Abrir o Instagram, o TikTok ou outra rede social e encontrar um conteúdo sexualizado no meio de vídeos de humor, música ou entretenimento pode ser uma experiência banal para muitos usuários. O problema ganha outra dimensão quando quem está do outro lado da tela é uma criança ou adolescente que não procurou por aquele material.
Foi o que aconteceu com o filho de 17 anos da pedagoga Francelyne Vieira. Ao acompanhar vídeos de humor com o filho, ela percebeu que o Instagram exibiu um anúncio de uma jovem dançando com roupas curtas, com uma chamada que direcionava para um grupo externo. Segundo Francelyne, o adolescente não havia buscado aquele conteúdo.
“É muito difícil acompanhar a rapidez como as coisas se transformam com a atual tecnologia que temos”, relata a mãe.
O caso chama atenção para uma questão cada vez mais presente nas redes sociais, a de até que ponto o usuário escolhe o que consome e até que ponto o próprio sistema de recomendação decide o que será colocado diante dele.
A questão é especialmente sensível entre crianças e adolescentes. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das pessoas de 9 a 17 anos eram usuárias de internet no período pesquisado. A pesquisa também aponta que 8% desse público relataram ter visto imagens ou vídeos de conteúdo sexual na internet nos 12 meses anteriores. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, o índice chega a 13%.
Entre a sensualidade e o conteúdo sexualizado
A reportagem trata como “soft porn” a zona de conteúdos sexualmente sugestivos que não necessariamente chegam à pornografia explícita, publicações que podem recorrer a poses, enquadramentos, roupas, movimentos, legendas ou áudios para produzir apelo sexual. O limite, porém, não é simples.
Para o analista de sistemas e especialista em cibersegurança Eduardo Mazzoni, existe uma área intermediária entre o que é claramente proibido e aquilo que permanece dentro das regras, mas apresenta forte conotação sexual.
Segundo ele, sistemas automatizados podem ter dificuldade para interpretar o contexto de um vídeo, já que um conteúdo pode não apresentar nudez explícita, mas combinar poses, roupas, movimentos, enquadramentos e linguagem que produzem apelo sexual.
“Não existe apenas um algoritmo”, explica Mazzoni. Segundo ele, diferentes áreas de plataformas como Feed, Reels e Explorar podem utilizar sistemas de recomendação diferentes, alimentados por sinais como curtidas, comentários, compartilhamentos, salvamentos, contas seguidas, pesquisas e, principalmente, tempo de visualização.
Isso significa que o usuário não precisa procurar um determinado tipo de conteúdo para começar a recebê-lo. Sistemas de recomendação também experimentam novas publicações para descobrir possíveis interesses, e uma pausa maior em um vídeo pode ser interpretada como sinal de atenção. A consequência é que o conteúdo pode chegar ao usuário antes mesmo de existir uma busca direta por ele.

O algoritmo pode reforçar o interesse
Mazzoni explica que, depois que um sistema identifica determinado comportamento como sinal de interesse, ele pode começar a testar conteúdos semelhantes, o que pode transformar uma exposição pontual em uma sequência de recomendações.
“Existe ainda o enorme volume de publicações e conteúdos produzidos deliberadamente próximos dos limites das regras”, afirma. Segundo o especialista, alguns criadores aprendem a adaptar a produção para reduzir o risco de remoção, o que pode envolver mudanças em enquadramentos, duração das cenas, palavras, emojis, legendas, thumbnails, poses ou movimentos.
Para Mazzoni, as plataformas têm capacidade tecnológica para identificar e limitar conteúdos sexualizados, inclusive para públicos menores, e o problema está na combinação entre personalização, moderação e proteção.
Ele defende que a inteligência artificial seja complementada por revisão humana, principalmente em situações envolvendo crianças e adolescentes, porque a interpretação do contexto pode escapar dos sistemas automatizados.
A própria Meta reconhece que nenhum sistema é perfeito. Em março de 2026, a empresa informou que as Contas de Adolescente do Instagram no Brasil passaram a utilizar, por padrão, configurações de conteúdo inspiradas na classificação indicativa para maiores de 13 anos, e que conteúdos sexualmente sugestivos já estão entre aqueles que devem ser ocultados ou não recomendados para adolescentes.
Em junho, a Meta também informou que as configurações 13+ e a opção mais restritiva “Conteúdo Limitado” haviam sido ampliadas para as Contas de Adolescente, e que a empresa testava mecanismos para evitar que determinados tipos de conteúdo aparecessem repetidamente no Feed, Reels e Explorar.
A reportagem procurou a Meta para saber como a empresa identifica conteúdos sexualizados, como evita que sejam recomendados a menores e quais medidas adota quando materiais inadequados passam pelos filtros. Até a publicação, a empresa não havia respondido.
Quando a exposição passa a fazer parte da formação
Para a psicopedagoga clínica e especialista em análise do comportamento aplicada Beatriz Lima, o problema não está apenas no conteúdo isolado, mas na repetição. Segundo ela, crianças e adolescentes ainda estão formando sua identidade, sua percepção sobre o próprio corpo e sua compreensão sobre relacionamentos e sexualidade, e a exposição repetitiva a conteúdos sexualizados pode fazer com que determinados comportamentos passem a ser percebidos como naturais ou esperados para aquela idade.
“As crianças aprendem muito por observação, por repetição, por modelagem”, afirma.
Lima diferencia educação sexual adequada à idade de sexualização. Enquanto a primeira envolve temas como proteção, limites, respeito e conhecimento do próprio corpo, a exposição recorrente a conteúdos erotizados pode antecipar estímulos para os quais a criança ainda não possui maturidade emocional e cognitiva.
Ela aponta que a repetição de corpos selecionados, filtros, edições e padrões de beleza nas redes pode contribuir para a comparação social e para uma percepção distorcida sobre o próprio corpo, levando o adolescente a pensar que precisa corresponder à aparência apresentada na tela para ser aceito, amado ou valorizado.
“A exposição constante participa da construção das ideias que elas formam sobre corpo, relacionamento, feminilidade, masculinidade, afeto e sexualidade”, afirma.
Os possíveis sinais de alerta, segundo a especialista, incluem preocupação repentina e excessiva com peso e aparência, comparação constante com influenciadores, comportamentos sexualizados, vergonha excessiva do próprio corpo, queda de autoestima, necessidade intensa de validação por meio de fotos e redes sociais, ansiedade, irritabilidade, isolamento, piora do sono e queda no rendimento escolar.
Ela ressalta, porém, que nenhum desses comportamentos, isoladamente, comprova a existência de um problema. O que merece atenção é a intensidade, a frequência e o prejuízo provocado na rotina.

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Pais enfrentam limite para acompanhar o que os filhos veem
Francelyne diz que acompanha as redes utilizadas pelo filho, mas reconhece que o controle é difícil. Segundo ela, o adolescente utiliza Instagram, YouTube e TikTok. Enquanto o YouTube costuma apresentar vídeos relacionados aos interesses que ele demonstra, ela afirma ter percebido episódios diferentes no Instagram.
O contato com o conteúdo sexualizado levou mãe e filho a conversarem sobre os possíveis efeitos desse material sobre a saúde mental. A experiência também revelou outro problema, o ritmo das mudanças tecnológicas.
“Até eu mesma não consigo supervisionar com eficiência as redes sociais”, afirma.
A percepção é semelhante à apontada por especialistas. Para Beatriz Lima, a resposta dos pais não deve começar por uma abordagem de punição ou constrangimento. Ela recomenda que a conversa seja feita com calma, buscando entender o que apareceu, como a criança chegou até o conteúdo, o que entendeu e como se sentiu.
Em vez de simplesmente proibir, a orientação é explicar, de acordo com a idade, que o que aparece na internet não representa necessariamente relacionamentos reais, e conversar sobre corpo, intimidade, consentimento, privacidade e manipulação de imagens.

O desafio não é apenas bloquear
A dificuldade é que nenhuma ferramenta consegue eliminar completamente a exposição. A Meta afirma que as Contas de Adolescente possuem filtros próprios para conteúdo inadequado, contas com histórico de publicação de material impróprio e recomendações em áreas como Feed, Reels e Explorar.
A empresa também oferece supervisão parental e ferramentas para que responsáveis acompanhem aspectos do uso das contas dos adolescentes, além de informar que vem investindo em tecnologias de verificação de idade para identificar adolescentes mesmo quando uma conta informa uma data de nascimento adulta.
No Brasil, a legislação também passou a exigir mecanismos de proteção mais amplos. O ECA Digital, estabelecido pela Lei nº 15.211/2025, prevê mecanismos de supervisão parental e determina que plataformas adotem medidas para restringir, dentro de suas capacidades técnicas, a exibição de determinados conteúdos a crianças e adolescentes, além de exigir aprimoramento contínuo da verificação de idade.
A Lei também proíbe a monetização e o impulsionamento de conteúdos que retratem crianças ou adolescentes de forma erotizada ou sexualmente sugestiva.
Para Mazzoni, entretanto, a tecnologia não pode ser a única camada de proteção. Na avaliação dele, a proteção precisa combinar inteligência artificial, moderação humana, legislação, fiscalização, educação digital e participação das famílias.
“Quando estivermos falando de crianças e adolescentes, se houver conflito entre aumentar o engajamento e preservar a segurança do menor, a segurança deve sempre prevalecer”, afirma.
Conteúdo sexualizado não fica apenas no feed
A exposição também pode ocorrer por mensagens e outros canais. Na TIC Kids Online Brasil 2025, 20% dos usuários de internet de 11 a 17 anos relataram ter recebido mensagens ou solicitações relacionadas a conteúdo sexual. Entre os usuários de 9 a 17 anos, a parcela que relatou ter ficado incomodada após contato com imagens ou vídeos de conteúdo sexual foi de 3%.
Os dados não permitem afirmar que todo contato ocorreu por recomendação algorítmica, nem que todo conteúdo era “soft porn”, mas ajudam a dimensionar que a exposição à sexualidade no ambiente digital faz parte da experiência de uma parcela dos menores brasileiros.
Além disso, a SaferNet Brasil registrou 49.336 denúncias anônimas relacionadas a abuso e exploração sexual infantil entre janeiro e julho de 2025, o equivalente a 64% das 76.997 denúncias recebidas pelo canal no período.
O dado trata de crimes muito mais graves do que a simples exposição a conteúdo sexualizado e, por isso, não deve ser apresentado como consequência direta do soft porn. Ele serve para contextualizar o ambiente mais amplo de riscos sexuais enfrentados por crianças e adolescentes na internet.
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a discussão não se resume a retirar celulares das mãos de crianças e adolescentes. O desafio é construir um ambiente em que eles tenham ferramentas de proteção, educação digital e adultos capazes de acompanhar o que acontece no espaço virtual.
