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Declaração de Zema sobre “superpresídio” na Amazônia reacende debate sobre preconceito histórico contra a região

A proposta do candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) de construir um “superpresídio” em um local remoto da Amazônia para abrigar líderes de facções criminosas provocou uma onda de críticas no Amazonas. Para especialistas ouvidos pela reportagem, mais do que uma discussão sobre segurança pública, a declaração revive um imaginário histórico que trata a Amazônia como um território distante, vazio e destinado a receber problemas nacionais.

“A Amazônia não é um lugar isolado”

Para o cientista político Raimundo Nonato Pereira da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e coordenador do Laboratório de Estudos do Comportamento e Racionalidade (LECORP), a fala demonstra desconhecimento sobre a realidade amazônica e sobre o próprio conceito de segurança pública.

“O ex-governador de Minas Gerais demonstra ser desprovido de leitura sobre a Amazônia. A sua ideia é retrógrada e desprovida de bases que mereçam credibilidade”, disse.

Segundo Raimundo Nonato, a Amazônia está longe de ser um território isolado, como sugere a proposta.

“A Amazônia não é um lugar isolado em que seria possível a instalação de um presídio. Organizações criminosas e a indústria do garimpo ilegal fazem uso do espaço amazônico há muito tempo”, explicou.

Para o pesquisador, justamente por já ser utilizada por organizações criminosas e por atividades ilícitas complexas, a região exige uma estratégia de enfrentamento muito mais sofisticada do que simplesmente instalar um presídio de segurança máxima.

“A proposta indica também a total ausência de compreensão do real significado do que é segurança pública,” afirmou.

Na avaliação do cientista político, a ideia também transmite uma mensagem simbólica preocupante para quem vive na região.

“Além disso, remete à população a ideia de que as mazelas de outras regiões podem ser armazenadas aqui”, disse.

Raimundo Nonato afirma que políticas públicas eficientes de segurança passam pelo fortalecimento das instituições e da capacidade do Estado de prevenir e investigar o crime organizado, e não apenas pela expansão do sistema prisional.

“O governador tem o dever de ofício de saber que combater o crime exige do Estado investimento em inteligência, melhoria das condições de trabalho para os servidores públicos, capacitação em recursos humanos e forte investimento em segurança social”, disse.

Segundo ele, quando o debate é reduzido à construção de presídios, questões estruturais acabam sendo deixadas em segundo plano.

“A segurança pública exige planejamento permanente, inteligência e fortalecimento das instituições. Limitar a discussão à construção de unidades prisionais simplifica um problema muito mais complexo, que envolve prevenção, investigação e políticas sociais”, afirmou.

Raimundo Nonato – Cientista Político (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma visão colonial da Amazônia

O sociólogo, profofessor da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Aldenor Ferreira avalia que a proposta pode ser compreendida a partir da teoria do colonialismo interno, desenvolvida pelo sociólogo mexicano Pablo González Casanova.

Segundo ele, essa teoria explica como um país reproduz internamente relações semelhantes às existentes entre metrópole e colônia, concentrando decisões políticas e econômicas nas regiões mais poderosas e impondo seus interesses sobre territórios considerados periféricos.

“No caso brasileiro, o centro econômico e político está no Sul e no Sudeste. Quando se toma uma decisão sobre a Amazônia sem compreender sua realidade, tratando-a como um espaço subordinado aos interesses desse centro, reproduz-se uma lógica colonial”, disse.

Para o pesquisador, a ideia de instalar um presídio de segurança máxima na região parte de uma visão ultrapassada sobre a Amazônia.

“É uma visão colonialista, ultrapassada, mofada, retrógrada, que desconhece o próprio país”, afirmou.

Segundo Aldenor, a declaração parte de um imaginário histórico ainda presente em parte da sociedade brasileira, que enxerga a Amazônia como um território distante e vazio.

“O que está presente nesse imaginário é que a Amazônia seria um lugar remoto, um vazio demográfico. Isso é uma mentira. Existem entre 20 e 30 milhões de pessoas vivendo na Amazônia. Existem universidades, instituições de pesquisa, economia, comércio e uma vida social extremamente complexa”, afirmou.

Para ele, o discurso resgata a antiga ideia de que a região serviria para esconder aquilo que o restante do país não deseja.

“É aquela imagem colonial de ‘vamos mandar para o fim do mundo’, como se a Amazônia fosse um lugar destinado ao sofrimento e ao abandono”, explicou.

Áudio do sociólogo Aldenor Ferreira

Estigma e identidade de resistência

O sociólogo afirma que a proposta também produz um processo de estigmatização do território, ao associar a Amazônia exclusivamente à violência e ao encarceramento.

“Ao propor a Amazônia como local ideal para isolar facções criminosas, projeta-se sobre o território uma aura de área de descarte”, disse.

Segundo Aldenor, essa narrativa produz impactos que vão muito além da segurança pública.

“Você afeta a autoestima dos moradores e diminui o valor simbólico, cultural, econômico, político e geopolítico da região”, disse.

Na avaliação do pesquisador, a reação imediata de políticos, entidades e da sociedade amazonense revela justamente um fortalecimento da identidade regional.

Ele cita o sociólogo espanhol Manuel Castells para explicar esse fenômeno.

“A reação política e social da população, das lideranças amazônicas, do jornalismo e da sociedade civil funciona como uma identidade de resistência”, disse.

Segundo Aldenor, quando amazonenses afirmam que a Amazônia não pode ser tratada como depósito dos problemas nacionais, estão reivindicando respeito ao território e à sua população.

“A sociedade local afirma seu pertencimento e exige dignidade. Ela reivindica que a Amazônia seja vista pelas suas potencialidades, pela biodiversidade, pelos saberes tradicionais, pelo desenvolvimento sustentável e pela sua cultura complexa, e não apenas como um lugar de descarte”, disse.

O pesquisador ressalta que as críticas não representam oposição ao combate ao crime organizado.

“A reação da sociedade amazônica não é contra a segurança pública. Ela é contra a submissão política, contra o preconceito e contra essa ideia colonial, ultrapassada, de que a Amazônia pode ser tratada como o quintal do país”, disse.

Para Aldenor, o discurso também recupera uma construção histórica sobre a região.

Ele lembra que, em 1908, o escritor Alberto Rangel publicou a obra Inferno Verde, que ajudou a consolidar uma imagem da Amazônia como um espaço hostil e destinado ao sofrimento humano.

“Mais de cem anos depois, a proposta de Romeu Zema parece recuperar exatamente esse imaginário ao sugerir que a floresta seja o destino ideal para um gigantesco presídio de segurança máxima”, disse.

Aldenor Ferreira – Sociólogo, professor da UFScar (Foto: Arquivo Pessoal)

Áudio do sociólogo Aldenor Ferreira

Repercussão política

A declaração também gerou reações entre lideranças políticas amazonenses.

O ex-governador do Amazonas e candidato ao Senado pelo União Brasil, Wilson Lima, criticou a proposta e afirmou que a região não pode ser transformada em destino para problemas produzidos em outras partes do país.

“Não dá para aceitar que o Estado do Amazonas, que a região amazônica, seja depósito dos problemas do país”, afirmou.

Wilson Lima também questionou o contraste entre as restrições impostas a obras de infraestrutura na Amazônia e a aceitação de propostas como a construção de um presídio federal.

“Quando a gente fala de recuperação de estradas, de infraestrutura, de desenvolvimento, dizem que não pode, que vai destruir a floresta. Agora, quando vem uma proposta absurda dessa, tem gente que bate palma”, afirmou.

O PSOL Amazonas divulgou uma Moção de Repúdio, afirmando que a proposta demonstra desconhecimento sobre a realidade amazônica e reforça uma visão preconceituosa da região. Na nota, o partido sustenta que a Amazônia não é um território vazio, mas abriga centenas de povos e milhões de brasileiros. A legenda também argumenta que instalar um presídio federal não enfrenta a raiz do problema da violência e defende o fortalecimento da fiscalização das fronteiras, das investigações e das políticas de segurança pública voltadas ao combate ao crime organizado.

Nota de Repúdio (Foto: Reprodução)

O vereador de Manaus José Ricardo (PT) também classificou a declaração como preconceituosa. Segundo ele, a proposta parte da falsa ideia de que a Amazônia seria um espaço distante e sem importância.

“Essa é claramente a visão de que a Amazônia é uma coisa isolada, distante, afastada, sem muito valor. Então, vamos colocar um presídio lá. Isso é um absurdo”, afirmou.


Leia mais

Zema propõe superpresídio na Amazônia para líderes de facções criminosas

Brasil pode ter 1 milhão de presos em 2027, aponta Anuário de Segurança Pública


Para o parlamentar, caso haja necessidade de novas unidades de segurança máxima, sua localização deve obedecer a critérios técnicos e estratégicos, e não a uma lógica de afastamento geográfico.

“A localização pode ser em qualquer lugar do Brasil. Não é jogar para a Amazônia aquilo que ninguém quer”, disse.

José Ricardo também defendeu que a política de segurança pública vá além da construção de presídios.

“Segurança pública precisa ser tratada como política pública, com prevenção, ressocialização, oportunidades para a juventude, tecnologia, valorização dos policiais e combate à corrupção. Não é apenas construir presídios e afastar pessoas da sociedade”, afirmou.

Vereador Zé Ricardo (Foto: Divulgação)

Áudio do vereador Zé Ricardo

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A proposta do candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) de construir um “superpresídio” em um local remoto da Amazônia para abrigar líderes de facções criminosas provocou uma onda de críticas no Amazonas. Para especialistas ouvidos pela reportagem, mais do que uma discussão sobre segurança pública, a declaração revive um imaginário histórico que trata a Amazônia como um território distante, vazio e destinado a receber problemas nacionais.

“A Amazônia não é um lugar isolado”

Para o cientista político Raimundo Nonato Pereira da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e coordenador do Laboratório de Estudos do Comportamento e Racionalidade (LECORP), a fala demonstra desconhecimento sobre a realidade amazônica e sobre o próprio conceito de segurança pública.

“O ex-governador de Minas Gerais demonstra ser desprovido de leitura sobre a Amazônia. A sua ideia é retrógrada e desprovida de bases que mereçam credibilidade”, disse.

Segundo Raimundo Nonato, a Amazônia está longe de ser um território isolado, como sugere a proposta.

“A Amazônia não é um lugar isolado em que seria possível a instalação de um presídio. Organizações criminosas e a indústria do garimpo ilegal fazem uso do espaço amazônico há muito tempo”, explicou.

Para o pesquisador, justamente por já ser utilizada por organizações criminosas e por atividades ilícitas complexas, a região exige uma estratégia de enfrentamento muito mais sofisticada do que simplesmente instalar um presídio de segurança máxima.

“A proposta indica também a total ausência de compreensão do real significado do que é segurança pública,” afirmou.

Na avaliação do cientista político, a ideia também transmite uma mensagem simbólica preocupante para quem vive na região.

“Além disso, remete à população a ideia de que as mazelas de outras regiões podem ser armazenadas aqui”, disse.

Raimundo Nonato afirma que políticas públicas eficientes de segurança passam pelo fortalecimento das instituições e da capacidade do Estado de prevenir e investigar o crime organizado, e não apenas pela expansão do sistema prisional.

“O governador tem o dever de ofício de saber que combater o crime exige do Estado investimento em inteligência, melhoria das condições de trabalho para os servidores públicos, capacitação em recursos humanos e forte investimento em segurança social”, disse.

Segundo ele, quando o debate é reduzido à construção de presídios, questões estruturais acabam sendo deixadas em segundo plano.

“A segurança pública exige planejamento permanente, inteligência e fortalecimento das instituições. Limitar a discussão à construção de unidades prisionais simplifica um problema muito mais complexo, que envolve prevenção, investigação e políticas sociais”, afirmou.

Raimundo Nonato – Cientista Político (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma visão colonial da Amazônia

O sociólogo, profofessor da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Aldenor Ferreira avalia que a proposta pode ser compreendida a partir da teoria do colonialismo interno, desenvolvida pelo sociólogo mexicano Pablo González Casanova.

Segundo ele, essa teoria explica como um país reproduz internamente relações semelhantes às existentes entre metrópole e colônia, concentrando decisões políticas e econômicas nas regiões mais poderosas e impondo seus interesses sobre territórios considerados periféricos.

“No caso brasileiro, o centro econômico e político está no Sul e no Sudeste. Quando se toma uma decisão sobre a Amazônia sem compreender sua realidade, tratando-a como um espaço subordinado aos interesses desse centro, reproduz-se uma lógica colonial”, disse.

Para o pesquisador, a ideia de instalar um presídio de segurança máxima na região parte de uma visão ultrapassada sobre a Amazônia.

“É uma visão colonialista, ultrapassada, mofada, retrógrada, que desconhece o próprio país”, afirmou.

Segundo Aldenor, a declaração parte de um imaginário histórico ainda presente em parte da sociedade brasileira, que enxerga a Amazônia como um território distante e vazio.

“O que está presente nesse imaginário é que a Amazônia seria um lugar remoto, um vazio demográfico. Isso é uma mentira. Existem entre 20 e 30 milhões de pessoas vivendo na Amazônia. Existem universidades, instituições de pesquisa, economia, comércio e uma vida social extremamente complexa”, afirmou.

Para ele, o discurso resgata a antiga ideia de que a região serviria para esconder aquilo que o restante do país não deseja.

“É aquela imagem colonial de ‘vamos mandar para o fim do mundo’, como se a Amazônia fosse um lugar destinado ao sofrimento e ao abandono”, explicou.

Áudio do sociólogo Aldenor Ferreira

Estigma e identidade de resistência

O sociólogo afirma que a proposta também produz um processo de estigmatização do território, ao associar a Amazônia exclusivamente à violência e ao encarceramento.

“Ao propor a Amazônia como local ideal para isolar facções criminosas, projeta-se sobre o território uma aura de área de descarte”, disse.

Segundo Aldenor, essa narrativa produz impactos que vão muito além da segurança pública.

“Você afeta a autoestima dos moradores e diminui o valor simbólico, cultural, econômico, político e geopolítico da região”, disse.

Na avaliação do pesquisador, a reação imediata de políticos, entidades e da sociedade amazonense revela justamente um fortalecimento da identidade regional.

Ele cita o sociólogo espanhol Manuel Castells para explicar esse fenômeno.

“A reação política e social da população, das lideranças amazônicas, do jornalismo e da sociedade civil funciona como uma identidade de resistência”, disse.

Segundo Aldenor, quando amazonenses afirmam que a Amazônia não pode ser tratada como depósito dos problemas nacionais, estão reivindicando respeito ao território e à sua população.

“A sociedade local afirma seu pertencimento e exige dignidade. Ela reivindica que a Amazônia seja vista pelas suas potencialidades, pela biodiversidade, pelos saberes tradicionais, pelo desenvolvimento sustentável e pela sua cultura complexa, e não apenas como um lugar de descarte”, disse.

O pesquisador ressalta que as críticas não representam oposição ao combate ao crime organizado.

“A reação da sociedade amazônica não é contra a segurança pública. Ela é contra a submissão política, contra o preconceito e contra essa ideia colonial, ultrapassada, de que a Amazônia pode ser tratada como o quintal do país”, disse.

Para Aldenor, o discurso também recupera uma construção histórica sobre a região.

Ele lembra que, em 1908, o escritor Alberto Rangel publicou a obra Inferno Verde, que ajudou a consolidar uma imagem da Amazônia como um espaço hostil e destinado ao sofrimento humano.

“Mais de cem anos depois, a proposta de Romeu Zema parece recuperar exatamente esse imaginário ao sugerir que a floresta seja o destino ideal para um gigantesco presídio de segurança máxima”, disse.

Aldenor Ferreira – Sociólogo, professor da UFScar (Foto: Arquivo Pessoal)

Áudio do sociólogo Aldenor Ferreira

Repercussão política

A declaração também gerou reações entre lideranças políticas amazonenses.

O ex-governador do Amazonas e candidato ao Senado pelo União Brasil, Wilson Lima, criticou a proposta e afirmou que a região não pode ser transformada em destino para problemas produzidos em outras partes do país.

“Não dá para aceitar que o Estado do Amazonas, que a região amazônica, seja depósito dos problemas do país”, afirmou.

Wilson Lima também questionou o contraste entre as restrições impostas a obras de infraestrutura na Amazônia e a aceitação de propostas como a construção de um presídio federal.

“Quando a gente fala de recuperação de estradas, de infraestrutura, de desenvolvimento, dizem que não pode, que vai destruir a floresta. Agora, quando vem uma proposta absurda dessa, tem gente que bate palma”, afirmou.

O PSOL Amazonas divulgou uma Moção de Repúdio, afirmando que a proposta demonstra desconhecimento sobre a realidade amazônica e reforça uma visão preconceituosa da região. Na nota, o partido sustenta que a Amazônia não é um território vazio, mas abriga centenas de povos e milhões de brasileiros. A legenda também argumenta que instalar um presídio federal não enfrenta a raiz do problema da violência e defende o fortalecimento da fiscalização das fronteiras, das investigações e das políticas de segurança pública voltadas ao combate ao crime organizado.

Nota de Repúdio (Foto: Reprodução)

O vereador de Manaus José Ricardo (PT) também classificou a declaração como preconceituosa. Segundo ele, a proposta parte da falsa ideia de que a Amazônia seria um espaço distante e sem importância.

“Essa é claramente a visão de que a Amazônia é uma coisa isolada, distante, afastada, sem muito valor. Então, vamos colocar um presídio lá. Isso é um absurdo”, afirmou.


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José Ricardo também defendeu que a política de segurança pública vá além da construção de presídios.

“Segurança pública precisa ser tratada como política pública, com prevenção, ressocialização, oportunidades para a juventude, tecnologia, valorização dos policiais e combate à corrupção. Não é apenas construir presídios e afastar pessoas da sociedade”, afirmou.

Vereador Zé Ricardo (Foto: Divulgação)

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