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Casa própria ou liberdade: por que jovens estão mudando jeito de construir o futuro?

Durante décadas, conquistar a casa própria foi considerado um dos maiores símbolos de estabilidade financeira e realização pessoal. Hoje, porém, essa lógica já não é tão absoluta entre os jovens. Enquanto alguns continuam sonhando em comprar um imóvel, outros preferem morar de aluguel ou permanecer na casa dos pais para investir em viagens, estudos, experiências e aplicações financeiras.

A mudança reflete tanto o encarecimento do mercado imobiliário quanto uma transformação no modo como as novas gerações enxergam sucesso, patrimônio e qualidade de vida.

Em Manaus, essa discussão acontece em um momento de forte valorização do mercado imobiliário. Segundo o Índice FipeZAP Residencial, o preço médio do metro quadrado chegou a R$ 7.745 em junho de 2026, acumulando alta de 9,85% nos últimos 12 meses. Há dez anos, o valor girava entre R$ 4.300 e R$ 4.500 por metro quadrado.

(Foto: Reprodução / Índice FipeZap / Venda Residencial junho de 2026)

Ao mesmo tempo, o aluguel se consolidou como realidade para uma parcela crescente da população. Dados do IBGE mostram que mais de 26% dos domicílios de Manaus são alugados, o equivalente a mais de 164 mil imóveis, onde vivem cerca de meio milhão de pessoas.

Apesar desse cenário, o desejo pela casa própria permanece forte. Levantamento da Brain Inteligência Estratégica, em parceria com a Abrainc, feito no 2º trimestre de 2025, aponta que 57% da Geração Z pretendem comprar um imóvel, índice superior à média nacional de 49%. O desafio está em transformar esse desejo em realidade diante dos juros elevados, da necessidade de entrada e das exigências para obtenção de crédito.

(Foto: Reprodução / Brain Inteligência Estratégica / Intenção de compra de imóveis 2º trimestre de 2025)

Entre o sonho e a realidade

Carol Vasco, de 28 anos, conseguiu realizar o sonho da casa própria há cerca de um mês, mas afirma que a decisão só amadureceu depois do nascimento da filha.

“Quando ela nasceu, uma chave virou na minha cabeça. Passei a pesquisar sobre financiamento e entendi que precisava construir um lar para minha família.”

Carol ao lado da filha em seu primeiro imóvel (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Ela conta que recebeu mais de R$ 20 mil em subsídio pelo programa Minha Casa, Minha Vida, mas alerta que o financiamento envolve muito mais custos do que a maioria imagina.

“Você paga entrada, cartório, juros de obra… São muitos gastos que muita gente não conhece antes de comprar,” relata.

Mesmo assim, diz que nunca pensou em desistir.

“Não existe sensação melhor do que abrir a porta do apartamento e pensar: tudo isso aqui é meu. É fruto do meu trabalho,”

(Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

História semelhante vive Mateko Nakamura, de 26 anos, que financiou um apartamento há cerca de três meses. Para ele, a decisão foi motivada principalmente pela ideia de construir patrimônio.

“É muito melhor pagar por um lugar que vai ser seu do que pagar para morar na casa de outra pessoa.”

O conselho para quem está em dúvida é direto.

“Financiamento é um pagamento a menos. Aluguel é um pagamento a mais. Quando o financiamento acaba, o imóvel é seu. O aluguel nunca acaba.”

Mateko Nakamura (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Experiências primeiro, patrimônio depois

Se para alguns a prioridade continua sendo adquirir um imóvel, outros preferem adiar essa decisão.

É o caso de Rhuan Luz, de 25 anos. Solteiro e morando com a família, ele diz que o momento é de investir em experiências pessoais.

“Viajar e estudar fazem mais sentido para mim agora. Quero conhecer novas culturas, crescer pessoal e academicamente”, justifica.

Ele afirma que pretende comprar um imóvel futuramente, mas considera que o alto custo de vida e o mercado imobiliário influenciam diretamente essa escolha. “Hoje minha decisão é baseada tanto no meu estilo de vida quanto no custo dos imóveis.”

Rhuan Luz (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Para Alexsandro Filho, de 23 anos, a prioridade também está longe da casa própria. “Hoje prefiro investir em conhecimento e experiências.”

Embora acredite que comprar um imóvel seja importante em outra fase da vida, ele considera que isso faz mais sentido depois dos 30 anos ou quando houver uma família constituída.

“Viajar amplia perspectivas. Isso é importante para o crescimento.”

Alexsandro Filho (Foto: aquivo pessoal / Rede Onda Digital)

Alexsandro Filho (Foto: aquivo pessoal / Rede Onda Digital)

Uma nova definição de sucesso

Para o antropólogo Raimundo da Silva, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a transformação vai além da economia e revela uma mudança cultural profunda. “Durante muito tempo, a casa própria era o principal símbolo de sucesso. Hoje isso mudou.”

Segundo ele, fatores como as crises econômicas das últimas décadas, a instabilidade do mercado de trabalho e as mudanças na estrutura familiar fizeram os jovens redefinirem prioridades.

“Muitos não têm como projeto imediato constituir uma família. Isso reduz a urgência pela compra de um imóvel”, explica.

Ao mesmo tempo, a cultura digital ampliou horizontes: “O acesso às redes sociais e às experiências de outras pessoas desperta o desejo de conhecer novos lugares, estudar, viajar e viver diferentes realidades.”

Para o pesquisador, essa geração constrói o conceito de sucesso de forma diferente das anteriores.

“O vencer na vida deixou de estar associado apenas ao patrimônio. Hoje passa também por liberdade, mobilidade, conhecimento e realização pessoal.”

Mesmo assim, ele acredita que o desejo pela casa própria não desapareceu.“É uma decisão que foi postergada. Muitos jovens ainda querem ter um imóvel, mas entendem que existem outras prioridades antes disso.”

Raimundo Nonato da Silva, professor do Departamento de Antropologia da UFAM, coordenador do Laboratório de Estudo do Comportamento e Racionalidade (LECORP) (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Aluguel também pode ser uma estratégia financeira

Na visão do gestor financeiro Adriano de Souza, optar pelo aluguel nem sempre significa falta de planejamento. Em muitos casos, pode representar uma estratégia consciente.

“Se o projeto de vida envolve estudar, viajar, investir em si mesmo ou construir patrimônio por meio de aplicações financeiras, faz sentido adiar a compra do imóvel.”

Segundo ele, o atual cenário econômico tornou os investimentos financeiros mais atrativos.

“Hoje existem aplicações oferecendo retornos significativos. Dependendo da situação, manter o dinheiro investido e morar de aluguel pode ser mais vantajoso do que assumir um financiamento.”

O especialista afirma que atende empresários que possuem patrimônio milionário investido, vivem de aluguel e não pretendem comprar imóveis no momento.

“Eles preferem manter o capital rendendo e preservar mobilidade para mudar de cidade ou aproveitar novas oportunidades.”

Ainda assim, ele ressalta que não existe uma resposta única.

“Cada decisão depende do projeto de vida. Não existe escolha certa para todo mundo.”

Gestor financeiro Adriano de Souza, consultor e especialista em financas e investimentos (Foto: arquivo pessoal / Rede Onda Digital)

O sonho não acabou, mas foi adiado

Na avaliação do economista Ailson Rezende, o sonho da casa própria continua existindo, mas deixou de ocupar o primeiro lugar entre as prioridades da juventude.

“O sonho da casa própria foi apenas adiado. Culturalmente, o brasileiro continua querendo ter um imóvel, mas hoje muitos jovens preferem aproveitar a vida antes de assumir um compromisso de 35 anos”, pontua.

Ele explica que o aumento do preço dos imóveis e dos juros pesa na decisão, mas não é o único fator.

“Os jovens priorizam formação, experiências, viagens e qualidade de vida antes de investir em patrimônio”, acrescenta.

Rezende observa que o financiamento imobiliário continua oferecendo condições melhores do que outras modalidades de crédito, mas admite que o compromisso de longo prazo gera receio.

“A aquisição do imóvel exige planejamento, porque representa uma obrigação financeira por décadas.”

Economista Ailson Rezende (Foto: arquivo pessoal / Rede Onda Digital)

Entre juros altos, imóveis cada vez mais valorizados e uma geração que valoriza experiências tanto quanto patrimônio, a relação dos jovens com a casa própria parece menos uma ruptura definitiva e mais uma mudança de timing. O sonho continua existindo, mas agora divide espaço com outros projetos de vida.

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Durante décadas, conquistar a casa própria foi considerado um dos maiores símbolos de estabilidade financeira e realização pessoal. Hoje, porém, essa lógica já não é tão absoluta entre os jovens. Enquanto alguns continuam sonhando em comprar um imóvel, outros preferem morar de aluguel ou permanecer na casa dos pais para investir em viagens, estudos, experiências e aplicações financeiras.

A mudança reflete tanto o encarecimento do mercado imobiliário quanto uma transformação no modo como as novas gerações enxergam sucesso, patrimônio e qualidade de vida.

Em Manaus, essa discussão acontece em um momento de forte valorização do mercado imobiliário. Segundo o Índice FipeZAP Residencial, o preço médio do metro quadrado chegou a R$ 7.745 em junho de 2026, acumulando alta de 9,85% nos últimos 12 meses. Há dez anos, o valor girava entre R$ 4.300 e R$ 4.500 por metro quadrado.

(Foto: Reprodução / Índice FipeZap / Venda Residencial junho de 2026)

Ao mesmo tempo, o aluguel se consolidou como realidade para uma parcela crescente da população. Dados do IBGE mostram que mais de 26% dos domicílios de Manaus são alugados, o equivalente a mais de 164 mil imóveis, onde vivem cerca de meio milhão de pessoas.

Apesar desse cenário, o desejo pela casa própria permanece forte. Levantamento da Brain Inteligência Estratégica, em parceria com a Abrainc, feito no 2º trimestre de 2025, aponta que 57% da Geração Z pretendem comprar um imóvel, índice superior à média nacional de 49%. O desafio está em transformar esse desejo em realidade diante dos juros elevados, da necessidade de entrada e das exigências para obtenção de crédito.

(Foto: Reprodução / Brain Inteligência Estratégica / Intenção de compra de imóveis 2º trimestre de 2025)

Entre o sonho e a realidade

Carol Vasco, de 28 anos, conseguiu realizar o sonho da casa própria há cerca de um mês, mas afirma que a decisão só amadureceu depois do nascimento da filha.

“Quando ela nasceu, uma chave virou na minha cabeça. Passei a pesquisar sobre financiamento e entendi que precisava construir um lar para minha família.”

Carol ao lado da filha em seu primeiro imóvel (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Ela conta que recebeu mais de R$ 20 mil em subsídio pelo programa Minha Casa, Minha Vida, mas alerta que o financiamento envolve muito mais custos do que a maioria imagina.

“Você paga entrada, cartório, juros de obra… São muitos gastos que muita gente não conhece antes de comprar,” relata.

Mesmo assim, diz que nunca pensou em desistir.

“Não existe sensação melhor do que abrir a porta do apartamento e pensar: tudo isso aqui é meu. É fruto do meu trabalho,”

(Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

História semelhante vive Mateko Nakamura, de 26 anos, que financiou um apartamento há cerca de três meses. Para ele, a decisão foi motivada principalmente pela ideia de construir patrimônio.

“É muito melhor pagar por um lugar que vai ser seu do que pagar para morar na casa de outra pessoa.”

O conselho para quem está em dúvida é direto.

“Financiamento é um pagamento a menos. Aluguel é um pagamento a mais. Quando o financiamento acaba, o imóvel é seu. O aluguel nunca acaba.”

Mateko Nakamura (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Experiências primeiro, patrimônio depois

Se para alguns a prioridade continua sendo adquirir um imóvel, outros preferem adiar essa decisão.

É o caso de Rhuan Luz, de 25 anos. Solteiro e morando com a família, ele diz que o momento é de investir em experiências pessoais.

“Viajar e estudar fazem mais sentido para mim agora. Quero conhecer novas culturas, crescer pessoal e academicamente”, justifica.

Ele afirma que pretende comprar um imóvel futuramente, mas considera que o alto custo de vida e o mercado imobiliário influenciam diretamente essa escolha. “Hoje minha decisão é baseada tanto no meu estilo de vida quanto no custo dos imóveis.”

Rhuan Luz (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Para Alexsandro Filho, de 23 anos, a prioridade também está longe da casa própria. “Hoje prefiro investir em conhecimento e experiências.”

Embora acredite que comprar um imóvel seja importante em outra fase da vida, ele considera que isso faz mais sentido depois dos 30 anos ou quando houver uma família constituída.

“Viajar amplia perspectivas. Isso é importante para o crescimento.”

Alexsandro Filho (Foto: aquivo pessoal / Rede Onda Digital)

Alexsandro Filho (Foto: aquivo pessoal / Rede Onda Digital)

Uma nova definição de sucesso

Para o antropólogo Raimundo da Silva, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a transformação vai além da economia e revela uma mudança cultural profunda. “Durante muito tempo, a casa própria era o principal símbolo de sucesso. Hoje isso mudou.”

Segundo ele, fatores como as crises econômicas das últimas décadas, a instabilidade do mercado de trabalho e as mudanças na estrutura familiar fizeram os jovens redefinirem prioridades.

“Muitos não têm como projeto imediato constituir uma família. Isso reduz a urgência pela compra de um imóvel”, explica.

Ao mesmo tempo, a cultura digital ampliou horizontes: “O acesso às redes sociais e às experiências de outras pessoas desperta o desejo de conhecer novos lugares, estudar, viajar e viver diferentes realidades.”

Para o pesquisador, essa geração constrói o conceito de sucesso de forma diferente das anteriores.

“O vencer na vida deixou de estar associado apenas ao patrimônio. Hoje passa também por liberdade, mobilidade, conhecimento e realização pessoal.”

Mesmo assim, ele acredita que o desejo pela casa própria não desapareceu.“É uma decisão que foi postergada. Muitos jovens ainda querem ter um imóvel, mas entendem que existem outras prioridades antes disso.”

Raimundo Nonato da Silva, professor do Departamento de Antropologia da UFAM, coordenador do Laboratório de Estudo do Comportamento e Racionalidade (LECORP) (Foto: Acervo pessoal / Rede Onda Digital)

Aluguel também pode ser uma estratégia financeira

Na visão do gestor financeiro Adriano de Souza, optar pelo aluguel nem sempre significa falta de planejamento. Em muitos casos, pode representar uma estratégia consciente.

“Se o projeto de vida envolve estudar, viajar, investir em si mesmo ou construir patrimônio por meio de aplicações financeiras, faz sentido adiar a compra do imóvel.”

Segundo ele, o atual cenário econômico tornou os investimentos financeiros mais atrativos.

“Hoje existem aplicações oferecendo retornos significativos. Dependendo da situação, manter o dinheiro investido e morar de aluguel pode ser mais vantajoso do que assumir um financiamento.”

O especialista afirma que atende empresários que possuem patrimônio milionário investido, vivem de aluguel e não pretendem comprar imóveis no momento.

“Eles preferem manter o capital rendendo e preservar mobilidade para mudar de cidade ou aproveitar novas oportunidades.”

Ainda assim, ele ressalta que não existe uma resposta única.

“Cada decisão depende do projeto de vida. Não existe escolha certa para todo mundo.”

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