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Quem merece a torcida do Amazonas: o país que construiu o porto ou o que compra nossas motos?

O torcedor amazonense orfão da Seleção Brasileira talvez seja o único do mundo quee pode assistir a semifinal entre Inglaterra e Argentina como se fosse uma espécie de prestação de contas: de um lado, um antigo sócio que ajudou a erguer o império da borracha e depois foi embora dando um tombo bilionário; do outro, o parceiro comercial atual, que continua comprando nossa produção mês após mês, ano após ano, sem pedir nada em troca além de motos boas  e preços justos.

A decisão de torcer, poranto, não será apenas pelo coração, mas sim deveria levar em conta o extrato bancário do Estado. Porque, goste ou não, os dois finalistas já colocaram a mão (e o bolso) na economia do Amazonas. A diferença é: um colocou há mais de cem anos, e o outro está colocando agora, todo santo mês.

Inglaterra, o sócio-fundador que abriu falência

Vamos ser justos: sem os ingleses, boa parte do Centro Histórico de Manaus nem existiria. No auge do ciclo da borracha, a empresa britânica Manaos Harbour Limited assumiu as obras do Porto de Manaus em 1902 e entregou, em 1907, o maior porto flutuante do mundo.

O clássico prédio da Alfândega, feito na Inglaterra e remontado aqui bloco por bloco é a primeira construção pré-fabricada do planeta, dizem os historiadores, com o orgulho de quem visitou a Alfândega achando que estava em Londres, mas encarando 40 graus de temperatura e umidade relativa do ar de 90%.

Ainda não é só isso. Manaus teve banco inglês (o London Bank, herdeiro da fusão entre o London and Brazilian Bank e o London & River Plate Bank), teve bonde inglês com a Manáos Tramways and Light Company, e teve até “supermercado” inglês, com a Manáos Markets, onde hoje está o complexo Booth Line.

Por décadas, o capital britânico foi, literalmente, quem pagava a conta de luz da cidade e do tratamento de esgotos. Dos quase 30% das residências da cidade que são atendidas pela rede de recolhimento e tratamento de esgotos, 25% das galerias foram feitas pelos ingleses, principalmente no Centro e nos bairros mais tradicionais do entorno.

Só que tem um detalhe, pois eles não tiveram fair-play no jogo da amizade: foram os próprios ingleses que, discretamente, contrabandearam sementes de seringueira para plantar nas colônias deles na Ásia e em menos de 30 anos, a produção cultivada da Malásia goleou a produção extrativista amazônica, jogando a economia local numa recessão da qual, argumentam especialistas, a região nunca se recuperou totalmente até a consolidação do ciclo econômico da Zona Franca de Manaus, a partir de 1967.

Ou seja: o mesmo país que ergueu o nosso porto foi quem tirou o tapete depois. Um affair e tanto, tipo esses que terminam em processo na Justiça, ou pelo menos com a torcida desconfiada.

Argentina, o cliente que nunca falta na Zona Franca

Enquanto a Inglaterra vive de glórias arquitetônicas e investimentos do século passado, a Argentina tem feito por merecer nosso carinho no presente, com transferência via Pix mesmo, ou o equivalente comercial disso.

Levantamentos do setor industrial já apontaram a Argentina como a maior importadora dos produtos fabricados no Amazonas.Outro balanço mostra que Argentina e Colômbia respondem por 46% de tudo que a Zona Franca de Manaus exporta, aproximadamente US$ 32 milhões em um único mês.

E não é só suco concentrado ou lâmina de barbear que os hermanos levam: motocicletas fabricadas no Polo Industrial de Manaus têm nos argentinos um dos seus principais compradores fora do Brasil.

Ou seja: pode ser que aquele torcedor de Buenos Aires empolgado gritando gol amanhã esteja, coincidentemente, andando de moto Honda made in Manaus.

A relação, aliás, é tão próxima que até sofre junto: quando a economia argentina tosse, a Zona Franca sente o resfriado. Já houve período de cotas e restrições às nossas exportações durante crises por lá, e o setor industrial local torce, literalmente, pela estabilidade econômica argentina, porque isso significa mais moto vendida, mais dólar entrando, mais gente empregada no Distrito Industrial.

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O torcedor amazonense orfão da Seleção Brasileira talvez seja o único do mundo quee pode assistir a semifinal entre Inglaterra e Argentina como se fosse uma espécie de prestação de contas: de um lado, um antigo sócio que ajudou a erguer o império da borracha e depois foi embora dando um tombo bilionário; do outro, o parceiro comercial atual, que continua comprando nossa produção mês após mês, ano após ano, sem pedir nada em troca além de motos boas  e preços justos.

A decisão de torcer, poranto, não será apenas pelo coração, mas sim deveria levar em conta o extrato bancário do Estado. Porque, goste ou não, os dois finalistas já colocaram a mão (e o bolso) na economia do Amazonas. A diferença é: um colocou há mais de cem anos, e o outro está colocando agora, todo santo mês.

Inglaterra, o sócio-fundador que abriu falência

Vamos ser justos: sem os ingleses, boa parte do Centro Histórico de Manaus nem existiria. No auge do ciclo da borracha, a empresa britânica Manaos Harbour Limited assumiu as obras do Porto de Manaus em 1902 e entregou, em 1907, o maior porto flutuante do mundo.

O clássico prédio da Alfândega, feito na Inglaterra e remontado aqui bloco por bloco é a primeira construção pré-fabricada do planeta, dizem os historiadores, com o orgulho de quem visitou a Alfândega achando que estava em Londres, mas encarando 40 graus de temperatura e umidade relativa do ar de 90%.

Ainda não é só isso. Manaus teve banco inglês (o London Bank, herdeiro da fusão entre o London and Brazilian Bank e o London & River Plate Bank), teve bonde inglês com a Manáos Tramways and Light Company, e teve até “supermercado” inglês, com a Manáos Markets, onde hoje está o complexo Booth Line.

Por décadas, o capital britânico foi, literalmente, quem pagava a conta de luz da cidade e do tratamento de esgotos. Dos quase 30% das residências da cidade que são atendidas pela rede de recolhimento e tratamento de esgotos, 25% das galerias foram feitas pelos ingleses, principalmente no Centro e nos bairros mais tradicionais do entorno.

Só que tem um detalhe, pois eles não tiveram fair-play no jogo da amizade: foram os próprios ingleses que, discretamente, contrabandearam sementes de seringueira para plantar nas colônias deles na Ásia e em menos de 30 anos, a produção cultivada da Malásia goleou a produção extrativista amazônica, jogando a economia local numa recessão da qual, argumentam especialistas, a região nunca se recuperou totalmente até a consolidação do ciclo econômico da Zona Franca de Manaus, a partir de 1967.

Ou seja: o mesmo país que ergueu o nosso porto foi quem tirou o tapete depois. Um affair e tanto, tipo esses que terminam em processo na Justiça, ou pelo menos com a torcida desconfiada.

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