Home Lifestyle Exaustão não é mérito: o lado oculto da alta performance

Exaustão não é mérito: o lado oculto da alta performance

0
Exaustão não é mérito: o lado oculto da alta performance
(Foto: Montagem)

Acordar no chão do próprio quarto sem lembrar como caiu poderia ser um sinal de alerta definitivo. À Rede Onda Digital, Mateko, editor de vídeo e criador de conteúdo, relatou que o episódio foi apenas mais uma pausa involuntária em uma rotina que não permite interrupções. Ao recobrar a consciência, a reação foi automática: pegou o celular e voltou ao trabalho.

“Minha cabeça deu um estalo e eu apaguei. Quando acordei, continuei trabalhando porque, enfim, tem que entregar as demandas né?”, conta o editor de vídeo e criador de conteúdo.

A rotina de Mateko não é exceção isolada, é reflexo de um modelo cada vez mais comum. Ele acumula quatro empregos simultaneamente, atravessando dias que começam com doses excessivas de café e energéticos e terminam com medicamentos para conseguir dormir.

Não há pausa real. O descanso virou luxo raro, restrito a poucas horas no sábado pela manhã.

“Os únicos momentos que eu tenho em paz são sábado de manhã. Mas à tarde, normalmente já tenho que trabalhar de novo. Eu trabalho de domingo a domingo sem parar.”

A obsessão por produtividade

No discurso corporativo, essa dedicação costuma ser celebrada. Termos como “vestir a camisa” e “dar o sangue” são repetidos como símbolos de comprometimento, mas, na prática, escondem uma cultura que transforma exaustão em mérito. A linha entre produtividade e adoecimento torna-se cada vez mais tênue quando o valor profissional passa a ser medido pela disponibilidade ao trabalho: chegar antes, sair depois, responder e-mails à meia-noite.

Para o criador de conteúdo, o processo começou quando aceitou o quarto emprego, não apenas por necessidade, mas porque aprendeu que seu valor profissional era medido pela quantidade de trabalho que conseguia assumir. Ficaram pelo caminho o convívio social, o cuidado com o próprio corpo e o tempo com a família.

“O impacto de ter quatro empregos é não ter tempo para nada. Não saio mais com amigos, não tenho mais tempo de cuidar do meu corpo e da minha mente. Eu abdico de momentos em família, abdico de tempo de qualidade, abdico de sono, descanso etc etc”, relata.

Mateko, editor de vídeo e criador de conteúdo (Foto: Arquivo pessoal)

Exaustão não é mérito

A médica psiquiatra Alessandra Pereira atende diariamente profissionais que chegam ao consultório nessa mesma encruzilhada. Ela explica que a normalização do cansaço se tornou um fenômeno social.

“Hoje em dia, na sociedade, a gente percebe que as pessoas gostam de exibir o troféu do cansaço. Virou ‘bonito’ dizer que está cansado. Trabalhar demais o tempo todo passou a ser visto como sinal de competência e comprometimento”, alerta.

Mas o corpo não se engana com discursos. Enquanto o profissional se entrega a uma rotina exaustiva, o organismo acumula uma dívida que será cobrada mais cedo ou mais tarde.

A cereja perigosa do bolo: estimulantes

Quando o cansaço acumulado começa a comprometer o desempenho, a obsessão por produtividade passa a oferecer uma solução aparentemente mágica: as substâncias. Café, energéticos e, em casos mais extremos, psicoestimulantes como Ritalina e Venvanse.

Mateko conta que sobrevive “à base de café e [bebida energética] Monster”. Recentemente, precisou incluir um medicamento para dormir na rotina. Um ciclo vicioso que evidencia o paradoxo da busca por performance.

A médica psiquiatra explica que esse caminho é comum entre profissionais submetidos a longas jornadas e alta pressão por resultados.

“Eles usam estimulantes para aguentar jornadas extensas e manter o foco, apesar do cansaço acumulado.”

Dra. Alessandra Pereira médica especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) (Foto: Arquivo pessoal)

No começo, funciona. A pessoa sente um aumento de energia, de concentração. O problema, alerta a psiquiatra, é que o organismo começa a cobrar o esforço.

“Com o tempo, a pessoa evolui com insônia, ansiedade, irritabilidade. Parece que aquela medicação não dá mais conta. Aquilo acaba virando um quadro de exaustão, porque esgota toda a reserva energética do indivíduo.”


Leia mais

Dia Mundial de Combate à Tuberculose: jovem relata isolamento e luta pela cura

Moeda no umbigo e leite materno no olho: pediatra alerta sobre crenças populares que colocam bebês em risco


Quando o corpo diz “chega”

Mateko aprendeu na prática o que acontece quando a reserva energética se esgota.

“Eu costumo trabalhar até minha cabeça me desligar e depois eu continuo trabalhando”, diz.

Ele descreve os episódios como “apagões”. Já aconteceu de passar um dia inteiro desacordado. Quando voltou a si, explicou para um cliente o que havia acontecido. A resposta foi seca: “sinto muito”. E, na sequência: “mas o vídeo você consegue entregar até daqui à uma hora?”

“Sempre acordo com muita ansiedade, porque quando isso acontece normalmente atrasa tudo. Daí eu preciso de remédios pra me manter são”, desabafa.

A psiquiatra lembra de um caso que a marcou profundamente. Um advogado que produzia muito, entregava muitos processos, mas simplesmente parou de dormir. Em vez de descansar, ele continuava produzindo. Até que chegou ao consultório “completamente surtado, após três dias sem dormir absolutamente nada”. Ela conta que o paciente precisou de dois anos para se reestruturar completamente.

O preço alto

O que diferencia uma pessoa dedicada de alguém que já está em um quadro patológico? Para Alessandra, a resposta está no equilíbrio, seja no pessoal, familiar e social, pilar profissional ou espiritual. Quando a pessoa consegue “desligar”, recuperar as energias, manter relações sociais e familiares preservadas, ela está no ponto de equilíbrio.

O comportamento se transforma em doença quando ele começa a ter sintomas de que algo não vai bem, como insônia, irritabilidade, um cansaço extremo, dificuldade de concentração mesmo tomando a medicação e uma sensação constante de esgotamento.”

Mateko reconhece esses sintomas. A ansiedade constante. O medo de atrasar entregas. A sensação de que nunca é suficiente. E, no centro de tudo, a dificuldade de dizer não aos clientes, aos prazos.

A doutora Alessandra faz um alerta que parece óbvio, mas que se perdeu no discurso da alta performance: produtividade não se sustenta com exaustão.

“A produtividade de hoje sem equilíbrio com certeza vai ser o colapso do amanhã.”

Ela ressalta que o verdadeiro risco não é apenas o uso de medicamentos sem prescrição. É uma cultura social que normaliza pessoas emprestarem remédios, que faz com que profissionais tenham medo de ir ao psiquiatra, mas usem ilegalmente substâncias psiquiátricas, que transforma o cansaço em troféu a ser exibido.