Um site de recrutamento cheio de fotos de jovens sorrindo, frases motivacionais e uma lista generosa de benefícios. Até que, no rodapé de cada vaga, aparece o aviso: “não se candidate se você não estiver disposto a trabalhar cerca de 70 horas por semana, presencialmente, em Nova York”. A descrição é da Rilla, empresa de tecnologia sediada nos Estados Unidos, que virou símbolo de uma prática cada vez mais discutida no setor: a cultura 996, jornadas que, na prática, significam trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana.

A Rilla desenvolve sistemas baseados em Inteligência Artificial capazes de monitorar vendedores fora do escritório, durante interações com clientes. Para a empresa, o ritmo acelerado não é visto como sacrifício, mas como parte do “perfil” buscado no time. O chefe de crescimento, Will Gao, afirma que a companhia procura profissionais “como atletas olímpicos”, com “obsessão” e “ambição infinita”, defendendo que não existe uma estrutura rígida e que, em alguns dias, alguém pode trabalhar até de madrugada e, no seguinte, começar mais tarde.
O avanço acelerado da IA é o motor da escala 996. Start-ups e empresas financiadas por capital de risco vivem uma espécie de “corrida do ouro”: a pressão para lançar primeiro, escalar mais rápido e monetizar antes do concorrente empurra equipes para jornadas longas. Recrutadores e investidores apontam que, em companhias muito jovens, a crença é simples: “mais horas = mais chance de vencer a corrida”.
Esse discurso encontra eco em empreendedores que tratam o trabalho como “jogo”. É o caso do alemão Magnus Müller, fundador da Browser-Use, que vive em uma “casa de hacker”, um espaço compartilhado de moradia e trabalho, onde a equipe troca ideias o tempo todo. Para ele, quem busca uma rotina de 40 horas semanais dificilmente se encaixa: a empresa quer pessoas “viciadas” no que fazem.

O outro lado: produtividade e burnout
A lógica do “quanto mais, melhor” é contestada por especialistas e até por investidores do Vale do Silício. Deedy Das, sócio de uma firma de capital de risco, afirma que um erro comum de fundadores iniciantes é confundir horas trabalhadas com produtividade. A crítica é direta: longas jornadas podem até parecer comprometimento no curto prazo, mas tendem a gerar exaustão e queda de eficiência no médio e longo prazo, além de afastar profissionais experientes e pessoas com família.

A pesquisadora Tamara Myles, que estuda cultura organizacional, chama atenção para um ponto sensível: muitas empresas não escondem o 996, elas “vendem” essa cultura como troféu. Mas aceitar essa rotina nem sempre é uma escolha totalmente livre: pode haver fatores como mercado de trabalho difícil, dependência de visto, medo de perder o emprego e uma dinâmica de poder que limita a possibilidade de dizer “não”.

Riscos reais à saúde já foram medidos
A preocupação com excesso de trabalho está longe de ser novidade. No Japão, o termo karōshi é usado para descrever morte por excesso de trabalho, geralmente associada a AVC e problemas cardíacos. E a discussão ganhou evidência global com dados de pesquisas: jornadas muito longas, especialmente acima de 55 horas semanais, estão ligadas ao aumento de risco de doenças cardiovasculares e eventos como AVC.
Além disso, estudos sobre desempenho indicam um “ponto de equilíbrio”: depois de certo limite, o rendimento por hora cai. Em outras palavras, empilhar horas pode gerar a sensação de produtividade, mas o corpo e a mente cobram a conta, e a entrega real pode não crescer na mesma proporção.
Enquanto empresas de tecnologia no exterior explicitam jornadas intensas em anúncios, no Brasil o tema aparece por outra via: no Congresso, discute-se uma proposta para reduzir jornada semanal e rever a escala de seis dias trabalhados por um de descanso (6×1). O contraste evidencia como o mundo do trabalho está em disputa: de um lado, a cultura da “agitação” prometendo rapidez e inovação; do outro, pressões por saúde, equilíbrio e produtividade sustentável.

A cultura 996 se apoia em um argumento poderoso: “velocidade é tudo”, especialmente na IA. Mas a discussão que cresce é outra: até que ponto essa velocidade compensa, quando o custo pode ser o burnout.
Com informações de BBC