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Entre ônibus e engarrafamentos: o tempo perdido no caminho para o trabalho

Para quem depende do transporte coletivo para trabalhar em Manaus, a jornada começa muito antes de bater o ponto e termina muito depois do expediente. O tempo gasto no deslocamento pode significar horas dentro de ônibus ou à espera por um veículo, reduzindo o período disponível para descanso, estudo, lazer e convivência com a família.

Para Joaquim Santana, de 74 anos, o problema aparece diariamente. Mestre de obras, ele também estuda Engenharia Civil e depende do transporte coletivo para cumprir a rotina entre casa, trabalho e estudos.

“Eu saio de casa 5h45, pego o ônibus, o 016, aí desço no São José, pego o 85. (…) Entro 7 horas no meu trabalho. Tem dia que eu entro atrasado, por causa do transporte”, disse.

O tempo de quase três horas gasto no trajeto também interfere nos estudos.

“Quando você trabalha e muitas vezes estuda, a gente que estuda, você perde muito tempo. Três horas perdidas dentro do ônibus não é brincadeira, é um absurdo. Você imagina, o negócio não é fácil. Três horas dentro do ônibus é muito tempo. Você perde tempo de estudar, perde tempo de descansar e chega em casa já cansado”, disse.

Joaquim conhece o sistema de transporte coletivo por outro lado. Antes de trabalhar na construção civil, ele foi supervisor da antiga Empresa Municipal de Transportes (EMTU) e afirma ter acompanhado o funcionamento do transporte em outro período.

“Eu já trabalhei no sistema de transporte coletivo. Fui supervisor da antiga MTU. Naquele tempo funcionava. O Brasil tem muita Lei, mas a fiscalização não tem. A secretaria tem que fiscalizar mais, como fiscalizava antigamente”, disse.

Para Joaquim, melhorar o transporte não depende apenas de colocar mais ônibus nas ruas, mas também de acompanhar o cumprimento das regras e o funcionamento do serviço.

“Não tem compromisso com o trabalhador que pega o ônibus todo dia. A gente precisa de um transporte que funcione, porque quem depende dele tem horário para chegar no trabalho, tem horário para voltar para casa e tem outras coisas para fazer.”

Joaquim Santana voltando para casa no ônibus 014 (Foto: Onda Digital)

Tempo de viagem também é tempo de vida

O caso de Joaquim ajuda a dimensionar um problema que não aparece apenas no relógio. Quando o trabalhador passa horas no deslocamento, o impacto pode chegar ao descanso, aos estudos, à convivência familiar e ao lazer.

Três horas por dia no deslocamento representam 15 horas em uma semana de cinco dias. Em quatro semanas, são aproximadamente 60 horas, o equivalente a mais de dois dias e meio inteiros.

A conta, porém, não mostra tudo o que essas horas representam. É o que aparece na rotina de Renata Ribeiro Nunes, de 46 anos.

Ela sai de casa às 6h20 da manhã e leva cerca de uma hora e meia para chegar ao trabalho, que fica no bairro Compensa, zona Oeste. Na volta, o tempo varia conforme o trânsito. Em dias mais complicados, já passou entre duas horas e meia e quatro horas no deslocamento.

“Na volta, depende do dia. Já passei duas horas e meia e até quatro horas presa em um engarrafamento”, contou.

Para Renata, o cansaço acumulado faz com que o problema ultrapasse o tempo gasto no transporte. O impacto aparece também em planos que ficam pelo caminho. Renata conta que começou a estudar, mas desistiu diante da rotina de trabalho e deslocamento.

“Eu comecei a estudar, mas acabei desistindo porque fiquei muito cansada. Você passa o dia inteiro trabalhando e, quando chega à noite, ainda precisa enfrentar o trânsito para ir estudar. Fica muito complicado”, revelou.

A falta de tempo também reduz as possibilidades de cuidar da própria saúde e manter uma vida social.

“Quem gostaria de fazer uma academia, fazer uma faculdade? Então, isso acaba com o nosso dia. A vida social que a gente não tem, não temos vida social em Manaus, porque no final de semana você chega exausto”, disse.


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Na avaliação dela, o trânsito e o transporte acabam determinando o que cabe ou não na vida depois do trabalho.

“Não é só tempo perdido no ônibus ou no engarrafamento. É tempo que deixa de ser vivido”, disse.

Uma pesquisa do Ipsos-Ipec realizada em 2025 mostra a dimensão do problema. Entre internautas entrevistados em dez capitais brasileiras, os moradores de Manaus disseram gastar, em média, 128,2 minutos por dia em deslocamentos, considerando todos os trajetos realizados na cidade. O tempo equivale a cerca de 2 horas e 8 minutos por dia. Manaus teve a segunda maior média entre as capitais pesquisadas, atrás apenas de Belém, com 130,3 minutos.

Imagem vista de dentro do ônibus da linha 458 em Manaus (Foto: Arquivo Pessoal)

O levantamento não mede especificamente o percurso entre casa e trabalho. O dado considera os deslocamentos realizados pelos entrevistados durante o dia e, por isso, serve como referência sobre o tempo consumido pela mobilidade na cidade.

Em uma cidade onde os deslocamentos consomem, em média, mais de duas horas por dia, o tempo perdido no caminho deixa de ser apenas uma questão de mobilidade. Ele passa a fazer parte da conta da qualidade de vida de quem precisa atravessar Manaus todos os dias.

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Para quem depende do transporte coletivo para trabalhar em Manaus, a jornada começa muito antes de bater o ponto e termina muito depois do expediente. O tempo gasto no deslocamento pode significar horas dentro de ônibus ou à espera por um veículo, reduzindo o período disponível para descanso, estudo, lazer e convivência com a família.

Para Joaquim Santana, de 74 anos, o problema aparece diariamente. Mestre de obras, ele também estuda Engenharia Civil e depende do transporte coletivo para cumprir a rotina entre casa, trabalho e estudos.

“Eu saio de casa 5h45, pego o ônibus, o 016, aí desço no São José, pego o 85. (…) Entro 7 horas no meu trabalho. Tem dia que eu entro atrasado, por causa do transporte”, disse.

O tempo de quase três horas gasto no trajeto também interfere nos estudos.

“Quando você trabalha e muitas vezes estuda, a gente que estuda, você perde muito tempo. Três horas perdidas dentro do ônibus não é brincadeira, é um absurdo. Você imagina, o negócio não é fácil. Três horas dentro do ônibus é muito tempo. Você perde tempo de estudar, perde tempo de descansar e chega em casa já cansado”, disse.

Joaquim conhece o sistema de transporte coletivo por outro lado. Antes de trabalhar na construção civil, ele foi supervisor da antiga Empresa Municipal de Transportes (EMTU) e afirma ter acompanhado o funcionamento do transporte em outro período.

“Eu já trabalhei no sistema de transporte coletivo. Fui supervisor da antiga MTU. Naquele tempo funcionava. O Brasil tem muita Lei, mas a fiscalização não tem. A secretaria tem que fiscalizar mais, como fiscalizava antigamente”, disse.

Para Joaquim, melhorar o transporte não depende apenas de colocar mais ônibus nas ruas, mas também de acompanhar o cumprimento das regras e o funcionamento do serviço.

“Não tem compromisso com o trabalhador que pega o ônibus todo dia. A gente precisa de um transporte que funcione, porque quem depende dele tem horário para chegar no trabalho, tem horário para voltar para casa e tem outras coisas para fazer.”

Joaquim Santana voltando para casa no ônibus 014 (Foto: Onda Digital)

Tempo de viagem também é tempo de vida

O caso de Joaquim ajuda a dimensionar um problema que não aparece apenas no relógio. Quando o trabalhador passa horas no deslocamento, o impacto pode chegar ao descanso, aos estudos, à convivência familiar e ao lazer.

Três horas por dia no deslocamento representam 15 horas em uma semana de cinco dias. Em quatro semanas, são aproximadamente 60 horas, o equivalente a mais de dois dias e meio inteiros.

A conta, porém, não mostra tudo o que essas horas representam. É o que aparece na rotina de Renata Ribeiro Nunes, de 46 anos.

Ela sai de casa às 6h20 da manhã e leva cerca de uma hora e meia para chegar ao trabalho, que fica no bairro Compensa, zona Oeste. Na volta, o tempo varia conforme o trânsito. Em dias mais complicados, já passou entre duas horas e meia e quatro horas no deslocamento.

“Na volta, depende do dia. Já passei duas horas e meia e até quatro horas presa em um engarrafamento”, contou.

Para Renata, o cansaço acumulado faz com que o problema ultrapasse o tempo gasto no transporte. O impacto aparece também em planos que ficam pelo caminho. Renata conta que começou a estudar, mas desistiu diante da rotina de trabalho e deslocamento.

“Eu comecei a estudar, mas acabei desistindo porque fiquei muito cansada. Você passa o dia inteiro trabalhando e, quando chega à noite, ainda precisa enfrentar o trânsito para ir estudar. Fica muito complicado”, revelou.

A falta de tempo também reduz as possibilidades de cuidar da própria saúde e manter uma vida social.

“Quem gostaria de fazer uma academia, fazer uma faculdade? Então, isso acaba com o nosso dia. A vida social que a gente não tem, não temos vida social em Manaus, porque no final de semana você chega exausto”, disse.


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Imagem vista de dentro do ônibus da linha 458 em Manaus (Foto: Arquivo Pessoal)

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