Pensar em abandonar a sala de aula já passou pela cabeça da professora Aldenira Winholt. Apesar da vontade de desistir que surge de vez em quando, ela diz que continua na profissão por entender que tem uma missão a cumprir. A experiência da educadora reflete um dos desafios enfrentados pelo magistério: manter profissionais na carreira e atrair novas gerações para a educação.
“Sim, sempre, de vez em quando vem essa vontade, mas a missão fala mais forte, porque nós temos uma missão, a gente fez um juramento”, afirma Aldenira neste Dia do Professor.
Para ela, a falta de valorização é um dos fatores que afastam os jovens da docência. A professora avalia que as novas gerações procuram carreiras com melhores perspectivas financeiras, enquanto o magistério não oferece o mesmo retorno.
“Hoje os jovens procuram profissões rentáveis, onde eles vão ganhar altos salários, o que a gente não vê mais no magistério”, afirma.
Os dados nacionais ajudam a dimensionar a preocupação. Levantamento do Instituto Semesp, divulgado em setembro de 2026, aponta que o número de professores do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025, passando de 17,3 mil para 11,9 mil. No mesmo período, o contingente de docentes com 60 anos ou mais aumentou 104,5%, de 18,2 mil para 37,3 mil.
Os números acendem um alerta sobre a renovação do quadro docente. Embora a redução de professores jovens não comprove, isoladamente, que a carreira perdeu o interesse das novas gerações, o cenário levanta questionamentos sobre a capacidade de atrair novos profissionais para substituir aqueles que se aposentam ou deixam as redes de ensino.
No Amazonas, contratação temporária entra no debate
No Amazonas, as condições de contratação também fazem parte da discussão sobre a valorização da categoria. Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, referentes a 2024, apontaram que 43,1% dos professores tanto da rede estadual quanto da rede municipal tinham contratos temporários.
O dado evidencia a importância de discutir estabilidade e perspectivas profissionais, embora não seja suficiente, por si só, para comprovar falta de professores nas escolas do estado.
Para Lambert Melo, presidente da Asprom Sindical, a preocupação vai além das condições atuais de trabalho. O dirigente sindical teme que a falta de estímulo à carreira comprometa a entrada de novos profissionais nos próximos anos.
“Daqui a 10, 15 anos nós poderemos ter um apagão de falta de professores no nosso país, porque essa categoria não é valorizada”, afirma.
Segundo Lambert, a baixa remuneração e as dificuldades enfrentadas dentro das escolas contribuem para afastar os jovens dos cursos de licenciatura. Ele alerta que, sem mudanças, a aposentadoria e a saída de profissionais podem ampliar a dificuldade de renovação do magistério.
“Os professores envelhecem, se aposentam, adoecem, saem da rede e não vai ter o jovem para entrar no lugar, não vai ter professor para estar na sala de aula”, diz.
Reconhecimento e compromisso com a educação
Apesar das dificuldades apontadas, a professora Edilene Pérez afirma que incentivaria os jovens a seguir a docência. Para ela, o trabalho dos educadores vai além do ensino dos conteúdos escolares e envolve a formação de cidadãos capazes de compreender a sociedade em que vivem.
“A juventude precisa entender que o Brasil e o mundo precisam de pessoas com competência para estar dentro das salas de aula ensinando as crianças a compreender o seu espaço, o seu papel”, afirma.
Edilene, no entanto, aponta a falta de reconhecimento do poder público e de parte da sociedade como uma das dificuldades da profissão. Ela destaca que o trabalho docente exige estudo contínuo, preparação e dedicação para garantir que os alunos desenvolvam conhecimentos e habilidades.
A professora Aldenira também relaciona a permanência na carreira à responsabilidade com a formação dos estudantes. Segundo ela, ensinar significa preparar os alunos para compreender a realidade e exercer seus direitos e deveres.
Mesmo diante dos problemas, os três profissionais reafirmam que escolheriam novamente a docência. Lambert diz que permaneceria na carreira porque acredita na importância do magistério para a sociedade, mas defende mudanças nas condições enfrentadas pelos professores.
“Se eu tivesse que voltar atrás e tomar essa decisão novamente, eu tomaria novamente essa mesma decisão de ser professor com muito orgulho”, afirma.
A valorização profissional, nesse contexto, envolve mais do que o reconhecimento da importância da educação. Remuneração, estabilidade e condições adequadas de trabalho são questões que precisam entrar no debate sobre como manter os atuais educadores e tornar a docência uma opção para as próximas gerações.
