Manaus foi escolhida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para integrar a fase piloto do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, um levantamento inédito que pretende identificar quantas pessoas vivem nessa condição, conhecer seu perfil e subsidiar a criação de políticas públicas mais eficientes em todo o país.
A capital amazonense será uma das cinco cidades brasileiras que participarão dos testes da metodologia da pesquisa, ao lado de Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA) e Goiânia (GO). A etapa experimental servirá para aperfeiçoar os procedimentos antes da realização do censo nacional, prevista para 2028.
Em entrevista à Rede Onda Digital, o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, afirmou que a iniciativa nasceu da necessidade de preencher uma lacuna histórica de informações sobre a população em situação de rua no Brasil.
“É uma demanda que vem do próprio movimento social, das prefeituras e de alguns governos estaduais. O governo federal precisa saber quantas pessoas vivem em situação de rua, quem são elas, de onde vêm, como vivem e o que pode ser feito para construir uma política nacional”, afirmou.
Segundo Pochmann, atualmente não existe um levantamento nacional capaz de dimensionar essa população, o que dificulta a elaboração de políticas públicas voltadas para assistência social, saúde, habitação e inclusão.
“O Estado brasileiro ainda não sabe quantas pessoas, de fato, vivem em situação de rua. Por isso essa pesquisa é tão importante”, destacou.
O presidente do IBGE explicou ainda que toda a metodologia está sendo construída em parceria com pesquisadores, universidades, gestores públicos e representantes dos movimentos sociais.
“Nós não temos referências internacionais. Está sendo tudo desenvolvido em diálogo com instituições, pesquisadores e com o próprio movimento social. Possivelmente será o primeiro censo realizado sobre esse tema no mundo”, afirmou.
Segundo ele, além de produzir um diagnóstico inédito da realidade brasileira, o levantamento poderá servir de referência para outros países, já que o crescimento da população em situação de rua deixou de ser um problema exclusivamente brasileiro.
Por que Manaus foi escolhida?
A escolha de Manaus ocorreu por reunir características consideradas estratégicas para o desenvolvimento da metodologia da pesquisa.
A gerente de Povos e Comunidades Tradicionais e Grupos Populacionais Específicos do IBGE, Marta Antunes, explicou que a capital amazonense representa desafios específicos que contribuirão para tornar o levantamento mais completo.
“Aqui na região Norte, escolhemos Manaus pela especificidade de ter população migrante, população indígena e por ser uma grande capital da região. Com as cinco cidades, vamos testar a metodologia e reunir as lições aprendidas para que, em 2028, possamos realizar o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua”, afirmou.
As cinco cidades foram escolhidas para representar todas as regiões do Brasil, permitindo ao IBGE avaliar diferentes realidades antes da aplicação do levantamento em escala nacional.
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Mapeamento
Em Manaus, a prefeitura participa diretamente da preparação da pesquisa por meio da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) e do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política para a População em Situação de Rua (Ciamp Manaus).
A subsecretária da Semasc e coordenadora do comitê, Graça Prola, afirmou que o município está dando suporte técnico ao IBGE durante toda a fase piloto.
“A Prefeitura de Manaus vem apoiando integralmente o IBGE. Estamos auxiliando a equipe local no mapeamento e na abordagem, porque já temos experiência no atendimento à população em situação de rua”, destacou.
Segundo ela, a experiência acumulada pelo município poderá contribuir para tornar o levantamento ainda mais preciso.
Perfil
Os dados oficiais mais recentes da prefeitura apontam que 1.762 pessoas se autodeclaram em situação de rua em Manaus, conforme registros do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.
De acordo com Graça Prola, a maior parte dessa população é composta por homens.
“Nossa base oficial é o Cadastro Único. Hoje temos 1.762 pessoas autodeclaradas em situação de rua. A maioria é do sexo masculino. Também identificamos 43 idosos nessa condição, além de pessoas que vivem permanentemente nas ruas e outras que alternam entre a rua e a casa”, explicou.
A gestora ressaltou ainda que o município desenvolve ações voltadas ao atendimento dessa população, incluindo migrantes e indígenas, especialmente da etnia Warao, além de campanhas permanentes de combate ao trabalho infantil nas ruas da capital.
Novas políticas públicas
Além de contabilizar a população em situação de rua, o levantamento buscará compreender as condições de vida, a origem, os vínculos familiares, as necessidades e o perfil socioeconômico dessas pessoas.
A expectativa do IBGE é que os dados sirvam de base para a criação e o aperfeiçoamento de políticas públicas nas áreas de assistência social, saúde, moradia, emprego e inclusão social, permitindo que governos municipais, estaduais e federal atuem com mais eficiência diante de uma realidade que cresce em diversas cidades brasileiras.
Caso seja consolidado conforme o planejamento do instituto, o levantamento colocará o Brasil entre os primeiros países do mundo a realizar um censo nacional específico da população em situação de rua, transformando Manaus em uma das cidades que ajudarão a construir essa metodologia inédita.
