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30 anos sem Mamonas Assassinas: o legado que atravessa gerações

Em uma manhã de domingo, no dia 2 de março de 1996, o Brasil acordava com uma notícia trágica. A banda voltava de um show em Brasília, em um jatinho que os músicos vinham utilizando para dar conta da extensa agenda de apresentações na época, quando a aeronave colidiu contra a Serra da Cantareira, às 23h15, ao norte de São Paulo, ao tentar fazer uma arremetida; procedimento em que o piloto interrompe o processo de pouso e retoma altitude com o avião.

O acidente matou todos os passageiros: o piloto, o segurança do grupo e os cinco integrantes do Mamonas Assassinas. Ainda hoje, a tragédia que encerrou a carreira de uma banda que vivia o auge toca o coração dos fãs e de todos que, mesmo sem apreciar o som do grupo, testemunharam a bagunça promovida pelos cinco garotos de Guarulhos. Dizer que o legado dos Mamonas Assassinas é apenas saudosismo barato é desmerecer uma trajetória brilhante que, a princípio, tinha tudo para dar errado.

Dinho (vocal), Bento Hinoto (guitarra), Samuel Reoli (baixo), Júlio Rasec (teclados) e Sérgio Reoli (bateria) ficaram nacionalmente conhecidos em 1995, mas a trajetória do grupo vinha de antes. Juntos, formaram o Utopia, uma banda de rock influenciada por Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho. O som pesado e as letras introspectivas e melancólicas foram registrados em um disco independente gravado em 1992, que não chamou atenção.

(Foto: reprodução)

Segundo o produtor Rick Bonádio, que na época iniciava a carreira como empresário e produtor, o Utopia repetia o que as bandas dos anos 1980 já haviam feito. Não havia novidade no som. Para completar, o início da década de 1990 trouxe a explosão do pagode, do axé e da música sertaneja, enquanto o rock seguia na contramão do que era “radiofônico”, com bandas como Titãs e Paralamas fazendo um som cada vez mais pesado e pouco acessível ao grande público.

De acordo com Bonádio, apesar do som quase depressivo do Utopia, os integrantes eram extremamente divertidos e engraçados. Isso ficou evidente quando, em uma gravação despretensiosa feita em seu estúdio, o produtor ouviu as músicas “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”, registradas inicialmente para serem tocadas em um churrasco. Rick Bonádio percebeu ali algo diferente.

Os Mamonas não foram pioneiros em misturar música e humor. O Ultraje a Rigor já fazia isso desde os anos 1980, com doses de crítica social e política. Os Raimundos também já existiam, mas apresentavam um som mais pesado e agressivo. A grande sacada dos Mamonas estava, principalmente, na qualidade musical.

Ao ouvir o disco dos Mamonas, percebe-se uma explosão de variedade sonora: a guitarrada nordestina de “Jumento Celestino”, as levadas brega e latinas de “Boys Don’t Cry” e “Pelados em Santos”, além da intensidade de “Débil Metal”, com riffs de guitarra que até hoje servem como referência de estudo para guitarristas do cenário atual.

As próprias influências musicais da banda ficaram impressas nas canções. Você percebe de Pantera, Rush e The Clash, passando até mesmo por James Brown em cada uma das músicas, mostrando como a bagagem cultural dos Mamonas era riquíssima.

Essa mistura de estilos influenciou o rock a partir de 1996, com bandas que passaram a incorporar influências regionais ao som, criando uma nova safra de criatividade. Planet Hemp e O Rappa, por exemplo, misturaram o rap da periferia carioca com rock e temas sociais; os Raimundos uniram forró de duplo sentido ao punk; e o Charlie Brown Jr. imprimiu as praias e o skate em sua identidade musical. Sem o trabalho dos Mamonas, provavelmente esse cenário teria sido diferente.

(Foto: Os Mamonas Assassinas venderam mais de 1 milhão de discos em apenas 3 meses)

O legado da banda também se entrelaça com a trajetória de Rick Bonádio, que se tornou um dos produtores e empresários mais respeitados da música brasileira, tendo descoberto e lançado nomes como Charlie Brown Jr., Tihuana, CPM 22 e NX Zero, além de ter sido responsável por Rouge e Bro’z, por meio do programa Popstars, do SBT.

E se os Mamonas Assassinas estivessem vivos hoje? Como estaria a banda? O próprio Bonádio respondeu em 2018, em entrevista concedida ao programa The Noite, de Danilo Gentili: “Eles teriam gravado um segundo disco, que teria menos impacto que o primeiro. Acredito que, após o terceiro, a banda iria se separar, e cada um seguiria seu caminho, dentro do ritmo natural das coisas”, declarou.

Seja como for, o legado dos Mamonas Assassinas é inegável. Em uma época em que o rock enfrentava dificuldades comerciais, o grupo fez o Brasil inteiro, inclusive crianças, cantar músicas com temas como “suruba”, de modo irreverente, e ainda levou à discussão temas como preconceito, ao popularizar a frase: “Abra sua mente, gay também é gente”.

(Foto: reprodução/Globoplay)

Depois deles, não se viu novamente uma banda ocupar as tardes de domingo com um vocalista vestido de Chapolin Colorado, Robin ou coelhinho, unindo irreverência, criatividade musical e identidade própria. Maior que isso, apenas a tristeza daquela manhã de domingo em que os Mamonas Assassinas se despediram de forma prematura do Brasil, deixando um legado e uma saudade eterna.

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Em uma manhã de domingo, no dia 2 de março de 1996, o Brasil acordava com uma notícia trágica. A banda voltava de um show em Brasília, em um jatinho que os músicos vinham utilizando para dar conta da extensa agenda de apresentações na época, quando a aeronave colidiu contra a Serra da Cantareira, às 23h15, ao norte de São Paulo, ao tentar fazer uma arremetida; procedimento em que o piloto interrompe o processo de pouso e retoma altitude com o avião.

O acidente matou todos os passageiros: o piloto, o segurança do grupo e os cinco integrantes do Mamonas Assassinas. Ainda hoje, a tragédia que encerrou a carreira de uma banda que vivia o auge toca o coração dos fãs e de todos que, mesmo sem apreciar o som do grupo, testemunharam a bagunça promovida pelos cinco garotos de Guarulhos. Dizer que o legado dos Mamonas Assassinas é apenas saudosismo barato é desmerecer uma trajetória brilhante que, a princípio, tinha tudo para dar errado.

Dinho (vocal), Bento Hinoto (guitarra), Samuel Reoli (baixo), Júlio Rasec (teclados) e Sérgio Reoli (bateria) ficaram nacionalmente conhecidos em 1995, mas a trajetória do grupo vinha de antes. Juntos, formaram o Utopia, uma banda de rock influenciada por Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho. O som pesado e as letras introspectivas e melancólicas foram registrados em um disco independente gravado em 1992, que não chamou atenção.

(Foto: reprodução)

Segundo o produtor Rick Bonádio, que na época iniciava a carreira como empresário e produtor, o Utopia repetia o que as bandas dos anos 1980 já haviam feito. Não havia novidade no som. Para completar, o início da década de 1990 trouxe a explosão do pagode, do axé e da música sertaneja, enquanto o rock seguia na contramão do que era “radiofônico”, com bandas como Titãs e Paralamas fazendo um som cada vez mais pesado e pouco acessível ao grande público.

De acordo com Bonádio, apesar do som quase depressivo do Utopia, os integrantes eram extremamente divertidos e engraçados. Isso ficou evidente quando, em uma gravação despretensiosa feita em seu estúdio, o produtor ouviu as músicas “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”, registradas inicialmente para serem tocadas em um churrasco. Rick Bonádio percebeu ali algo diferente.

Os Mamonas não foram pioneiros em misturar música e humor. O Ultraje a Rigor já fazia isso desde os anos 1980, com doses de crítica social e política. Os Raimundos também já existiam, mas apresentavam um som mais pesado e agressivo. A grande sacada dos Mamonas estava, principalmente, na qualidade musical.

Ao ouvir o disco dos Mamonas, percebe-se uma explosão de variedade sonora: a guitarrada nordestina de “Jumento Celestino”, as levadas brega e latinas de “Boys Don’t Cry” e “Pelados em Santos”, além da intensidade de “Débil Metal”, com riffs de guitarra que até hoje servem como referência de estudo para guitarristas do cenário atual.

As próprias influências musicais da banda ficaram impressas nas canções. Você percebe de Pantera, Rush e The Clash, passando até mesmo por James Brown em cada uma das músicas, mostrando como a bagagem cultural dos Mamonas era riquíssima.

Essa mistura de estilos influenciou o rock a partir de 1996, com bandas que passaram a incorporar influências regionais ao som, criando uma nova safra de criatividade. Planet Hemp e O Rappa, por exemplo, misturaram o rap da periferia carioca com rock e temas sociais; os Raimundos uniram forró de duplo sentido ao punk; e o Charlie Brown Jr. imprimiu as praias e o skate em sua identidade musical. Sem o trabalho dos Mamonas, provavelmente esse cenário teria sido diferente.

(Foto: Os Mamonas Assassinas venderam mais de 1 milhão de discos em apenas 3 meses)

O legado da banda também se entrelaça com a trajetória de Rick Bonádio, que se tornou um dos produtores e empresários mais respeitados da música brasileira, tendo descoberto e lançado nomes como Charlie Brown Jr., Tihuana, CPM 22 e NX Zero, além de ter sido responsável por Rouge e Bro’z, por meio do programa Popstars, do SBT.

E se os Mamonas Assassinas estivessem vivos hoje? Como estaria a banda? O próprio Bonádio respondeu em 2018, em entrevista concedida ao programa The Noite, de Danilo Gentili: “Eles teriam gravado um segundo disco, que teria menos impacto que o primeiro. Acredito que, após o terceiro, a banda iria se separar, e cada um seguiria seu caminho, dentro do ritmo natural das coisas”, declarou.

Seja como for, o legado dos Mamonas Assassinas é inegável. Em uma época em que o rock enfrentava dificuldades comerciais, o grupo fez o Brasil inteiro, inclusive crianças, cantar músicas com temas como “suruba”, de modo irreverente, e ainda levou à discussão temas como preconceito, ao popularizar a frase: “Abra sua mente, gay também é gente”.

(Foto: reprodução/Globoplay)

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