Aos 71 anos, a servidora pública Fátima Lopes administra a própria rotina, cuida da casa, mantém vida social ativa e afirma que morar sozinha foi uma escolha de autonomia, não de abandono. Solteira e com dois filhos adultos, ela diz que a fase atual da vida trouxe liberdade para fazer escolhas e cuidar do próprio tempo.

“Moro sozinha por escolha. Sou solteira e tenho dois filhos adultos, mas cada um já construiu sua própria família e tem suas responsabilidades. Sempre fui muito independente e gosto de administrar minha casa, meus horários e minhas decisões. Morar sozinha não significa estar abandonada ou ser uma pessoa solitária. Para mim, significa ter autonomia e respeitar o espaço dos meus filhos, assim como eles respeitam o meu”, conta.
A história de Fátima representa uma mudança cada vez mais comum no Brasil. O país, que durante décadas foi marcado por uma população jovem, passa por uma transformação demográfica acelerada, com mais pessoas chegando à terceira idade e vivendo sozinhas.
Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, número que representa um crescimento de 56% em relação ao levantamento realizado em 2010.
Além do envelhecimento da população, outro fenômeno ganhou força nos últimos anos, o aumento de pessoas que vivem em domicílios individuais. Entre esse grupo, os idosos representam uma parcela significativa. De acordo com o IBGE, mais de 5,6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem sozinhos.
Morar sozinho não significa estar solitário
Para Fátima, a maior preocupação nessa fase da vida não é a falta de companhia, mas os cuidados necessários para manter a segurança e a saúde.
“O maior desafio de viver só nessa idade é saber que, diante de um problema de saúde ou de um acidente doméstico, talvez não haja alguém por perto naquele momento. Por isso, procuro ser cuidadosa, manter os exames em dia e deixar os contatos de emergência sempre acessíveis. Mas tem tarefas domésticas, como carregar peso ou resolver determinados serviços da casa, que eu recorro a profissionais de cuidados com a casa”, explica.
Apesar disso, ela mantém uma rotina com atividades e encontros sociais.
“Sempre que possível, participo de encontros com amigos, atividades promovidas no trabalho e momentos de convivência com pessoas de diversas idades. Também gosto de sair pra dançar. Acho importante manter a vida social ativa, porque conversar, trocar experiências e aprender coisas novas faz muito bem”, afirma.
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Estar sozinho é diferente de sentir solidão
A psicóloga Harllen Cristina Batista da Silva, especialista em Gerontologia Social, Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, explica que viver sozinho não significa, necessariamente, sofrer com a solidão.

“A solidão não deve ser vista apenas como a ausência de companhia, mas como uma experiência subjetiva de desconexão. É possível encontrar idosos que moram sozinhos e se sentem plenos, enquanto outros vivem com familiares e relatam intensa sensação de abandono”, afirma.
Segundo a especialista, manter uma rotina ativa faz diferença para a saúde física e mental. Conversar, participar de grupos, resolver problemas do dia a dia e cultivar vínculos sociais ajudam a preservar funções como memória, atenção, linguagem e raciocínio. Já o isolamento prolongado, aliado à falta de estímulos, pode favorecer perdas cognitivas, além de aumentar o risco de tristeza persistente, ansiedade e desânimo.
Ela também destaca que a velhice costuma trazer mudanças importantes, como a perda do companheiro, o afastamento dos filhos e a redução da vida social. Quando essas perdas não são elaboradas de forma saudável, podem surgir sintomas depressivos e diminuição do interesse por atividades que antes davam prazer.
As experiências também costumam variar entre homens e mulheres. De acordo com a psicóloga, muitas mulheres chegam à terceira idade com redes de apoio mais consolidadas, construídas ao longo da vida por meio de amizades, familiares e grupos de convivência. Já muitos homens concentram grande parte da vida afetiva na relação conjugal e, após uma viuvez ou separação, podem enfrentar mais dificuldades para reconstruir vínculos e buscar apoio emocional.
“Mais importante do que perguntar quem sofre mais com a solidão é entender como cada pessoa enfrenta essa experiência. A presença de vínculos significativos, autonomia, saúde, participação social e acesso a apoio psicológico costuma ser mais determinante do que o gênero”, conclui.
Uma escolha de vida
Mesmo reconhecendo que a terceira idade exige mais atenção com a saúde, Fátima diz que não trocaria a independência que conquistou.
“Sou feliz e gosto da vida que construí. A terceira idade apresenta limitações e exige mais atenção com a saúde, mas também traz maturidade, segurança e liberdade para fazer escolhas com mais tranquilidade. Tenho orgulho da minha história, dos meus filhos e da minha independência. Não vejo morar sozinha como sinal de tristeza”, afirma.
Para ela, envelhecer também significa descobrir novas possibilidades e continuar construindo uma vida com propósito.
A história de Fátima mostra que morar sozinho na terceira idade pode representar diferentes realidades. Para alguns, o isolamento ainda é um desafio. Para outros, como ela, a independência é resultado de uma escolha, desde que venha acompanhada de vínculos, cuidados com a saúde e qualidade de vida.
