O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força no Congresso e nas ruas. Em tramitação na Câmara dos Deputados, a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), propõe a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais, no modelo 4×3, sem redução salarial. Outras propostas, como a PEC 148/2015, de Paulo Paim, e o PL 67/2025, de Daiane Santos, também buscam alterar a legislação, mas com prazos e formatos distintos.
A pressão popular levou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a anunciar que a pauta pode ser votada em maio. Antes, porém, precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde o relator Paulo Azi (União-BA) deverá ouvir representantes de trabalhadores e empresários.
Resistência patronal
A proposta enfrenta forte resistência de setores empresariais, que alegam aumento de custos e possível repasse ao consumidor. Lideranças como Valdemar Costa Neto (PL) e Antonio Rueda (União Brasil) prometem barrar o avanço da matéria. “Vamos dar a vida pra isso”, disse Valdemar.

Do outro lado, defensores apontam os impactos da escala exaustiva na saúde. À Rede Onda Digital, o professor e advogado trabalhista Raimundo Albuquerque explicou que a redução da jornada pode beneficiar tanto trabalhadores quanto empresas. “O descanso semanal mais amplo contribui para a saúde física e mental. Não adianta manter um PIB estável à custa da saúde do trabalhador”, afirma.
Ele também alerta para o aumento de ações na Justiça do Trabalho por dano existencial, quando o trabalhador é privado do convívio social e familiar. Com a atualização da NR-1, que inclui riscos psicossociais, doenças como burnout e depressão tendem a ser cada vez mais reconhecidas como consequências do trabalho extenuante.
Experiência pessoal
O criador de conteúdo Sávio Costa, que já trabalhou na escala 6×1 e hoje atua no modelo 5×2, sentiu a diferença na prática. “A maior diferença foi na disposição. Dois dias de descanso fazem muita diferença, dá tempo real de recuperar o corpo e a cabeça. Na 6×1, mal dava tempo de respirar“, relata. Ele conta que o único dia livre virava apenas um respiro do cansaço acumulado, afetando o convívio familiar e a saúde emocional.

A psicóloga e doutora em memória social Vanessa Silveira de Brito, em artigo que integra o dossiê do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), destaca que a escala 6×1 produz precariedade subjetiva. “Ao concentrar seis dias consecutivos de trabalho e conceder apenas um dia de descanso, esse arranjo compromete o potencial reparador do tempo livre, corroendo vínculos afetivos e a capacidade de narrar a própria experiência fora da lógica produtiva”, escreve.
Dados do INSS indicam aumento de 68% nos afastamentos por transtornos mentais em 2024. A OIT e a OMS já alertam para os riscos de jornadas prolongadas, associadas a distúrbios do sono, esgotamento e doenças cardiovasculares. “Quando o tempo não é espaço de afeto, pausa e criação, não é tempo de viver, é tempo de sobreviver”, reforça Vanessa.
O que está em jogo
Para Albuquerque, a resistência patronal é legítima, mas não pode ignorar outras dimensões da vida. “O ser humano possui afetos, família, amizades, lazer, ócio e sono. Os setores podem se adequar a médio prazo.”