O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, fez revelações graves em depoimento sigiloso prestado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada.
A oitiva foi solicitada pela própria defesa de Vorcaro, sob alegação de “graves intimidações”, e ocorreu fora da sede do tribunal e sem a presença da Polícia Federal, para preservar a segurança do depoente e o sigilo do ato.
Vorcaro afirmou ter sofrido tortura psicológica, ameaças de morte e maus-tratos durante sua prisão, e relatou que sua mãe e sua irmã também receberam ameaças anônimas. Ele também acusou a Polícia Federal de ter rejeitado sua proposta de delação premiada para blindar o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues.
Relato de tortura e ameaças
Em seu depoimento, Vorcaro descreveu episódios de terror psicológico durante sua custódia. Ele afirmou que, em uma transferência de São Paulo para Brasília, permaneceu por cerca de seis horas dentro de um “caixote” fechado, sem ventilação. Ao ser retirado, ouviu de um agente: “Isso que dá, você vai querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso”.
Em outro transporte, já em um helicóptero da Polícia Federal, o banqueiro afirmou ter sido vendado. “Me colocaram aqueles óculos igual o do Maduro”, disse, referindo-se ao transporte do ex-presidente venezuelano para os Estados Unidos. Segundo Vorcaro, um dos agentes chegou a comentar: “É mais fácil, de repente, jogar ele daqui”. Ele afirmou ter temido pela própria vida em pelo menos cinco ocasiões durante os deslocamentos.
Vorcaro relatou ainda que sua mãe, que mora em Belo Horizonte, e sua irmã, cujo marido também está preso, ficaram sozinhas em casa e passaram a receber e-mails anônimos com ameaças de morte contra o próprio banqueiro. Segundo ele, os autores das mensagens nunca se identificaram, e a defesa se comprometeu a juntar os e-mails aos autos do processo.
Relação com diretor-geral da PF inviabilizou delação
Vorcaro afirmou que a Polícia Federal não avançou nas negociações de delação porque isso poderia prejudicar pessoas “do outro lado da mesa”. Citou como exemplo sua relação “cordial” com o diretor-geral Andrei Rodrigues, afirmando que ambos frequentaram eventos juntos, incluindo encontros de charuto e corridas de Fórmula 1.
“Entrou o advogado novo, a gente queria construir uma nova colaboração, me sinto desconfortável de propor uma colaboração em que a gente tem um diretor da Polícia Federal com quem eu tinha uma relação. Não tem a menor chance disso se viabilizar”, afirmou. Segundo ele, a PF rejeitou sua delação para evitar que informações sobre a relação viessem à tona.
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Questionado se sentia algum desconforto com a presença da Procuradoria-Geral da República no depoimento, Vorcaro afirmou não ter nenhuma reserva. Segundo ele, o órgão teve, desde o início, uma postura “proativa” e disposta a ouvi-lo, ao contrário da Polícia Federal. “Todo o contato que foi feito desde o começo foi no intuito de, efetivamente, saber a verdade”, disse.
“Núcleo do atual governo” e pedido de arquivamento
Vorcaro também afirmou que sua colaboração envolveria pessoas do “núcleo do atual governo”. Ele reconheceu ter cometido erros, mas disse que os fatos expostos na mídia não correspondem à realidade. O banqueiro afirmou que tentou colaborar por nove meses, mas a PF se recusou a ouvi-lo, e disse ter desistido até ser convencido por um novo advogado a tentar novamente.
Ele afirmou ainda que a decisão de liquidar o Banco Master e deflagrar a operação policial teria sido tomada em reunião no Banco Central antes mesmo da expedição de sua ordem de prisão, segundo relatos de outras pessoas que, de acordo com ele, já constam do processo. A alegação não foi confirmada por fontes independentes nesta matéria.
A defesa de Vorcaro afirmou publicamente que ele foi submetido a “tortura psicológica, maus-tratos e coações veladas”. Já a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento das denúncias, afirmando que ele não apresentou fatos concretos nem elementos mínimos que sustentassem as acusações. O depoimento corre sob sigilo e ainda será analisado pelo ministro André Mendonça.
