às autoridades qualquer situação suspeita ou ocorrência criminosa, evitando confrontos ou iniciativas individuais que possam colocar suas vidas em risco. A instituição continuará atuando dentro de suas atribuições legais, compartilhando informações com os órgãos competentes e buscando o esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos envolvidos”, afirmou.
SSP-AM informa reforço do policiamento em Japurá
Procurada pela Rede Onda Digital, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou que, por meio da Polícia Militar, mantém o reforço do policiamento em Japurá, com o objetivo de ampliar a presença policial e garantir a proteção da população.
Apesar de informar sobre o reforço da segurança e as estratégias de combate ao crime organizado, a nota não esclarece se existem investigações específicas sobre as denúncias de possível atuação do Cartel de Sinaloa e de dissidentes das FARC em Japurá.
Leia a nota na íntegra;
Polícia Federal não respondeu aos questionamentos
Procurada pela Rede Onda Digital, a Polícia Federal foi questionada sobre as denúncias envolvendo a possível presença de grupos criminosos estrangeiros, a atuação de dissidentes das FARC e a comunicação dos fatos pelas autoridades locais. Até a publicação desta reportagem, o órgão não havia respondido aos questionamentos.
