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Da floresta à cozinha: buriti ganha usos diferentes na alimentação regional

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Da floresta à cozinha: buriti ganha usos diferentes na alimentação regional

O buriti ocupa espaço tradicional na alimentação amazônica e no extrativismo de comunidades ribeirinhas e indígenas da região Norte. Presente em áreas alagadas e margens de rios, a palmeira Mauritia flexuosa fornece alimento, matéria-prima e renda para famílias que vivem do manejo dos recursos da floresta.

Na culinária, o fruto é utilizado principalmente na produção de sucos, picolés, doces, compotas, geleias, sorvetes e licores. A polpa de cor alaranjada também aparece em receitas de mousse, recheios e cremes preparados em cozinhas domésticas e restaurantes que trabalham com ingredientes regionais.

O óleo extraído do buriti passou a ser utilizado por cozinheiros em finalizações de pratos e preparações salgadas, especialmente em receitas com peixe assado, molhos e reduções. Em algumas localidades, a polpa é desidratada para a produção de farinha usada em mingaus, bolos e biscoitos.

O engenheiro florestal Afonso Rabelo, que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), escreveu um livro com mais de 50 receitas que usam  o buriti como ingrediente, principal ou coadjuvante. Ele e a esposa, Maria das Dores, também inovaram e lançaram o “feijaburi”, um molho usado na produção de feijoadas que praticamente zeram a gordura residual presente nos pertences usados no mais tradicional prato dos nossos sábados.

As pesquisas de Afonso Rabelo sobre o buriti se concentram em três áreas principais: aproveitamento gastronômico, tecnologias de coleta e agregação de valor econômico aos frutos amazônicos. Ele passou mais de uma década estudando o potencial do buriti como alimento, matéria-prima industrial e fonte de renda para comunidades extrativistas. Um dos pontos centrais do trabalho dele é a defesa do uso sustentável da palmeira  sem derrubada das árvores.

Além da Feijaburi, outro prato criado pelo casal que fez muito sucesso em apresentações acadêmicas está o Tacaburi, um tacacá que substitui o tucupi pelo vinho de buriti. “Há pessoas que são intolerantes ao tucupi e não podem consumir o tacacá tradicional. O tacaburi substitui bem a receita original, inclusive eu fiz uma demonstração em Belém (PA) e os paraenses gostaram bastante”, lembra Afonso.

Tacaburi foi pensado para consumidor que tem intolerância ao tucupi ou que tenha problemas para ingerir alimentos ácidos
Molho tacaburi pode ser usado no preparado de diversos pratos, como a caldeirada e até mesmo a feijoada

Além destes dois pratos salgados da culinária regional, Afonso e Maria das Dores também apresentaram:

  • Molhos à base de buriti para preparação de peixes e suínos;
  • doces;
  • bolos;
  • mousses;
  • sorvetes;
  • licores;
  • biscoitos;
  • pães.

Interesse crescente na alta gastromomia

Além da presença em mercados populares e feiras regionais, o buriti ganhou espaço na gastronomia contemporânea brasileira a partir do interesse de chefs pela biodiversidade amazônica. Ingredientes da floresta passaram a integrar menus de restaurantes voltados à valorização de produtos nacionais e da culinária regional.

O fruto também é associado ao aproveitamento integral da palmeira. As folhas fornecem fibras usadas na produção de cestos, bolsas, chapéus e esteiras. O manejo do buritizal é tratado por pesquisadores e comunidades tradicionais como parte da preservação de áreas úmidas e nascentes.

Do ponto de vista nutricional, o buriti possui alta concentração de betacaroteno, além de vitaminas A, C e E. O fruto também contém antioxidantes naturais estudados por pesquisadores das áreas de alimentação e saúde.

No Amazonas, o buriti integra receitas tradicionais transmitidas entre gerações e permanece presente em cozinhas familiares, feiras e pequenos empreendimentos ligados à bioeconomia regional.