Um slogan é um elemento importante para uma campanha eleitoral vitoriosa. Em poucas palavras, ele procura resumir uma candidatura, fixar uma mensagem e criar uma associação entre o nome do candidato e um determinada ideia.
Especialistas afirmam que o slogan não substitui propostas nem garante votos, mas ajuda a construir a narrativa que uma campanha pretende levar ao eleitor.
Na disputa pelo Governo do Amazonas em 2026, as frases símbolos das seis campanhas majoritárias já registradas já foram divulgadas e revelam diferentes maneiras de interpretar o momento atual e projetar o futuro do Estado.
David Almeida: a promessa de fazer o Amazonas prosperar
O ex-prefeito de Manaus David Almeida, da coligação Pra Cima Amazonas (Avante, PDT, Agir, Federação Renovação Solidária e Democracia Cristã), registrou no plano de governo “Energia e coragem para o Amazonas prosperar”, uma frase construída sobre ação.
“Energia” transmite disposição. “Coragem” acrescenta a ideia de enfrentamento. E “prosperar” estabelece o resultado pretendido.
A escolha de “prosperar” é relevante porque permite uma interpretação ampla. A palavra pode ser associada a emprego, renda, infraestrutura, desenvolvimento econômico, serviços públicos ou oportunidades, sem definir previamente um único campo de atuação.
Ao mesmo tempo, as duas primeiras palavras são abstratas. O eleitor precisa associar “energia” e “coragem” a realizações concretas para que a mensagem ganhe conteúdo político.
Daí David Almeida enfatizar, em entrevistas, sabatinas e no debate da Band, os feitos de sua gestão à frente da Prefeitura de Manaus, sobretudo em educação e saúde, área da qual tirou o nome da candidata a vice, a médica Shadia Fraxe.
Gilberto Vasconcelos: o sistema como adversário
O candidato do PSTU, o professor Gilberto Vasconcelos, registrou no plano de governo a frase “Para romper com as engrenagens do sistema, uma alternativa socialista e revolucionária para o Amazonas”.
A frase não apresenta, inicialmente, um resultado como prosperidade ou desenvolvimento. Ela apresenta um obstáculo, as “engrenagens do sistema”. É uma construção típica de uma candidatura que procura estabelecer uma fronteira entre quem está na disputa e aquilo que pretende combater.
O verbo “romper” é o núcleo da mensagem: não se trata de corrigir, aperfeiçoar ou continuar, mas de interromper uma estrutura considerada inadequada.
O slogan, portanto, transforma a eleição em uma escolha sobre o funcionamento do sistema político e econômico. Sua força comunicacional está justamente na definição de um conflito.
A dificuldade é que “sistema” também é uma expressão ampla. Para ganhar força eleitoral, a campanha precisa explicar ao eleitor quais são essas engrenagens, quem as representa e o que pretende colocar no lugar delas.
Isael Munduruku: identidade, justiça e força
A frase símbolo da candidatura de Isael Munduruku, da Federação Psol-Rede Sustentabilidade, é “Amazonas vivo, justo e forte” e reúne três conceitos.
“Vivo” aproxima a mensagem da própria identidade amazônica e pode estabelecer conexão com questões ambientais e territoriais dos povos originários, massacrados ao longo da colonização, mas ainda de pé e lutando.
“Justo” desloca a narrativa para a desigualdade e os direitos sociais, posição à qual eles e os caboclos ribeirinhos foram relegados ao longo da história. “Forte” acrescenta uma dimensão de desenvolvimento e capacidade política.
É uma fórmula que tenta reunir diferentes agendas em uma única frase. A vantagem é a amplitude: o slogan permite que a candidatura dialogue com temas ambientais, sociais e econômicos.
A consequência dessa amplitude, porém, é a ausência de uma prioridade evidente. O eleitor sabe quais valores são apresentados, mas precisa recorrer às propostas da campanha para saber qual deles ocupa o centro do projeto.
Omar Aziz: da retomada à prosperidade
O senador Omar Aziz, que lidera a coligação Força Amazonas (PSD, MDB, Republicanos e Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e Rede), trabalha desde o ano passado a frase “O Amazonas Forte de Novo”, que carrega em si uma ideia de passado.
A palavra decisiva é “novo”. Ela pressupõe uma condição anterior de força e sugere que essa condição foi perdida e precisa ser recuperada.
O slogan transforma a eleição em uma narrativa de retomada. A mensagem não é apenas a de construir algo novo, mas a de recuperar uma condição que, na visão da candidatura, já existiu no governo dele e do principal aliado, o senador Eduardo Braga, governador entre 2003 e 2010 e que tinha Omar Aziz como vice.
A frase ganhou, portanto, uma dimensão que ultrapassa a publicidade eleitoral. Ela passou a identificar um projeto político liderado por ambos, Omar Aziz no Amazonas e Eduardo Braga reeleito para o Senado.
Há, contudo, uma mudança importante na comunicação nesta fase do processo eleitoral. A candidatura também passou a trabalhar com a ideia de prosperidade e desenvolvimento em sua apresentação pública.
O plano estratégico divulgado pelo candidato organiza propostas para áreas como saúde, assistência social e segurança, e mantém a narrativa de reconstrução e fortalecimento do Estado.
A mudança de ênfase altera o tempo verbal da campanha. “Forte de novo” olha para trás para justificar a retomada. “Prosperidade” olha para frente para apresentar um objetivo.
Roberto Cidade: o futuro como continuidade
A frase escolhida pelo governador Roberto Cidade, que lidera a coligação União pelo Amazonas (Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, além de PSB e Podemos), é “O Amazonas do futuro já começou” e trabalha com uma lógica diferente das apresentadas até agora.
O futuro, nesse caso, não é apresentado como algo distante. A frase afirma que ele já começou e faz referência tanto à gestão de Cidade quanto à do principal aliado dele, o ex-governador Wilson Lima (União Brasil). Nesse sentido, a candidatura e as opções comunicacionais de Cidade o aproximam do principal adversário dele, o senador Omar Aziz.
A escolha de Cidade é particularmente significativa para uma candidatura que disputa a eleição tendo estado no governo por tão pouco tempo, já que assumiu em 4 de abril deste ano. A mensagem permite apresentar as ações do presente como parte de um projeto que pretende continuar no futuro.
A lógica é simples: se o futuro já começou, a eleição passa a ser também uma decisão sobre a continuidade desse processo, uma construção diferente daquela utilizada por quem fala em mudança ou retomada.
O slogan não pede ao eleitor que volte a uma condição anterior nem que rompa com o que existe. Ele procura associar o presente a uma promessa de futuro. A campanha, portanto, tenta transformar o governo atual em ponto de partida para um próximo ciclo.
Maria do Carmo e o sigilo
A candidata Maria do Carmo Seffair, da coligação Mudar é Urgente (PL e Novo), faz segredo do slogan que adotará ao longo da campanha e que só será revelado no próximo domingo, quando será dada a largada efetiva da campanha.
O segredo, aliás, é a alma do negócio para a candidata e o grupo dela, que só revelou o candidato a vice na última hora da convenção e ainda faz mistério sobre o programa de governo, apesar de tê-lo registrado no Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).
Portanto, não ter um slogan neste momento não permite concluir que a campanha não tenha uma estratégia de comunicação. Um slogan pode ainda estar em construção, ser utilizado apenas em determinados materiais ou não ter sido divulgado publicamente.
Do ponto de vista da comunicação eleitoral, porém, existe uma diferença: enquanto outras candidaturas procuram condensar sua mensagem em uma frase, a ausência de uma expressão-síntese deixa a identificação da campanha mais dependente de outros elementos, como nome, imagem, discursos, propostas e posicionamentos.
É aí que entra a postura da candidata, que em entrevistas, sabatinas e no debate da Band bateu na tecla de que sua candidatura veio para superar a “velha política” simbolizada pelos adversários principais, David Almeida, Omar Aziz e Roberto Cidade.
Assim, Maria do Carmo se coloca como a única capaz de se apresentar como o “novo” da política, além de enfatizar a postura de única candidata do espectro político de direita, com o apoio de toda a família do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os slogans tentam responder o futuro do administração do vencedor
Quando os slogans são colocados lado a lado, surge um elemento comum. O de que quase todos tentam responder ao que fazer com o Amazonas a partir de 2026.
David Almeida fala em prosperar. Gilberto Vasconcelos fala em romper. Isael Munduruku fala em um Amazonas vivo, justo e forte. Omar Aziz fala em recuperar a força. Roberto Cidade afirma que o futuro já começou. Maria do Carmo, sem um slogan, fala em superar a velha política.
No fim, os slogans contam histórias diferentes sobre o mesmo Estado. Um diz que é preciso prosperar. Outro, romper. Outro, ser vivo, justo e forte. Outro, voltar a ser forte. E outro afirma que o futuro já começou.
É nessa disputa de narrativas que o slogan cumpre sua principal função eleitoral: não explicar todo um programa de governo, mas oferecer ao eleitor uma frase curta capaz de representar a história que cada candidatura quer contar sobre o Amazonas.
