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‘Intervalo bíblico’ pode gerar constrangimento e intolerância nas escolas, diz pesquisadora da Ufam

A proposta de criação do chamado “intervalo bíblico” nas escolas públicas e particulares de Manaus coloca em debate os limites entre liberdade religiosa, laicidade do Estado e convivência entre diferentes crenças no ambiente escolar. O Projeto de Lei nº 249/2025, de autoria do vereador Raiff Matos (PL), prevê que estudantes possam, voluntariamente, realizar momentos de leitura das Escrituras, oração, meditação e reflexão durante os intervalos.

Para a professora e pesquisadora Ivanilce Chagas, doutora em Filosofia Política, socióloga e professora do Programa de Mestrado em Filosofia da Ufam, a iniciativa exige atenção porque envolve diretamente o espaço institucional da escola pública.

“Pensar em realizar atividades religiosas oficiais na escola já fere, por si, o princípio da laicidade das instituições de Estado”, afirmou a pesquisadora.

Segundo a pesquisadora, mesmo que o chamado “intervalo bíblico” seja apresentado como uma atividade extracurricular e voluntária, sua realização dentro da escola pode transmitir a ideia de que a instituição está legitimando determinada manifestação religiosa.

“Os momentos chamados ‘intervalos bíblicos’, mesmo que extraoficiais, podem soar como doutrinação, o que não se admite nem em termos políticos”, disse.

Diversidade religiosa já está no currículo

Ivanilce também questiona a necessidade de criar uma atividade específica para tratar de valores religiosos dentro das escolas. Segundo ela, questões relacionadas à diversidade e à pluralidade cultural e religiosa já fazem parte da formação escolar.

“Esse tema já é abordado nas aulas que envolvem assuntos como diversidade, pluralidade cultural e religiosa. Os currículos já têm tais temas em suas propostas”, explicou.

A professora cita disciplinas como Ensino Religioso, Filosofia, Sociologia e História como espaços em que essas questões podem ser discutidas de forma plural. Para ela, a escola pública deve preservar um ambiente de formação baseado na diversidade e no conhecimento, sem privilegiar uma determinada crença.

“Um Estado laico é completamente alheio às questões religiosas”, afirmou.

Manifestação individual

A pesquisadora faz uma distinção entre o direito individual do estudante de manifestar sua fé e a institucionalização de uma atividade religiosa dentro da escola.

“Os intervalos só podem e devem ser normalizados como manifestação individual”, disse.

Na avaliação de Ivanilce, isso significa que um estudante deve ter liberdade para manifestar sua crença, mas a instituição pública precisa permanecer neutra.

“Desde que o mesmo direito de uso pacífico do espaço do intervalo seja garantido a estudantes de todas as matizes religiosas ou filosofias de vida, se desejarem se manifestar de forma ordeira, aí sim poderia se falar em uma conciliação”, explicou.

Ivanilce Chagas, doutora em Filosofia Política e socióloga (Foto: Arquivo Pessoal)

Voluntário não elimina o risco de constrangimento

O projeto estabelece que a participação no “intervalo bíblico” será voluntária e garante a liberdade de opção religiosa e filosófica. Para a pesquisadora, entretanto, a voluntariedade, por si só, não resolve a questão.

“Mesmo sendo voluntário, isso gera constrangimento e pode até gerar intolerância dentro de um espaço que deveria ser neutro nesses termos: político e religioso”, disse.

O alerta envolve principalmente estudantes que seguem outras religiões ou que não possuem nenhuma crença.

A preocupação, segundo Ivanilce, é que uma atividade inicialmente voluntária possa criar pressão social ou sentimento de pertencimento e exclusão dentro do ambiente escolar.

Religião e eleições

A discussão também ocorre em um contexto de Eleições de 2026, quando pautas relacionadas à religião, costumes e valores ganham espaço no debate político.

Para Ivanilce, existe a possibilidade de a proposta também ser compreendida dentro dessa disputa por representação política.

“É completamente possível que isso se torne proposta eleitoral, uma vez que a comunidade religiosa, sobretudo o protestantismo, ganha reforço em busca de espaço no Parlamento. Já temos oficialmente uma bancada religiosa muito forte no Parlamento.”

Para ela, entretanto, a questão muda quando a manifestação religiosa passa a ocupar o espaço institucional da escola pública.

O que diz o vereador

Raiff Matos defende que o projeto não pretende impor uma religião ou interferir no currículo escolar. Segundo o vereador, a proposta busca assegurar a liberdade de crença e permitir que estudantes que já desejam realizar momentos de oração ou leitura bíblica possam fazê-lo durante o intervalo.

“A proposta busca assegurar o direito constitucional à liberdade de crença e à livre manifestação religiosa no ambiente escolar”, diz a nota enviada pelo vereador após questionamento, sem responder sobre a ausência de outras religiões e

O parlamentar afirma que as atividades seriam voluntárias, sem notas, chamadas ou qualquer prejuízo às atividades escolares.


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Raiff também argumenta que professores e colaboradores não exerceriam liderança espiritual e que os encontros seriam realizados em locais específicos, sem obrigar outros estudantes a participar.

Segundo ele, a laicidade não significa retirar a religião da esfera social, mas garantir que o Estado não imponha uma crença.

“O Estado não promove nem custeia uma religião específica; apenas assegura o exercício da liberdade individual”, diz a nota.

O projeto segue em tramitação na Câmara Municipal de Manaus.

 

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A proposta de criação do chamado “intervalo bíblico” nas escolas públicas e particulares de Manaus coloca em debate os limites entre liberdade religiosa, laicidade do Estado e convivência entre diferentes crenças no ambiente escolar. O Projeto de Lei nº 249/2025, de autoria do vereador Raiff Matos (PL), prevê que estudantes possam, voluntariamente, realizar momentos de leitura das Escrituras, oração, meditação e reflexão durante os intervalos.

Para a professora e pesquisadora Ivanilce Chagas, doutora em Filosofia Política, socióloga e professora do Programa de Mestrado em Filosofia da Ufam, a iniciativa exige atenção porque envolve diretamente o espaço institucional da escola pública.

“Pensar em realizar atividades religiosas oficiais na escola já fere, por si, o princípio da laicidade das instituições de Estado”, afirmou a pesquisadora.

Segundo a pesquisadora, mesmo que o chamado “intervalo bíblico” seja apresentado como uma atividade extracurricular e voluntária, sua realização dentro da escola pode transmitir a ideia de que a instituição está legitimando determinada manifestação religiosa.

“Os momentos chamados ‘intervalos bíblicos’, mesmo que extraoficiais, podem soar como doutrinação, o que não se admite nem em termos políticos”, disse.

Diversidade religiosa já está no currículo

Ivanilce também questiona a necessidade de criar uma atividade específica para tratar de valores religiosos dentro das escolas. Segundo ela, questões relacionadas à diversidade e à pluralidade cultural e religiosa já fazem parte da formação escolar.

“Esse tema já é abordado nas aulas que envolvem assuntos como diversidade, pluralidade cultural e religiosa. Os currículos já têm tais temas em suas propostas”, explicou.

A professora cita disciplinas como Ensino Religioso, Filosofia, Sociologia e História como espaços em que essas questões podem ser discutidas de forma plural. Para ela, a escola pública deve preservar um ambiente de formação baseado na diversidade e no conhecimento, sem privilegiar uma determinada crença.

“Um Estado laico é completamente alheio às questões religiosas”, afirmou.

Manifestação individual

A pesquisadora faz uma distinção entre o direito individual do estudante de manifestar sua fé e a institucionalização de uma atividade religiosa dentro da escola.

“Os intervalos só podem e devem ser normalizados como manifestação individual”, disse.

Na avaliação de Ivanilce, isso significa que um estudante deve ter liberdade para manifestar sua crença, mas a instituição pública precisa permanecer neutra.

“Desde que o mesmo direito de uso pacífico do espaço do intervalo seja garantido a estudantes de todas as matizes religiosas ou filosofias de vida, se desejarem se manifestar de forma ordeira, aí sim poderia se falar em uma conciliação”, explicou.

Ivanilce Chagas, doutora em Filosofia Política e socióloga (Foto: Arquivo Pessoal)

Voluntário não elimina o risco de constrangimento

O projeto estabelece que a participação no “intervalo bíblico” será voluntária e garante a liberdade de opção religiosa e filosófica. Para a pesquisadora, entretanto, a voluntariedade, por si só, não resolve a questão.

“Mesmo sendo voluntário, isso gera constrangimento e pode até gerar intolerância dentro de um espaço que deveria ser neutro nesses termos: político e religioso”, disse.

O alerta envolve principalmente estudantes que seguem outras religiões ou que não possuem nenhuma crença.

A preocupação, segundo Ivanilce, é que uma atividade inicialmente voluntária possa criar pressão social ou sentimento de pertencimento e exclusão dentro do ambiente escolar.

Religião e eleições

A discussão também ocorre em um contexto de Eleições de 2026, quando pautas relacionadas à religião, costumes e valores ganham espaço no debate político.

Para Ivanilce, existe a possibilidade de a proposta também ser compreendida dentro dessa disputa por representação política.

“É completamente possível que isso se torne proposta eleitoral, uma vez que a comunidade religiosa, sobretudo o protestantismo, ganha reforço em busca de espaço no Parlamento. Já temos oficialmente uma bancada religiosa muito forte no Parlamento.”

Para ela, entretanto, a questão muda quando a manifestação religiosa passa a ocupar o espaço institucional da escola pública.

O que diz o vereador

Raiff Matos defende que o projeto não pretende impor uma religião ou interferir no currículo escolar. Segundo o vereador, a proposta busca assegurar a liberdade de crença e permitir que estudantes que já desejam realizar momentos de oração ou leitura bíblica possam fazê-lo durante o intervalo.

“A proposta busca assegurar o direito constitucional à liberdade de crença e à livre manifestação religiosa no ambiente escolar”, diz a nota enviada pelo vereador após questionamento, sem responder sobre a ausência de outras religiões e

O parlamentar afirma que as atividades seriam voluntárias, sem notas, chamadas ou qualquer prejuízo às atividades escolares.


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Segundo ele, a laicidade não significa retirar a religião da esfera social, mas garantir que o Estado não imponha uma crença.

“O Estado não promove nem custeia uma religião específica; apenas assegura o exercício da liberdade individual”, diz a nota.

O projeto segue em tramitação na Câmara Municipal de Manaus.

 

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