Durante décadas, a vida adulta seguiu um roteiro relativamente previsível: estudar, trabalhar, casar, comprar uma casa e ter filhos. Para parte dos jovens de hoje, essa sequência perdeu espaço.
Antes do altar e do berço, entram na lista outras prioridades, como estabilidade financeira, carreira, viagens, autonomia, saúde emocional e a sensação de estar preparado para assumir uma nova família.
Personagens ouvidos pela reportagem mostram que não existe uma única explicação para essa mudança. Há quem queira casar, mas prefira esperar uma fase financeira mais confortável; quem tenha decidido não ter filhos; quem considere a união possível apenas preservando a própria independência; e também quem tenha formado família cedo e precisado reorganizar completamente os planos de vida.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, o Brasil registrou 948,9 mil casamentos civis em 2024, alta de 0,9% em relação a 2023. Ainda assim, a taxa de nupcialidade ficou em 5,6 casamentos para cada mil pessoas com 15 anos ou mais, abaixo dos 7,1 registrados em 2014.
Os brasileiros também estão oficializando as uniões mais tarde: entre solteiros de sexo diferente, a idade média ao casar passou de 27,8 anos para os homens e 24,9 para as mulheres em 2004, para 31,5 e 29,3 anos, respectivamente, em 2024.
No Amazonas, foram registrados 14.442 casamentos civis em 2024, sendo 9.711 apenas em Manaus. O número estadual, porém, é 22,61% menor do que o registrado uma década antes.
Isso não significa, necessariamente, que os jovens deixaram de desejar casamento ou filhos. Em muitos casos, o desejo continua existindo, mas foi empurrado para um futuro considerado mais seguro.
Antes da família, a estabilidade
Para o sociólogo Marcelo Seráfico, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com mestrado pela Unicamp e doutorado pela UFRGS, a decisão de constituir uma família não pode ser explicada apenas pelo afeto.

Segundo ele, quando a família resulta de um projeto de vida, e não de uma gravidez ou união inesperada, a decisão passa por fatores econômicos, sociais e culturais. A renda e a posição dos dois parceiros no mercado de trabalho interferem diretamente na percepção de que é possível sustentar um lar.
O problema, afirma o sociólogo, é que o mercado de trabalho atual nem sempre acompanha as expectativas dessa geração. Mesmo jovens com mais anos de escolaridade podem ter rendimentos proporcionalmente menores do que os obtidos por gerações anteriores em posições semelhantes. Com isso, projetos afetivos acabam sendo adiados enquanto outras metas são perseguidas.
“O projeto familiar acaba se sobrepondo ao critério econômico”, resume Seráfico.
Para ele, a própria possibilidade de construir uma carreira ainda não está disponível para todos. Muitos jovens precisam estudar e trabalhar simultaneamente; outros deixam os estudos para trabalhar, e uma parcela sequer conclui o ensino médio ou o ensino superior. Nesse cenário, adiar casamento e filhos nem sempre é uma escolha completamente livre: para alguns, é consequência das condições materiais disponíveis.
Planejamento
Essa lógica aparece na experiência de Fernanda Sampaio, de 31 anos, que trabalha com Trade e Marketing e é casada desde os 20 anos. Para ela, a vontade de formar família, principalmente ter filhos, sempre existiu, mas a chegada de uma gravidez não planejada alterou a trajetória que havia desenhado.
Antes da maternidade, o planejamento incluía faculdade, trabalho, viagens e construção de carreira. Com a gravidez, ela decidiu, junto ao marido, dedicar parte do tempo aos cuidados com a criança e concluir a graduação. O resultado foi uma reorganização completa da vida.
A experiência também mudou sua percepção sobre o momento adequado para ter filhos. “Se eu pudesse aconselhar, eu sempre diria: não tenham filhos antes dos 30. A dificuldade vem com força”, afirma.
Ela cita gastos com educação, medicamentos e roupas, além da necessidade de abrir mão de tempo, lazer e parte da convivência com amigos. Para ela, dinheiro e tempo de qualidade são elementos fundamentais para enfrentar a chegada de uma criança.
Fernanda considera que ninguém está completamente preparado para formar família. O que existe, em sua visão, é a possibilidade de tomar a decisão com planejamento, estabilidade financeira e disposição para dividir responsabilidades.
Casamento também entra na fila das metas
Para Alex Fideles, diretor de cena, produtor audiovisual e designer gráfico, de 29 anos, o casamento continua fazendo parte dos planos, mas não é uma prioridade imediata. Ele afirma que pretende se casar somente quando alcançar uma situação financeira mais estável.
“Casar agora nesse momento seria se enrolar em algumas dívidas e implicaria em alguns planos que temos”, explica.

A moradia, nesse caso, não é o principal obstáculo, já que o casal já possui onde viver. O que pesa é a transição de carreira e a intenção de preservar o padrão de vida atual. A ideia é fazer uma cerimônia discreta quando as metas financeiras forem alcançadas.
É um exemplo de como o adiamento não significa necessariamente rejeição ao casamento. A união permanece como objetivo, mas passa a competir com outras metas consideradas fundamentais para que a vida a dois seja sustentável.
Liberdade antes do casamento e dos filhos
Para a analista de licitação Eduarda Monte, de 28 anos, a decisão de não ter filhos está atualmente ligada principalmente à questão financeira e às lembranças das dificuldades vividas pela família.
“Acredito que é trauma porque meus pais não tinham condições pra me colocar em boas escolas, lazer que toda criança gostaria de ter, brinquedos… porque a preocupação era colocar o prato na mesa”, relata.
Ela afirma que poderia mudar de ideia no futuro, mas somente se alcançasse uma condição financeira muito confortável. Sobre o casamento, a prioridade também é preservar a liberdade e a privacidade.
“Se eu for me relacionar sério, seria cada uma na sua casa, cada uma no seu cantinho. Prefiro gastar viajando conhecendo o mundo, que gastar em uma festa de casamento, vestido de noiva, cerimônia”, pontua.
Apesar de ter familiares que se casaram e tiveram filhos cedo, Eduarda diz que nunca sofreu pressão para seguir o mesmo caminho.
A vida adulta também mudou
O psicólogo Danilo Areosa explica que a mudança não é apenas econômica. Para ele, existe uma transformação na própria maneira de compreender o que significa ser adulto.

Segundo ele, a sequência tradicional de “estudar, casar, ter uma casa e ter filhos” deu lugar a outras prioridades, como estabilidade financeira e emocional. Em um mercado de trabalho considerado incerto, muitos jovens preferem permanecer na casa dos pais enquanto não conquistam condições de independência.
Danilo chama atenção para um fenômeno que contrasta com a antiga “síndrome do ninho vazio”, quando os pais enfrentavam a saída dos filhos adultos de casa. Hoje, segundo ele, ganha espaço a chamada “síndrome do ninho cheio”, caracterizada pela permanência de adultos jovens na residência da família de origem.
A dificuldade de sair de casa, porém, não seria explicada apenas por questões financeiras. O psicólogo aponta também uma maior dificuldade de lidar com frustrações e uma possível dependência emocional decorrente da proteção dos pais, fatores que podem interferir na construção da autonomia.
Há ainda uma mudança na relação com a própria liberdade. Na avaliação de Danilo, os jovens atuais apresentam um olhar mais individualizado sobre as escolhas pessoais. Autonomia, liberdade e realização individual podem vir antes da construção de um projeto familiar compartilhado.
E existe outro componente: o medo de fracassar.
“O medo de falhar nos papéis tradicionais de provedor e cuidador gera forte ansiedade de desempenho”, afirma.
Esperar é diferente de ter medo
Mas como saber se uma pessoa está simplesmente esperando o momento certo ou evitando uma decisão por insegurança?
Para Danilo, a diferença passa pelo autoconhecimento. Uma decisão consciente envolve calma, planejamento e diálogo com o parceiro. Quando a relação é dominada por insegurança e ansiedade, o medo pode transformar o adiamento em estagnação.
Por isso, conversas sobre dinheiro, filhos, carreira, rotina e divisão das tarefas domésticas não deveriam aparecer somente depois da decisão de morar juntos ou casar. Elas fazem parte da preparação para uma vida compartilhada.
“As conversas importantes entre os parceiros ajudam nessa decisão”, afirma o psicólogo.
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Nem todo jovem quer o mesmo tipo de família
Eduarda representa uma mudança ainda mais profunda. Ela não pretende se casar e valoriza a possibilidade de manter sua independência e seu próprio espaço. Para ela, um relacionamento sério não necessariamente precisa significar dividir a mesma casa.
A preferência é por preservar a privacidade e a liberdade, inclusive com cada pessoa mantendo seu próprio canto. Entre investir em uma festa de casamento e viajar para conhecer o mundo, ela escolheria a segunda opção.
A escolha também não nasceu de pressão familiar. Eduarda afirma que sua família é tranquila em relação ao assunto e que nunca se sentiu obrigada a seguir o modelo vivido pelas gerações anteriores.
É justamente essa multiplicidade que ajuda a entender os números. O conceito de família não desapareceu; ele se diversificou.
De “família padrão” para múltiplas possibilidades
O Censo 2022 do IBGE mostra que a composição das famílias brasileiras já mudou de forma significativa. Pela primeira vez, famílias formadas por casais com filhos deixaram de ser maioria. A participação caiu de 55,8% em 2000 para 45,2% em 2022.
Enquanto isso, os casais sem filhos ganharam espaço: a participação desse tipo de composição passou de 13,8% em 2000 para 26,9% em 2022. Considerando especificamente casais sem filhos, o percentual passou de 12% para 24%.
Para Marcelo Serafico, entretanto, é preciso cuidado para não interpretar essas estatísticas de maneira isolada. A família está permanentemente em transformação, inclusive com o reconhecimento legal de diferentes configurações familiares, como as formadas por casais do mesmo sexo.
Além disso, afirma o sociólogo, não basta contabilizar quantos casamentos acontecem. É necessário observar quanto tempo essas relações permanecem e, principalmente, em que condições elas existem.
Ele chama atenção para aspectos qualitativos, como a existência de violência dentro das relações, lembrando que parcela significativa da violência contra as mulheres é praticada por maridos.
O casamento não acabou, mas deixou de ser obrigação
Os dados ajudam a desmontar uma conclusão simplista: os jovens não necessariamente deixaram de acreditar no casamento. Em 2024, o país ainda registrou quase 949 mil uniões civis. O que mudou é a idade em que elas acontecem, a forma como são encaradas e o lugar que ocupam no projeto de vida.
Também chama atenção o crescimento dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Foram 12.187 registros em 2024, alta de 8,8% em relação a 2023 e o maior número desde o início da série histórica, em 2013. Entre os casais do mesmo sexo, a idade média dos solteiros que se casaram foi de 34,7 anos entre homens e 32,5 anos entre mulheres.
Em outras palavras, não existe mais apenas uma estrada para chegar à vida adulta. Para alguns, ela passa pelo casamento e pelos filhos. Para outros, pelo trabalho, viagens, independência ou pela decisão de não ter crianças. Há ainda quem queira tudo isso, mas prefira esperar até sentir que consegue sustentar o projeto. E existe quem tenha chegado à maternidade ou paternidade antes da hora planejada e precisado reconstruir os próprios planos.
A diferença entre essas histórias talvez seja justamente a maior marca da geração atual: casar e ter filhos continuam sendo possibilidades, mas já não são necessariamente etapas obrigatórias da vida adulta, e, para muitos jovens, só fazem sentido quando cabem no projeto de vida que eles próprios escolheram.
