Nos últimos anos, medicamentos análogos de GLP-1 como Mounjaro, Ozempic e Wegovy, originalmente indicados no tratamento do diabetes tipo 2, têm ganhado destaque na luta contra a obesidade, o que reforça a importância do uso sob orientação médica. Quem não deseja ter o planejamento familiar interrompido precisa estar atento: as substâncias têm potencial de melhorar a saúde reprodutiva de mulheres em idade fértil e de reduzir a eficácia dos contraceptivos orais.
Diversos relatos nas redes sociais, a exemplo do da ex-BBB Laís Caldas, mostram casos de quem engravidou após combinar o uso desses medicamentos para emagrecimento (que funcionam imitando um hormônio natural para ajudar a regular o apetite, o açúcar no sangue e a digestão) com anticoncepcionais. A médica ginecologista e obstetra, Aline Frota, que também é pós-graduada em Ginecologia Endócrina e em Medicina da Obesidade, explica os motivos para que essas situações aconteçam.
“Existem evidências indicando que esses medicamentos podem interferir indiretamente na fertilidade, já que atuam diminuindo o apetite, aumentando a saciedade e regulando o açúcar no sangue, o que reflete no funcionamento dos ovários. Ao mesmo tempo, possuem um mecanismo de ação que retarda o esvaziamento gástrico, processo necessário para que os métodos contraceptivos orais funcionem com êxito. Ou seja, altera a forma com que os hormônios presentes nos contraceptivos orais são absorvidos e, consequentemente, reduz a eficácia deles. Nesse cenário, dependendo do fármaco utilizado e da situação clínica da paciente, podem elevar as chances de uma gravidez não planejada”, pontua.

Em junho do ano passado, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA, da sigla em inglês) chegou a emitir um alerta para mulheres que fazem uso dessas composições voltadas ao emagrecimento. A autoridade reforçou que as pacientes devem “usar contracepção eficaz enquanto estiverem usando esses medicamentos e, em alguns casos, por até dois meses após interromper o uso antes de tentar engravidar”.
De acordo com Aline, o ideal é que façam a troca por métodos contraceptivos que não passam pelo sistema digestivo. A sócia-fundadora do Instituto Vitasee Emagrecimento e Saúde cita como exemplos DIU (hormonal ou de cobre), implante subdérmico, injeção contraceptiva. “A regra é clara: antes de iniciar qualquer tratamento, é essencial obter uma orientação personalizada para entender as suas particularidades”, enfatiza a médica, que também atende na Clínica AMIH (Assistência Materno Infantil Humanizada).
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Sob orientação médica
A especialista em Ginecologia Endócrina e em Medicina da Obesidade faz questão de salientar a importância da orientação médica durante o tratamento com agonistas do receptor GLP-1. Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou as primeiras diretrizes sobre as chamadas ‘canetas emagrecedoras’ como parte do tratamento da obesidade, aconselhando o uso por adultos, exceto mulheres grávidas, associado a dieta saudável, atividade física e acompanhamento a longo prazo por profissionais de saúde.
Segundo Aline, a obesidade é uma doença crônica e recidivante, ou seja, para o resto da vida, e mexe em todos os órgãos do corpo, bem como afeta a saúde psicossocial, por isso, a necessidade de uma assistência capacitada, multidisciplinar e que trabalhe com uma visão além do peso.
“Para que se faça o acompanhamento, é ideal que o paciente procure médicos especializados em tratamento da obesidade, que não vejam apenas o peso na balança, que entendam que há uma pessoa ali com muitas coisas para serem entendidas, o que é, inclusive, a premissa do Instituto Vitasee. O tratamento contra a obesidade exige uma equipe multidisciplinar e humanizada, que deixe evidente que nenhum medicamento é solução mágica e que consiga transmitir que o processo, por mais que seja longo e muitas vezes exaustivo, é capaz de salvar a vida de muitas pessoas”, finaliza.