Dificilmente um trabalhador comum do Amazonas conseguiria tirar três dias de folga remunerada, decididos por ele mesmo, na semana que antecede uma eleição. Em Manaus, porém, os vereadores conseguem exatamente isso.
Como a Câmara chegou à folga sem decreto
A Câmara Municipal de Manaus (CMM) não terá sessão ordinária entre 28 e 30 de setembro, os três últimos dias úteis antes do primeiro turno das eleições gerais de 2026, marcado para domingo, 4 de outubro. Não houve decreto de recesso formal. O resultado veio por um caminho mais discreto: três sessões extraordinárias compensatórias, realizadas nos dias 14, 21 e 23 de setembro, anteciparam cada sessão prevista para a última semana antes da votação.
Em pouco mais de três semanas, seis sessões ordinárias deixaram de ocorrer nas datas originalmente previstas, sempre com os próprios vereadores votando a própria pauta para reorganizar o próprio calendário.
O detalhe que chama atenção é o momento escolhido: a folga de três dias caiu exatamente na reta final da campanha eleitoral, quando a agenda política da cidade está mais movimentada e a atenção pública, mais concentrada.
Nota oficial foi contrariada
Em 1º de setembro, durante sessão de plenário, o vereador Rodrigo Guedes (Progressistas) criticou a antecipação da sessão de 9 de setembro e questionou a redução da semana de trabalho.
Procurada, a CMM informou, em nota, que a sessão ordinária de terça-feira, dia 8, “permanece mantida, até o momento, conforme o calendário das atividades legislativas”. No dia seguinte, porém, essa mesma sessão de 8 de setembro também foi antecipada, por meio da sessão extraordinária de 2 de setembro.
Na ocasião, Guedes já alertava para o efeito do mecanismo. “A gente só tem três dias aqui na semana, três dias por três horas, três horas e meia, quatro horas no máximo. E aí, vai cancelar uma semana inteira de trabalho”, disse o vereador, ao questionar se a decisão de mudar o calendário partiu da Mesa Diretora ou do Colégio de Líderes.
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O trabalhador comum não tem essa escolha
Enquanto isso, o trabalhador comum de Manaus segue cumprindo sua rotina sem escolher quando descansar, enfrentando ônibus lotados, atrasados e precários para chegar ao emprego todos os dias, inclusive na semana da eleição. Não tem uma Mesa Diretora para votar a própria dispensa, nem a prerrogativa de compensar antecipadamente um dia de trabalho que prefere não cumprir.
No fim, o que separa as duas realidades não é apenas o cargo, mas o poder de decidir, sozinho, quando o próprio trabalho pode esperar.
