Há um curto-circuito lógico no vídeo publicado pela pré-candidata ao governo do Amazonas, Maria do Carmo Seffair, nesta segunda-feira, 13 de julho, sobre a reportagem da revista Veja que mapeou o avanço da centro-direita e da direita nas disputas estaduais de 2026. Em pouco mais de um minuto e meio, ela faz exatamente aquilo que diz condenar.
Logo nos primeiros segundos, a pré-candidata anuncia que “viramos notícia nacional” e atribui à Veja, chamada por ela de “a maior e mais respeitada revista do país”, a confirmação de que sua candidatura lidera a corrida pelo governo do Amazonas. Em seguida, muda de registro: fala em “incomodar”, em blogs e portais que “não conseguiram contestar a reportagem” e preferiram, segundo ela, “criar narrativas” para atingi-la. O recado é direto: “continuem, porque a cada dia os amazonenses sabem distinguir quem faz jornalismo de quem faz militância disfarçada de notícia.”
O fechamento reforça a moldura moral: “enquanto alguns vivem de narrativa, nós seguimos falando de soluções.”
A palavra “narrativa” aparece no vídeo sempre como sinônimo de manipulação, de discurso vazio, de má-fé alheia. É a acusação central contra os críticos. O problema é que a peça é, ela mesma, uma narrativa, construída sobre uma leitura imprecisa da fonte que a sustenta.
O que a reportagem da Veja diz, e o que ela não diz
A matéria da Veja é um panorama nacional sobre a fragilidade eleitoral do PT nos estados: descreve como o partido de Lula lidera em apenas seis das 27 disputas estaduais, como o PL de Flávio Bolsonaro desponta com sete pré-candidatos entre os líderes, e como a centro-direita, embora numerosa, é ideologicamente fragmentada e pragmática. Recupera ainda dados históricos, como a dificuldade crônica do PT em eleger governadores e a força adquirida pela direita após vencer 82% das prefeituras em 2024, e ouve cientistas políticos sobre as razões estruturais desse cenário.
Em nenhum trecho do texto o Amazonas é mencionado nominalmente. O estado aparece apenas como uma célula colorida dentro de um infográfico que classifica os 27 estados em três categorias, crítico a Lula, independente e aliado de Lula, sem indicar qual pesquisa embasou especificamente essa classificação no caso amazonense. É essa célula, e não uma análise editorial sobre a disputa local, que serve de base para a afirmação “a Veja fala do Amazonas e destaca um fato importante: nossa pré-candidatura aparece na liderança.”
Mais revelador ainda: a própria reportagem termina relativizando o peso do discurso ideológico nas eleições estaduais. Cita um cientista político para quem o voto para governador é “mais pragmático” que o voto para presidente, guiado por resultados de gestão, como segurança, emprego e saúde, e não por discursos e promessas. É uma ressalva que vai exatamente contra o uso que o vídeo faz da matéria: pega emprestada a autoridade da Veja para validar um discurso ideológico e de disputa de narrativa, ignorando o próprio alerta que a reportagem faz sobre os limites desse tipo de discurso.
Uma corrida mais disputada do que o vídeo admite
Pesquisas eleitorais amazonenses publicadas nas últimas semanas, todas registradas no TSE, mostram um cenário de empate técnico entre Maria do Carmo e o senador Omar Aziz, com resultados que se revezam a depender do instituto: Comunidados, Census Consultoria, Direto ao Ponto e Ipen/G6 colocaram Omar Aziz na liderança isolada em diferentes momentos; AtlasIntel e Instituto Veritá apontaram Maria do Carmo à frente. Nenhuma dessas pesquisas foi mencionada no vídeo. A “liderança” anunciada como fato consumado e nacionalmente validado é, na realidade, um dado contestado dentro do próprio ecossistema de pesquisas eleitorais do estado, o que aproxima as críticas atribuídas à “militância disfarçada” mais de checagem factual do que de ataque descabido.
O que há de mais interessante nesse episódio, do ponto de vista da análise de discurso político, não é a imprecisão factual em si, comum em comunicação de campanha, mas a estrutura argumentativa: a pré-candidata usa uma leitura seletiva e favorável de uma reportagem nacional para construir uma narrativa de vitória, e simultaneamente rotula qualquer leitura divergente como “narrativa” ilegítima. É um mecanismo de dupla régua: a própria interpretação é apresentada como fato objetivo e definitivo (“o Brasil inteiro sabe disso”); a interpretação alheia é apresentada como má-fé organizada.
Essa inversão, atacar no adversário exatamente o comportamento que se está praticando, é conhecida na literatura sobre comunicação política como projeção retórica ou acusação especular: desqualificar preventivamente o adversário por um vício do qual o próprio emissor pode ser acusado, blindando-se contra a crítica antes mesmo que ela seja formulada. Quando reforçada pelo apelo à autoridade de um veículo de imprensa, com seleção apenas da parte da reportagem que interessa e omissão da parte que a contradiz, essa estratégia deixa de ser apenas uma imprecisão pontual e passa a configurar um padrão discursivo: transformar uma fonte jornalística em escudo retórico, ao mesmo tempo em que se nega esse mesmo direito a quem discorda.
Confira a matéria na íntegra aqui.
Assista ao vídeo:
