Estudo francês publicado no European Heart Journal aponta que o consumo elevado de determinados conservantes presentes em alimentos industrializados está associado a maior risco de hipertensão e de doenças cardiovasculares.
O levantamento analisou dados de mais de 112 mil adultos, acompanhados por aproximadamente oito anos. Os pesquisadores avaliaram 17 conservantes alimentares consumidos com frequência e identificaram oito deles associados a uma maior incidência de pressão alta.
Entre os aditivos apontados pelo estudo estão:
- Sorbato de potássio (E202), usado com frequência em frutas e bebidas processadas;
- Metabissulfito de potássio (E224), comum em bebidas alcoólicas, como o vinho;
- Nitrito de sódio (E250), ascorbato de sódio (E301) e eritorbato de sódio (E316), utilizados em carnes processadas;
- Ácido ascórbico (E300), adicionado com frequência a frutas e vegetais processados;
- Ácido cítrico (E330), comum em refrigerantes;
- Extrato de alecrim (E392), tipicamente usado em óleos e gorduras.
Entre os participantes com maior consumo de conservantes não antioxidantes, o risco de hipertensão foi 29% superior, e a possibilidade de doença cardiovascular aumentou 16%. Já entre os que mais consumiram conservantes antioxidantes, o risco de pressão alta foi 22% maior.
Estudo não comprova relação de causa e efeito
Durante o acompanhamento, foram registrados 5.544 casos de hipertensão e 2.450 eventos cardiovasculares. O ácido ascórbico, quando utilizado como aditivo alimentar, também foi associado a maior incidência de doenças cardiovasculares. Isso não significa, no entanto, que a vitamina C naturalmente presente em frutas e outros alimentos faça mal à saúde.
Os autores destacam que a pesquisa é observacional. Os resultados apontam, portanto, uma associação estatística, mas não comprovam que os conservantes sejam diretamente responsáveis pelas doenças. Mesmo com ajustes para fatores como alimentação, atividade física, tabagismo e histórico familiar, outras características dos participantes podem ter influenciado os resultados.
A recomendação dos pesquisadores é priorizar uma alimentação baseada em produtos frescos ou minimamente processados. Segundo eles, novos estudos ainda serão necessários para confirmar os resultados e avaliar se os limites atualmente autorizados para esses aditivos precisam ser revistos.
Leia mais:
Novo tratamento para hipertensão pulmonar é aprovado pela Anvisa
Hipertensão: Conheça os principais sintomas da pressão alta
Pesquisas brasileiras apontam associação semelhante
No Brasil, um dos principais trabalhos sobre o tema foi conduzido por profissionais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 2021 na revista Public Health Nutrition, o estudo utilizou dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) e acompanhou 8.754 servidores públicos, com idades entre 35 e 74 anos, durante quatro anos. Os participantes com maior consumo de ultraprocessados apresentaram risco 23% maior de desenvolver hipertensão, em comparação com os que consumiam menos esses produtos.
Outra pesquisa vinculada ao ELSA-Brasil, publicada em 2024 por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), avaliou 8.089 pessoas e registrou 1.186 novos casos de hipertensão. O grupo com maior ingestão de carnes processadas apresentou risco 30% superior de desenvolver a doença, enquanto não foi observada associação significativa com o consumo de carne vermelha não processada.
Resultados semelhantes foram encontrados pelo Projeto Cume, das universidades federais de Viçosa, Minas Gerais e Ouro Preto. Em análise longitudinal, os pesquisadores constataram que o maior consumo de alimentos ultraprocessados esteve associado ao aumento do risco de hipertensão, enquanto uma alimentação baseada em produtos in natura, minimamente processados e preparações culinárias apresentou efeito inverso.
