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O que é ser homem hoje? Pais e educadores tentam quebrar o ciclo da masculinidade tóxica

Comportamentos nocivos aprendidos na infância levam jovens a espaços virtuais violentos, mas movimentos no Brasil propõem novas formas de ser homem, mais afetivas, plurais e conscientes

Engole o choro!”, “homem não sente medo!”, “seja macho!”
Expressões como essas ainda ecoam na educação de muitos meninos e moldam os primeiros contatos com os papéis de gênero. Desde cedo, eles são empurrados para um modelo rígido de masculinidade que valoriza força, poder e insensibilidade — e pune qualquer traço de vulnerabilidade.

Com a adolescência, essa cobrança se intensifica. A ausência de espaços seguros para discutir sentimentos, dúvidas e inseguranças pode fazer com que muitos garotos busquem respostas na internet — onde, por vezes, encontram acolhimento em comunidades misóginas e violentas da chamada machosfera. Esse universo, em que o ódio contra mulheres se mistura com frustrações pessoais, foi retratado recentemente na série “Adolescência”, da Netflix, que reacendeu o debate sobre o que significa ser homem.

Mas há um movimento contrário crescendo no Brasil. Homens, pais, educadores e pesquisadores têm se mobilizado para oferecer outros caminhos possíveis, propondo modelos de masculinidade mais saudáveis, diversos e afetivos.


Leia mais:


Desconstruir para reconstruir

Um dos nomes à frente desse movimento é Guilherme Nascimento Valadares, criador do site Papo de Homem e diretor do Instituto PDH, voltado ao estudo de masculinidades, saúde mental, diversidade e inclusão.

Crescido em um ambiente tradicional, Guilherme se viu obrigado a encaixar-se no estereótipo do homem forte e dominante. Ao perceber que muitas dessas imposições também afetavam outros homens, fundou um espaço para diálogos sobre temas como emoções, relações e identidade masculina — dando origem ao PDH.

O instituto trabalha hoje com pesquisas, conteúdos educativos, treinamentos e, em breve, lançará o documentário “Meninos: Sonhando os Homens do Futuro”, feito em parceria com o Pacto Global da ONU. A produção é baseada em uma pesquisa nacional com adolescentes e pretende criar pontes entre pais, educadores e meninos sobre as dores e alegrias da masculinidade na juventude.

“Não queremos impor um novo modelo ideal de homem, mas mostrar que existem outras possibilidades. Ser homem também pode significar saber cuidar, acolher, ser responsável com os próprios sentimentos”, defende Guilherme.

O papel do pai: presença, afeto e exemplo

O psicanalista e criador do projeto Paizinho, Vírgula, Thiago Queiroz, compartilha da mesma visão. Pai de quatro filhos, ele defende que a transformação da masculinidade começa dentro de casa, com pais emocionalmente disponíveis, presentes e atentos.

“A partir do momento em que entendo o homem que quero ser, posso me tornar um pai mais sensível, que cuida — não apenas provê”, diz.

Segundo Queiroz, a falta de afeto paterno empurra meninos para referências externas — muitas vezes tóxicas. O contato contínuo, o diálogo aberto e o exemplo de que sentir também é coisa de homem são cruciais para quebrar esse ciclo.

Escola e redes de apoio: educação emocional como ferramenta

A escola também desempenha papel fundamental na formação da identidade masculina. Caio César, educador e consultor em diversidade de gênero, viu isso de perto. Quando lecionava, percebeu que os meninos estavam presos à lógica da performance e da repressão emocional. Ao mudar sua abordagem e se mostrar mais aberto ao afeto, as relações com os alunos também se transformaram.

Hoje, ele promove rodas de conversa e atua como consultor em projetos sobre masculinidade. “Meninos precisam de espaços onde possam se expressar sem medo. Onde possam aprender que é possível ser homem sem exercer violência”, afirma.

Outro exemplo é o educador Leonardo Oshiro, criador do Projeto Okara. Ele realiza encontros em que homens se reúnem para falar abertamente sobre sentimentos, inseguranças e identidade. O objetivo é levar esse tipo de escuta e conversa também às escolas, criando ambientes seguros para adolescentes.

Rompendo a “caixa dos homens”

Essas iniciativas têm algo em comum: o desejo de romper com o que o educador norte-americano Paul Kivel chamou de caixa dos homens — um conjunto de normas sociais que define o que é ser “homem de verdade”. Dentro da caixa, estão a força, o controle, a frieza. Fora dela, tudo aquilo que a sociedade tradicionalmente rejeita como masculino.

Mas, como lembra Guilherme Valadares, não se trata de substituir uma caixa por outra. “Não queremos trocar um modelo sufocante por outro. A proposta é ampliar o repertório, não reduzir”, diz.

Raça, classe, sexualidade, origem e idade também moldam as experiências masculinas. Homens negros, por exemplo, enfrentam desde cedo uma cobrança ainda mais intensa por posturas duras e viris. Já homens LGBTQIA+ vivem o desafio de romper com normas que nem sempre os representam.

Ser homem: um conceito em construção

A pergunta que atravessa todas essas experiências — “o que é ser homem?” — não tem mais uma única resposta. E talvez nunca tenha tido.

Para Guilherme, a resposta pode estar na capacidade de servir e cuidar, em vez de dominar e vencer. Para Caio César, o mais importante é reconhecer que cada trajetória é única, mas o diálogo coletivo pode apontar caminhos mais positivos e libertadores.

“Nós vamos errar, tropeçar, mas vale a pena tentar. Essa transformação é boa para todo mundo: para os homens, para as mulheres, para as crianças, para a sociedade como um todo”

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Engole o choro!”, “homem não sente medo!”, “seja macho!”
Expressões como essas ainda ecoam na educação de muitos meninos e moldam os primeiros contatos com os papéis de gênero. Desde cedo, eles são empurrados para um modelo rígido de masculinidade que valoriza força, poder e insensibilidade — e pune qualquer traço de vulnerabilidade.

Com a adolescência, essa cobrança se intensifica. A ausência de espaços seguros para discutir sentimentos, dúvidas e inseguranças pode fazer com que muitos garotos busquem respostas na internet — onde, por vezes, encontram acolhimento em comunidades misóginas e violentas da chamada machosfera. Esse universo, em que o ódio contra mulheres se mistura com frustrações pessoais, foi retratado recentemente na série “Adolescência”, da Netflix, que reacendeu o debate sobre o que significa ser homem.

Mas há um movimento contrário crescendo no Brasil. Homens, pais, educadores e pesquisadores têm se mobilizado para oferecer outros caminhos possíveis, propondo modelos de masculinidade mais saudáveis, diversos e afetivos.


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Desconstruir para reconstruir

Um dos nomes à frente desse movimento é Guilherme Nascimento Valadares, criador do site Papo de Homem e diretor do Instituto PDH, voltado ao estudo de masculinidades, saúde mental, diversidade e inclusão.

Crescido em um ambiente tradicional, Guilherme se viu obrigado a encaixar-se no estereótipo do homem forte e dominante. Ao perceber que muitas dessas imposições também afetavam outros homens, fundou um espaço para diálogos sobre temas como emoções, relações e identidade masculina — dando origem ao PDH.

O instituto trabalha hoje com pesquisas, conteúdos educativos, treinamentos e, em breve, lançará o documentário “Meninos: Sonhando os Homens do Futuro”, feito em parceria com o Pacto Global da ONU. A produção é baseada em uma pesquisa nacional com adolescentes e pretende criar pontes entre pais, educadores e meninos sobre as dores e alegrias da masculinidade na juventude.

“Não queremos impor um novo modelo ideal de homem, mas mostrar que existem outras possibilidades. Ser homem também pode significar saber cuidar, acolher, ser responsável com os próprios sentimentos”, defende Guilherme.

O papel do pai: presença, afeto e exemplo

O psicanalista e criador do projeto Paizinho, Vírgula, Thiago Queiroz, compartilha da mesma visão. Pai de quatro filhos, ele defende que a transformação da masculinidade começa dentro de casa, com pais emocionalmente disponíveis, presentes e atentos.

“A partir do momento em que entendo o homem que quero ser, posso me tornar um pai mais sensível, que cuida — não apenas provê”, diz.

Segundo Queiroz, a falta de afeto paterno empurra meninos para referências externas — muitas vezes tóxicas. O contato contínuo, o diálogo aberto e o exemplo de que sentir também é coisa de homem são cruciais para quebrar esse ciclo.

Escola e redes de apoio: educação emocional como ferramenta

A escola também desempenha papel fundamental na formação da identidade masculina. Caio César, educador e consultor em diversidade de gênero, viu isso de perto. Quando lecionava, percebeu que os meninos estavam presos à lógica da performance e da repressão emocional. Ao mudar sua abordagem e se mostrar mais aberto ao afeto, as relações com os alunos também se transformaram.

Hoje, ele promove rodas de conversa e atua como consultor em projetos sobre masculinidade. “Meninos precisam de espaços onde possam se expressar sem medo. Onde possam aprender que é possível ser homem sem exercer violência”, afirma.

Outro exemplo é o educador Leonardo Oshiro, criador do Projeto Okara. Ele realiza encontros em que homens se reúnem para falar abertamente sobre sentimentos, inseguranças e identidade. O objetivo é levar esse tipo de escuta e conversa também às escolas, criando ambientes seguros para adolescentes.

Rompendo a “caixa dos homens”

Essas iniciativas têm algo em comum: o desejo de romper com o que o educador norte-americano Paul Kivel chamou de caixa dos homens — um conjunto de normas sociais que define o que é ser “homem de verdade”. Dentro da caixa, estão a força, o controle, a frieza. Fora dela, tudo aquilo que a sociedade tradicionalmente rejeita como masculino.

Mas, como lembra Guilherme Valadares, não se trata de substituir uma caixa por outra. “Não queremos trocar um modelo sufocante por outro. A proposta é ampliar o repertório, não reduzir”, diz.

Raça, classe, sexualidade, origem e idade também moldam as experiências masculinas. Homens negros, por exemplo, enfrentam desde cedo uma cobrança ainda mais intensa por posturas duras e viris. Já homens LGBTQIA+ vivem o desafio de romper com normas que nem sempre os representam.

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A pergunta que atravessa todas essas experiências — “o que é ser homem?” — não tem mais uma única resposta. E talvez nunca tenha tido.

Para Guilherme, a resposta pode estar na capacidade de servir e cuidar, em vez de dominar e vencer. Para Caio César, o mais importante é reconhecer que cada trajetória é única, mas o diálogo coletivo pode apontar caminhos mais positivos e libertadores.

“Nós vamos errar, tropeçar, mas vale a pena tentar. Essa transformação é boa para todo mundo: para os homens, para as mulheres, para as crianças, para a sociedade como um todo”

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