Episódios de urgência para evacuar durante provas de corrida são mais comuns do que parecem. O assunto voltou a chamar atenção após a australiana Joanna Wietrzyk defecar durante uma competição de HYROX, em Pequim, na China, em setembro de 2026. A modalidade combina 8 quilômetros de corrida com oito estações de exercícios funcionais.
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Após o episódio, a organização anunciou novas regras para situações envolvendo fezes, urina, vômito ou sangue durante as provas.
Um caso brasileiro que viralizou nas redes sociais com mais de 1 milhão de visualizações foi o da fotógrafa e corredora Louany Naira, de 25 anos, de Teresina. Durante a Maratona do Rio de Janeiro, em junho deste ano, ela acabou defecando nas próprias roupas enquanto tentava bater seu recorde pessoal nos 42 quilômetros. Segundo Louany, ansiedade, hidratação, consumo de géis energéticos e o esforço físico intenso podem ter contribuído para o episódio.
“Eu tentei segurar por muito tempo, como faço normalmente nos treinos, mas comecei a sentir câimbras na barriga. Se eu parasse, perderia mais tempo e provavelmente não conseguiria alcançar meu objetivo”, contou à época.
A corredora, que disputava sua terceira maratona, afirmou que chegou à prova preparada para a meta e havia treinado o intestino para receber a quantidade de géis planejada. Ela chegou a parar uma vez para usar o banheiro, mas voltou a sentir necessidade durante o percurso. Apesar do constrangimento, Louany disse que não se sentiu julgada pelos outros corredores e, depois de concluir a prova, tomou banho, trocou de roupa e continuou acompanhando a programação do evento.
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Nutrition, intitulada “Gastrointestinal symptoms among recreational long distance runners in China: prevalence, severity, and contributing factors”, investigou 805 corredores recreacionais de longa distância na China.
O levantamento mostrou que 26,1% dos participantes relataram sintomas gastrointestinais durante as provas. Entre os mais frequentes estavam o inchaço (18,6%), a vontade urgente de defecar (17,8%) e a dor abdominal (16,5%). O estudo também encontrou uma relação entre a ocorrência desses sintomas e algumas estratégias de alimentação adotadas pelos corredores antes e durante as provas.
No Brasil, um estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Nutrição Esportiva avaliou 195 corredores de rua e apontou que 21% apresentavam sintomas gastrointestinais frequentes. Gases e flatulência estavam entre os problemas mais relatados. Os pesquisadores também encontraram associação entre os sintomas e fatores como descontrole alimentar e desconforto com suplementos energéticos.

Outro estudo brasileiro, publicado em 2025 na revista Nutrição Brasil, também identificou sintomas como refluxo, vômito, diarreia e flatulência entre corredores, além de associações com a alimentação antes da prova.
Os dados mostram que o intestino pode reagir ao esforço físico intenso. Mas por que isso acontece? E o que os corredores podem fazer para diminuir as chances de enfrentar uma emergência no meio da prova?
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Segundo a nutricionista Lorena Marques, a própria corrida pode estimular o intestino. O impacto repetitivo das passadas movimenta os órgãos e pode aumentar os movimentos intestinais. Além disso, durante o exercício intenso, o organismo direciona mais sangue para os músculos e o coração, reduzindo o fluxo destinado ao sistema digestivo.

A alimentação antes e durante a prova também pode influenciar. Géis de carboidrato muito concentrados, cafeína, refrigerantes e alguns alimentos crus podem aumentar o risco de desconforto intestinal em algumas pessoas.
Apesar de episódios de desconforto intestinal poderem ocorrer durante provas, Lorena alerta que alguns sinais exigem avaliação médica. “Esses episódios deixam de ser normais e exigem avaliação de um profissional de saúde quando se tornam frequentes, ocorrem mesmo em dias de repouso ou vêm acompanhados de sinais de alerta como: Sangue ou fezes pretas, Dores abdominais severas, tontura, desmaios, boca extremamente seca ou incapacidade de urinar, urina muito escura, febre alta, calafrios ou vômitos repetidos associados ao quadro”, disse.
Os dados mostram que problemas gastrointestinais podem fazer parte da experiência de alguns corredores, especialmente durante exercícios prolongados. No entanto, sintomas persistentes ou acompanhados de sinais de alerta não devem ser considerados normais e precisam ser investigados por um profissional de saúde.
