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Fala sobre mulheres ‘votarem mal’ gera reação de especialistas e lideranças no Amazonas

Mais de 90 anos após a conquista histórica do voto feminino no Brasil, a autonomia das mulheres brasileiras na política volta ao centro de um debate. Recentemente, declarações do influenciador Paulo Figueiredo de que mulheres solteiras “votam muito mal” e que as casadas tendem apenas a seguir a orientação de seus cônjuges geraram repercussão. O episódio joga luz sobre os desafios enfrentados pelas mulheres para ocupar espaços de decisão, especialmente na região amazônica.

Nesse contexto, o Brasil possui atualmente um cenário de disparidade. Embora as mulheres representem a maioria da população e do eleitorado apto a votar, o que corresponde a cerca de 53% dos eleitores brasileiros, mais de 82,3 milhões de cidadãs, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), essa expressiva maioria numérica não se traduz em equidade nos espaços de poder. Histórica e sistematicamente sub-representadas, as mulheres ocupam menos de 20% dos cargos eletivos no país. No Congresso Nacional, por exemplo, a representação feminina gira em torno de apenas 15%.

Para compreender os impactos jurídicos, sociais e políticos desse recorte, a Rede Onda Digital ouviu especialistas, juristas e lideranças políticas.

O olhar da academia e da ciência política

Paula Ramos, socióloga e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), contesta as falas do influenciador e destaca o processo histórico até a conquista do direito ao voto pelas mulheres.

Foto: Acervo pessoal

Segundo ela, não existem evidências científicas na literatura da sociologia eleitoral, da ciência política ou das ciências humanas de que mulheres solteiras votam mal. A professora explica que, nas primeiras décadas do século XX, a mulher não tinha liberdade para votar, e mesmo na primeira metade do século o exercício do voto ainda estava condicionado a fatores como o contexto familiar. Essas percepções foram se transformando com a conquista da autonomia feminina, sendo os direitos civis um dos primeiros conquistados pelo movimento feminista, cujas integrantes ficaram conhecidas como sufragistas.

“É totalmente equivocado esse tipo de percepção. A distinção de que mulheres solteiras votam mal e as casadas votam melhor porque seguem a opinião do marido é uma ideia que busca deslegitimar a mulher, invisibilizá-la e invalidar sua capacidade de escolha”, disse.

A pesquisadora acrescenta que os estudos sobre comportamento eleitoral não sustentam a ideia de que homens ou mulheres votam de forma melhor ou pior, já que a escolha do eleitor resulta de uma combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e geográficos. Por isso, segundo ela, o eleitorado feminino não pode ser tratado como um bloco uniforme: o voto de uma eleitora jovem pode diferir do de uma mais velha, assim como as escolhas de eleitoras do Norte tendem a refletir contextos distintos das do Sul do país.

Os impactos jurídicos e a proteção legal

Para a advogada Mary Jane Faraco, vice-presidente da Associação Amazonense da Advocacia Trabalhista (AAMAT), discursos que colocam em dúvida a capacidade das mulheres de decidir seu voto representam um ataque a direitos fundamentais e à democracia, ao tentar desconstituir a condição das mulheres como sujeitos políticos autônomos.

Foto: Acervo pessoal

Segundo ela, esse tipo de narrativa resgata uma lógica já superada pelo ordenamento jurídico brasileiro:“Busca resgatar o antigo poder marital previsto no Código Civil de 1916, quando mulheres casadas eram consideradas relativamente incapazes e dependiam da autorização do marido para praticar atos da vida civil.”

A advogada cita a Lei 14.192/2021 como mecanismo legal para prevenir e combater a violência política contra a mulher, garantindo o exercício de direitos políticos livres de assédio ou humilhação baseada em gênero. Para ela, discursos como o do influenciador geram impacto inibidor, ao desestimular novas lideranças femininas e sugerir que aquele espaço não pertence às mulheres.

No Amazonas, segundo a Faraco, a participação feminina ainda é reduzida por obstáculos estruturais, como dificuldade de acesso a financiamento de campanha, resistência dentro dos partidos e preconceitos de gênero. Para ela, o enfrentamento da violência política exige, além da atuação da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, uma mudança de consciência de toda a sociedade.


Leia mais

Dia do Voto Feminino: participação das mulheres ainda é desafio na política brasileira

3 de novembro: o dia em que começou a revolução do voto feminino no Brasil


Pesquisadora vê tentativa de afastar mulheres

Para a jornalista e doutora em Processos Socioculturais na Amazônia, Ivânia Vieira, militante do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas), o fato de ainda existirem, mais de 90 anos após a conquista do voto feminino, discursos que colocam em dúvida a capacidade política das mulheres demonstra que o país segue marcado por estruturas conservadoras.

Foto: Arcevo Pessoal

“Revela o que a sociedade brasileira é: conservadora, moldada pelo machismo cultural”, afirma Vieira, ao apontar que ideias reorganizadas pelo neoconservadorismo são amplificadas por grandes plataformas de tecnologia que lucram com a promoção de discursos que atacam a participação das mulheres nos espaços de poder.

Segundo a pesquisadora, narrativas que associam o voto feminino à influência masculina ignoram uma longa trajetória de lutas: o voto feminino foi reconhecido em 1932, incorporado à Constituição em 1934 de forma facultativa, e só se tornou obrigatório em 1965, após 31 anos.

Sobre a realidade amazônica, Ivânia Vieira defende que a autonomia política das mulheres é uma construção permanente, com a educação exercendo papel central para romper estereótipos. “Temos que insistir não apenas porque somos a maioria da população e do eleitorado, mas pelo direito fundamental de ser parte ativa dos processos sociais, dos poderes e da ressignificação da palavra igualdade”, defende.

O combate a estereótipos e a atuação parlamentar

Alessandra Campelo, deputada estadual, pré-candidata a vice-governadora do Amazonas e presidente da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), destaca a autonomia feminina em diversos ambientes.

Foto: Divulgação/Assessoria

“As mulheres não são um bloco homogêneo e muito menos votam por instinto ou por influência automática de alguém. Cada mulher tem sua história, suas convicções, seus valores e o direito de fazer suas próprias escolhas”, afirmou em entrevista à Onda Digital.

Segundo a parlamentar, é natural que qualquer pessoa seja influenciada por familiares, amigos ou redes sociais, mas dizer que mulheres solteiras votam mal, ou que casadas apenas acompanham o voto do marido, ignora a realidade de milhões de brasileiras que estudam, trabalham, sustentam suas famílias e exercem plenamente sua autonomia política. Para Campelo, embora ainda existam pressões culturais e sociais em alguns ambientes, isso não reduz a capacidade de decisão das eleitoras.

“O voto é um direito individual, livre e secreto. Respeitar a autonomia das mulheres é, acima de tudo, respeitar a democracia”, conclui.

 

Protagonismo feminino, gestão e espaço partidário

Maria do Carmo Seffair, empresária e pré-candidata ao governo do Amazonas pelo PL, alinhou sua posição à rejeição manifestada pelo próprio partido em relação ao episódio, citando o repúdio do senador Flávio Bolsonaro às falas de Figueiredo.

“O voto feminino é livre, consciente e decisivo para a democracia brasileira. As mulheres conquistaram esse direito com muita luta e, hoje, representam a maioria da população e do eleitorado, além de chefiarem mais da metade dos lares brasileiros”, disse a pré-candidata.

Pesquisa Perspectiva: Professora Maria do Carmo mostra força em Manaus, ultrapassando o atual prefeito, e cresce no interior
Foto: Divulgação/Assessoria

Para ela, tentativas de associar o voto da mulher à tutela do marido demonstram desconhecimento sobre a dinâmica social do país, já que a mulher administra o orçamento da casa, empreende, trabalha e decide seu voto com autonomia. Ela destacou ainda que Paulo Figueiredo não integra a campanha de Flávio Bolsonaro nem fala por sua futura candidatura.

A pré-candidata pontuou o contraste entre o peso do eleitorado feminino e sua ocupação nos espaços institucionais, reforçando o compromisso de governar com atenção às demandas das mulheres, como saúde, emprego, empreendedorismo, segurança e educação.

“O que vejo no Amazonas é que as mulheres querem um governo que resolva problemas, não que faça promessas. Por isso, acredito que o voto feminino será um dos fatores mais importantes das eleições de 2026”, afirmou.

Rejeição à tese do influenciador

A contestação a falas que desqualificam as escolhas política das mulheres não se restringe às esferas institucionais e acadêmicas.

De acordo com a pesquisa realizada pelo instituto Meio/Ideia, nesta quarta-feira (8), o descontentamento da população com teorias que atacam a liberdade eleitoral de gênero é amplo. Diante do questionamento “Você concorda que ‘mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras’?”, a rejeição foi predominante:

Foto: Reprodução

Os dados revelam que, somados os que rejeitam a tese, mais de 60% dos entrevistados discordam dos estereótipos apresentados. A discussão sobre igualdade política e representatividade nos poderes executivo e legislativo segue em pauta, com o voto feminino reafirmado como direito autônomo e soberano no processo democrático brasileiro.

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Mais de 90 anos após a conquista histórica do voto feminino no Brasil, a autonomia das mulheres brasileiras na política volta ao centro de um debate. Recentemente, declarações do influenciador Paulo Figueiredo de que mulheres solteiras “votam muito mal” e que as casadas tendem apenas a seguir a orientação de seus cônjuges geraram repercussão. O episódio joga luz sobre os desafios enfrentados pelas mulheres para ocupar espaços de decisão, especialmente na região amazônica.

Nesse contexto, o Brasil possui atualmente um cenário de disparidade. Embora as mulheres representem a maioria da população e do eleitorado apto a votar, o que corresponde a cerca de 53% dos eleitores brasileiros, mais de 82,3 milhões de cidadãs, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), essa expressiva maioria numérica não se traduz em equidade nos espaços de poder. Histórica e sistematicamente sub-representadas, as mulheres ocupam menos de 20% dos cargos eletivos no país. No Congresso Nacional, por exemplo, a representação feminina gira em torno de apenas 15%.

Para compreender os impactos jurídicos, sociais e políticos desse recorte, a Rede Onda Digital ouviu especialistas, juristas e lideranças políticas.

O olhar da academia e da ciência política

Paula Ramos, socióloga e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), contesta as falas do influenciador e destaca o processo histórico até a conquista do direito ao voto pelas mulheres.

Foto: Acervo pessoal

Segundo ela, não existem evidências científicas na literatura da sociologia eleitoral, da ciência política ou das ciências humanas de que mulheres solteiras votam mal. A professora explica que, nas primeiras décadas do século XX, a mulher não tinha liberdade para votar, e mesmo na primeira metade do século o exercício do voto ainda estava condicionado a fatores como o contexto familiar. Essas percepções foram se transformando com a conquista da autonomia feminina, sendo os direitos civis um dos primeiros conquistados pelo movimento feminista, cujas integrantes ficaram conhecidas como sufragistas.

“É totalmente equivocado esse tipo de percepção. A distinção de que mulheres solteiras votam mal e as casadas votam melhor porque seguem a opinião do marido é uma ideia que busca deslegitimar a mulher, invisibilizá-la e invalidar sua capacidade de escolha”, disse.

A pesquisadora acrescenta que os estudos sobre comportamento eleitoral não sustentam a ideia de que homens ou mulheres votam de forma melhor ou pior, já que a escolha do eleitor resulta de uma combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e geográficos. Por isso, segundo ela, o eleitorado feminino não pode ser tratado como um bloco uniforme: o voto de uma eleitora jovem pode diferir do de uma mais velha, assim como as escolhas de eleitoras do Norte tendem a refletir contextos distintos das do Sul do país.

Os impactos jurídicos e a proteção legal

Para a advogada Mary Jane Faraco, vice-presidente da Associação Amazonense da Advocacia Trabalhista (AAMAT), discursos que colocam em dúvida a capacidade das mulheres de decidir seu voto representam um ataque a direitos fundamentais e à democracia, ao tentar desconstituir a condição das mulheres como sujeitos políticos autônomos.

Foto: Acervo pessoal

Segundo ela, esse tipo de narrativa resgata uma lógica já superada pelo ordenamento jurídico brasileiro:“Busca resgatar o antigo poder marital previsto no Código Civil de 1916, quando mulheres casadas eram consideradas relativamente incapazes e dependiam da autorização do marido para praticar atos da vida civil.”

A advogada cita a Lei 14.192/2021 como mecanismo legal para prevenir e combater a violência política contra a mulher, garantindo o exercício de direitos políticos livres de assédio ou humilhação baseada em gênero. Para ela, discursos como o do influenciador geram impacto inibidor, ao desestimular novas lideranças femininas e sugerir que aquele espaço não pertence às mulheres.

No Amazonas, segundo a Faraco, a participação feminina ainda é reduzida por obstáculos estruturais, como dificuldade de acesso a financiamento de campanha, resistência dentro dos partidos e preconceitos de gênero. Para ela, o enfrentamento da violência política exige, além da atuação da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, uma mudança de consciência de toda a sociedade.


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Pesquisadora vê tentativa de afastar mulheres

Para a jornalista e doutora em Processos Socioculturais na Amazônia, Ivânia Vieira, militante do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas), o fato de ainda existirem, mais de 90 anos após a conquista do voto feminino, discursos que colocam em dúvida a capacidade política das mulheres demonstra que o país segue marcado por estruturas conservadoras.

Foto: Arcevo Pessoal

“Revela o que a sociedade brasileira é: conservadora, moldada pelo machismo cultural”, afirma Vieira, ao apontar que ideias reorganizadas pelo neoconservadorismo são amplificadas por grandes plataformas de tecnologia que lucram com a promoção de discursos que atacam a participação das mulheres nos espaços de poder.

Segundo a pesquisadora, narrativas que associam o voto feminino à influência masculina ignoram uma longa trajetória de lutas: o voto feminino foi reconhecido em 1932, incorporado à Constituição em 1934 de forma facultativa, e só se tornou obrigatório em 1965, após 31 anos.

Sobre a realidade amazônica, Ivânia Vieira defende que a autonomia política das mulheres é uma construção permanente, com a educação exercendo papel central para romper estereótipos. “Temos que insistir não apenas porque somos a maioria da população e do eleitorado, mas pelo direito fundamental de ser parte ativa dos processos sociais, dos poderes e da ressignificação da palavra igualdade”, defende.

O combate a estereótipos e a atuação parlamentar

Alessandra Campelo, deputada estadual, pré-candidata a vice-governadora do Amazonas e presidente da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), destaca a autonomia feminina em diversos ambientes.

Foto: Divulgação/Assessoria

“As mulheres não são um bloco homogêneo e muito menos votam por instinto ou por influência automática de alguém. Cada mulher tem sua história, suas convicções, seus valores e o direito de fazer suas próprias escolhas”, afirmou em entrevista à Onda Digital.

Segundo a parlamentar, é natural que qualquer pessoa seja influenciada por familiares, amigos ou redes sociais, mas dizer que mulheres solteiras votam mal, ou que casadas apenas acompanham o voto do marido, ignora a realidade de milhões de brasileiras que estudam, trabalham, sustentam suas famílias e exercem plenamente sua autonomia política. Para Campelo, embora ainda existam pressões culturais e sociais em alguns ambientes, isso não reduz a capacidade de decisão das eleitoras.

“O voto é um direito individual, livre e secreto. Respeitar a autonomia das mulheres é, acima de tudo, respeitar a democracia”, conclui.

 

Protagonismo feminino, gestão e espaço partidário

Maria do Carmo Seffair, empresária e pré-candidata ao governo do Amazonas pelo PL, alinhou sua posição à rejeição manifestada pelo próprio partido em relação ao episódio, citando o repúdio do senador Flávio Bolsonaro às falas de Figueiredo.

“O voto feminino é livre, consciente e decisivo para a democracia brasileira. As mulheres conquistaram esse direito com muita luta e, hoje, representam a maioria da população e do eleitorado, além de chefiarem mais da metade dos lares brasileiros”, disse a pré-candidata.

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Foto: Divulgação/Assessoria

Para ela, tentativas de associar o voto da mulher à tutela do marido demonstram desconhecimento sobre a dinâmica social do país, já que a mulher administra o orçamento da casa, empreende, trabalha e decide seu voto com autonomia. Ela destacou ainda que Paulo Figueiredo não integra a campanha de Flávio Bolsonaro nem fala por sua futura candidatura.

A pré-candidata pontuou o contraste entre o peso do eleitorado feminino e sua ocupação nos espaços institucionais, reforçando o compromisso de governar com atenção às demandas das mulheres, como saúde, emprego, empreendedorismo, segurança e educação.

“O que vejo no Amazonas é que as mulheres querem um governo que resolva problemas, não que faça promessas. Por isso, acredito que o voto feminino será um dos fatores mais importantes das eleições de 2026”, afirmou.

Rejeição à tese do influenciador

A contestação a falas que desqualificam as escolhas política das mulheres não se restringe às esferas institucionais e acadêmicas.

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