Ouça a Rádio 92,3

Assista a TV 8.2

Ouça a Rádio 92,3

Assista a TV 8.2

Após abordagem policial em terreiro, centros religiosos são orientados como agir: advogada comenta

Após o caso da abordagem policial em terreiro de Manaus ter gerado indignação nas redes sociais por supostos crimes de intolerância religiosa e abuso de poder pelos agentes da Polícia Militar do Amazonas, começaram a circular nas internet orientações legais para centros religiosos que por acaso venham a sofrer abordagens semelhantes.

Por exemplo, perfis como balaiodeoxummanaus e flortynave começaram a compartilhar a uma cartilha como carrossel no Instagram intitulada “Racismo religioso por agentes do estado: Como agir?”. O documento é baseado no Guia de Orientação para Denúncias de Racismo Religioso, criado pelo Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, que pode ser consultado aqui.


Leia mais:

Ação da PM em terreiro pode ferir liberdade religiosa, aponta advogada

Campanha “Eleições Laicas” mira propaganda eleitoral irregular em igrejas


A Onda Digital conversou com a advogada e conselheira da OAB Amazonas, Samia Furtado, sobre a segurança legal desse documento e como líderes e praticantes de religiões devem proceder para evitar constrangimentos e abuso de poder por parte de agentes do Estado.

“O material possui mérito por orientar a população sobre a proteção da liberdade religiosa e a preservação de provas. Do ponto de vista jurídico, entretanto, algumas afirmações merecem maior precisão”, disse Samia, que comentou slide por slide da postagem.

Dra. Samia Furtado (Foto: Onda Digital)

1. Sobre a caracterização como racismo religioso (slide 2)

A referência à Lei nº 14.532/2023 está correta ao afirmar que atos de discriminação contra manifestações religiosas podem configurar crime de racismo. Entretanto, no caso concreto, não é possível afirmar de imediato que houve racismo religioso. Isso dependerá da apuração dos fatos, do contexto e da demonstração de que a atuação foi motivada por discriminação em razão da religião.

Eu diria:

“Há indícios que justificam investigação sob essa perspectiva, mas a tipificação penal dependerá da apuração pelas autoridades competentes.”

2. Sobre gravar a atuação policial (slide 3)

Está correto. A jurisprudência tem admitido a gravação de agentes públicos no exercício da função, desde que não haja interferência na ação policial nem violação de direitos de terceiros.

Acrescentaria apenas: “A gravação deve ser feita sem obstruir a atuação policial e preservando a segurança de todos os envolvidos.”

3. Sobre identificar policiais e testemunhas

Perfeitamente adequado. Inclusive é recomendável anotar:

* nome;
* matrícula funcional (quando visível);
* número da viatura;
* horário;
* local exato;
* eventual número do boletim de ocorrência.

4. Sobre onde denunciar (slide 4)

Aqui eu faria uma ressalva. O post afirma: “Não recorra aos canais comuns da própria PM.” Eu retiraria essa orientação, pois juridicamente ela não é a mais adequada.

A Corregedoria da PM é justamente um dos órgãos competentes para apurar desvios funcionais. Além dela, é recomendável também comunicar:

* Ministério Público;
* Ouvidoria;
* Delegacia competente;
* Defensoria Pública, quando necessário.

Ou seja, eu substituiria por:

“Além da Corregedoria da PM, recomenda-se também comunicar o Ministério Público e outros órgãos de controle, permitindo apuração simultânea.”

5. Sobre preservar a imagem das vítimas (slide 5)

A orientação é boa. Apenas faria uma pequena correção técnica. Não é propriamente o Código de Processo Penal que garante essa proteção.

O fundamento decorre principalmente da:

* Constituição Federal (art. 5º, X);
* Lei Geral de Proteção de Dados (quando aplicável);
* direitos da personalidade previstos no Código Civil.

6. Sobre Disque 100 e Fala.BR (slide 6)

Correto, são canais válidos. Acrescentaria apenas que:

“Esses canais não substituem a notícia-crime perante a autoridade policial ou o Ministério Público, mas funcionam como importantes instrumentos de controle e encaminhamento.”

Por fim, a advogada conclui:

“Em um Estado Democrático de Direito, a defesa da liberdade religiosa deve caminhar ao lado do respeito ao devido processo legal e à apuração imparcial dos fatos”.

Entenda o caso

Os policiais militares que apreenderam instrumentos religiosos no terreiro Mina Jejê-Nagô Nossa Senhora da Conceição, na zona Norte de Manaus, foram afastados do serviço enquanto transcorrem as investigações sobre o incidente. Um inquérito foi instaurado pela PMAM para apurar a conduta dos dos agentes.

O caso ocorreu na noite de sábado (27/6), durante os festejos de Dom João e do Turco Jatuarana, em um terreiro localizado no bairro Cidade Nova I, zona Norte de Manaus. Após reclamações de vizinhos sobre o barulho, uma guarnição da PMAM entrou no local e apreendeu instrumentos utilizados nos rituais religiosos, entre eles tambores.

Representantes do centro religioso afirmaram que os policiais não apresentaram mandado judicial para justificar a apreensão, e vídeos da ocorrência passaram a circular nas redes sociais, gerando debates sobre possível intolerância religiosa e abuso de autoridade.

- Publicidade -[adrotate group="7"]

Após o caso da abordagem policial em terreiro de Manaus ter gerado indignação nas redes sociais por supostos crimes de intolerância religiosa e abuso de poder pelos agentes da Polícia Militar do Amazonas, começaram a circular nas internet orientações legais para centros religiosos que por acaso venham a sofrer abordagens semelhantes.

Por exemplo, perfis como balaiodeoxummanaus e flortynave começaram a compartilhar a uma cartilha como carrossel no Instagram intitulada “Racismo religioso por agentes do estado: Como agir?”. O documento é baseado no Guia de Orientação para Denúncias de Racismo Religioso, criado pelo Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, que pode ser consultado aqui.


Leia mais:

Ação da PM em terreiro pode ferir liberdade religiosa, aponta advogada

Campanha “Eleições Laicas” mira propaganda eleitoral irregular em igrejas


A Onda Digital conversou com a advogada e conselheira da OAB Amazonas, Samia Furtado, sobre a segurança legal desse documento e como líderes e praticantes de religiões devem proceder para evitar constrangimentos e abuso de poder por parte de agentes do Estado.

“O material possui mérito por orientar a população sobre a proteção da liberdade religiosa e a preservação de provas. Do ponto de vista jurídico, entretanto, algumas afirmações merecem maior precisão”, disse Samia, que comentou slide por slide da postagem.

Dra. Samia Furtado (Foto: Onda Digital)

1. Sobre a caracterização como racismo religioso (slide 2)

A referência à Lei nº 14.532/2023 está correta ao afirmar que atos de discriminação contra manifestações religiosas podem configurar crime de racismo. Entretanto, no caso concreto, não é possível afirmar de imediato que houve racismo religioso. Isso dependerá da apuração dos fatos, do contexto e da demonstração de que a atuação foi motivada por discriminação em razão da religião.

Eu diria:

“Há indícios que justificam investigação sob essa perspectiva, mas a tipificação penal dependerá da apuração pelas autoridades competentes.”

2. Sobre gravar a atuação policial (slide 3)

Está correto. A jurisprudência tem admitido a gravação de agentes públicos no exercício da função, desde que não haja interferência na ação policial nem violação de direitos de terceiros.

Acrescentaria apenas: “A gravação deve ser feita sem obstruir a atuação policial e preservando a segurança de todos os envolvidos.”

3. Sobre identificar policiais e testemunhas

Perfeitamente adequado. Inclusive é recomendável anotar:

* nome;
* matrícula funcional (quando visível);
* número da viatura;
* horário;
* local exato;
* eventual número do boletim de ocorrência.

4. Sobre onde denunciar (slide 4)

Aqui eu faria uma ressalva. O post afirma: “Não recorra aos canais comuns da própria PM.” Eu retiraria essa orientação, pois juridicamente ela não é a mais adequada.

A Corregedoria da PM é justamente um dos órgãos competentes para apurar desvios funcionais. Além dela, é recomendável também comunicar:

* Ministério Público;
* Ouvidoria;
* Delegacia competente;
* Defensoria Pública, quando necessário.

Ou seja, eu substituiria por:

“Além da Corregedoria da PM, recomenda-se também comunicar o Ministério Público e outros órgãos de controle, permitindo apuração simultânea.”

5. Sobre preservar a imagem das vítimas (slide 5)

A orientação é boa. Apenas faria uma pequena correção técnica. Não é propriamente o Código de Processo Penal que garante essa proteção.

O fundamento decorre principalmente da:

* Constituição Federal (art. 5º, X);
* Lei Geral de Proteção de Dados (quando aplicável);
* direitos da personalidade previstos no Código Civil.

6. Sobre Disque 100 e Fala.BR (slide 6)

Correto, são canais válidos. Acrescentaria apenas que:

“Esses canais não substituem a notícia-crime perante a autoridade policial ou o Ministério Público, mas funcionam como importantes instrumentos de controle e encaminhamento.”

Por fim, a advogada conclui:

“Em um Estado Democrático de Direito, a defesa da liberdade religiosa deve caminhar ao lado do respeito ao devido processo legal e à apuração imparcial dos fatos”.

Entenda o caso

Os policiais militares que apreenderam instrumentos religiosos no terreiro Mina Jejê-Nagô Nossa Senhora da Conceição, na zona Norte de Manaus, foram afastados do serviço enquanto transcorrem as investigações sobre o incidente. Um inquérito foi instaurado pela PMAM para apurar a conduta dos dos agentes.

O caso ocorreu na noite de sábado (27/6), durante os festejos de Dom João e do Turco Jatuarana, em um terreiro localizado no bairro Cidade Nova I, zona Norte de Manaus. Após reclamações de vizinhos sobre o barulho, uma guarnição da PMAM entrou no local e apreendeu instrumentos utilizados nos rituais religiosos, entre eles tambores.

Representantes do centro religioso afirmaram que os policiais não apresentaram mandado judicial para justificar a apreensão, e vídeos da ocorrência passaram a circular nas redes sociais, gerando debates sobre possível intolerância religiosa e abuso de autoridade.

- Publicidade -[adrotate group="9"]
Ivanildo Pereira
Ivanildo Pereira
Repórter de política na Rede Onda Digital, jornalista formado pela Faculdade Martha Falcão Wyden. Política, economia e artes são seus maiores interesses.

Mais lidas

Aleam aprova mudança na bandeira do Amazonas; veja o que muda

A Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) aprovou, nesta quarta-feira (1º), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) encaminhada pelo Governo do Estado que altera...

“Fui infectada com HIV de propósito”: Número de mortes por Aids diminui no AM, mas estigma continua

Embora infecção pelo HIV não signifique mais uma sentença de morte, doença ainda carrega estigma social grande
- Publicidade - [adrotate group="17"]

Equipamento torna transfusões de sangue mais seguras no Amazonas

O Amazonas passou a contar com uma tecnologia considerada um avanço para a segurança das transfusões de sangue. A Fundação Hospitalar de Hematologia e...

Especialistas alertam: redes de proteção podem evitar mortes de crianças em apartamentos

A morte de uma criança de 11 anos após cair do quinto andar de um prédio, nesta terça-feira (30/6), em Manaus, reacendeu o debate...
- Publicidade - [adrotate group="18"]

Projeto abre caminho para queda no preço dos combustíveis no Amazonas

A aprovação de um projeto para implantação de uma refinaria no Amazonas reacendeu a expectativa de redução no preço dos combustíveis no estado, que...

Manaus sedia fórum nacional sobre ciência e inovação

Evento consolida Manaus como um dos polos de inovação no momento dentro do país
- Publicidade - [adrotate group="19"]
- Publicidade - [adrotate group="1"]
Leia também

Aleam aprova mudança na bandeira do Amazonas; veja o que muda

A Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) aprovou, nesta quarta-feira (1º), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) encaminhada pelo Governo do Estado que altera...

“Fui infectada com HIV de propósito”: Número de mortes por Aids diminui no AM, mas estigma continua

Embora infecção pelo HIV não signifique mais uma sentença de morte, doença ainda carrega estigma social grande

Equipamento torna transfusões de sangue mais seguras no Amazonas

O Amazonas passou a contar com uma tecnologia considerada um avanço para a segurança das transfusões de sangue. A Fundação Hospitalar de Hematologia e...

Especialistas alertam: redes de proteção podem evitar mortes de crianças em apartamentos

A morte de uma criança de 11 anos após cair do quinto andar de um prédio, nesta terça-feira (30/6), em Manaus, reacendeu o debate...

Projeto abre caminho para queda no preço dos combustíveis no Amazonas

A aprovação de um projeto para implantação de uma refinaria no Amazonas reacendeu a expectativa de redução no preço dos combustíveis no estado, que...

Manaus sedia fórum nacional sobre ciência e inovação

Evento consolida Manaus como um dos polos de inovação no momento dentro do país
- Publicidade - [adrotate group="21"]
- Publicidade - [adrotate group="23"]