Um dos conceitos clássicos da Ciência Política define os partidos como uma “organização permanente de cidadãos que compartilham princípios, interesses ou visões e que atuam de forma coordenada para conquistar, exercer e influenciar o poder”. Mas quais seriam, na prática, os princípios compartilhados pelos vereadores Sargento Salazar (PL), Rodrigo Guedes (PP) e José Ricardo Wendling (PT), que, apesar de estarem em partidos diferentes, atuam juntos em uma oposição dura a governos que contam, formalmente, com o apoio das siglas às quais pertencem?
O PL, partido de Salazar, integra o secretariado do governador Wilson Lima (União Brasil) por meio do diretor-presidente da Fundação de Previdência do Estado do Amazonas, Evilázio Nascimento. Ex-deputado estadual, Evilázio é irmão do presidente estadual do partido, Alfredo Nascimento, aliado político de Wilson Lima. Ainda assim, Salazar transformou o governador em um dos principais alvos de suas críticas, frequentemente divulgadas em vídeos nas redes sociais. Na prática, Salazar e a direção estadual do PL não compartilham os mesmos princípios nem atuam de forma coordenada quando o assunto é a gestão de Wilson Lima.
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Diferentes formas de atuação
O PP, partido de Rodrigo Guedes, integra uma federação partidária com o União Brasil, que, na Câmara Municipal de Manaus, reúne cinco vereadores alinhados ao governador Wilson Lima e que também votam com a base do prefeito David Almeida (Avante). O presidente municipal da Federação União Progressista é o vereador Rodrigo Sá, aliado de Wilson e frequentemente alinhado às pautas do Executivo municipal.
Esse posicionamento governista dos colegas de federação, no entanto, não influencia a atuação de Guedes. O vereador mantém uma oposição firme à gestão de David Almeida e, recentemente, passou a direcionar críticas também ao Governo do Estado. Um exemplo foi a divulgação de um vídeo em que mostra as condições precárias do Parque Rio Negro, no bairro São Raimundo, zona Sul de Manaus, espaço sob responsabilidade da administração estadual apoiada pela federação da qual Guedes faz parte.
O caso de José Ricardo é ainda mais emblemático. O PT não definiu formalmente se integra a base aliada ou se faz oposição aos governos de Wilson Lima e David Almeida. Nesse vácuo político, José Ricardo se posiciona de forma crítica em relação a ambos. A postura contrasta com a do presidente estadual do PT, deputado Sinésio Campos, um dos principais apoiadores de Wilson Lima na Assembleia Legislativa do Amazonas, e com a do ex-vereador e suplente de José Ricardo, Sassá da Construção Civil, que integra o governo municipal.
Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antonio Souza, essas divergências refletem a fragilidade da cultura partidária no Brasil e o perfil do eleitorado, que tende a votar mais em pessoas do que em partidos.
“Não há, necessariamente, um alinhamento ideológico entre os filiados, mas interesses eleitorais. Para concorrer às eleições, o cidadão precisa estar vinculado a um partido, mas isso não significa que seguirá, obrigatoriamente, as orientações da legenda”, analisa.