A disputa pelo Governo do Amazonas em 2026 pode ser definida por um fator que vai além da intenção de voto. Em um cenário dominado por pré-candidatos já conhecidos do eleitorado, a rejeição tende a exercer papel decisivo na viabilidade eleitoral.
A questão central deixa de ser apenas quem lidera as pesquisas e passa a incluir quem consegue ampliar apoio sem enfrentar resistência significativa entre os eleitores.
Levantamentos divulgados em maio pelo instituto Action e IPEN mostram que alguns pré-candidatos chegam ao período de pré-campanha acumulando não apenas capital político, mas também níveis elevados de rejeição. Nas duas pesquisas, o ex-prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), aparece com o maior índice de rejeição: 32,2% no IPEN e 31% na Action. Na sequência surgem nomes como Omar Aziz (PSD), Maria do Carmo (PL) e Roberto Cidade (União Brasil), conforme o cenário analisado em cada levantamento.

Rejeição pode limitar o crescimento eleitoral

Para o cientista político Afrânio Soares, nesta etapa da disputa, a rejeição representa um indicador mais relevante do que a própria intenção de voto.
“A rejeição é um limitador de crescimento. A intenção de voto ainda pode variar com a campanha, alianças e movimentações políticas. Já a rejeição pode se transformar em um teto eleitoral”, afirma.
Em termos eleitorais, a rejeição funciona como um limite potencial de crescimento. Um candidato pode ampliar sua intenção de voto ao longo da campanha, mas esse avanço tende a encontrar barreiras quando uma parcela expressiva do eleitorado declara que não votará nele em nenhuma hipótese. Quanto maior esse número, menor costuma ser a capacidade de conquistar novos apoios, especialmente em disputas de segundo turno ou em cenários de forte polarização.
Segundo Soares, candidatos que ocuparam recentemente cargos no Poder Executivo costumam enfrentar avaliações mais consolidadas da população, o que tende a elevar seus índices de rejeição.
Nesse contexto, os números de David Almeida chamam atenção. Embora permaneça entre os principais nomes da disputa, o ex-prefeito registra, nas duas pesquisas de maio, os maiores percentuais de rejeição entre os pré-candidatos avaliados.

Quem ainda pode crescer?

Para a jornalista e especialista em marketing político Jamile Galvão, candidatos que possuem maior potencial de crescimento são aqueles que conseguem comunicar de forma clara sua identidade política.
“Quando você tenta defender tudo, acaba não defendendo nada. Os candidatos que costumam ter êxito possuem uma bandeira muito clara e conseguem fazer com que sua imagem seja associada a ela”, explica.
Sob essa perspectiva, nomes como Maria do Carmo e Roberto Cidade podem encontrar espaço para ampliar apoio entre eleitores que ainda não definiram seu voto.
Na pesquisa Action, por exemplo, Maria do Carmo registra rejeição de 24%, enquanto Roberto Cidade aparece com 15%, um dos menores índices entre os pré-candidatos mais conhecidos. Já no levantamento do IPEN, a pré-candidata do PL apresenta rejeição de 13,1%, inferior à registrada por David Almeida e Omar Aziz.
Segundo Jamile, mensagens simples e facilmente identificáveis tendem a permanecer por mais tempo na memória do eleitor.
Visibilidade também amplia o desgaste
Os levantamentos indicam que notoriedade e rejeição frequentemente caminham juntas.
David Almeida, Omar Aziz e Roberto Cidade ocupam ou ocuparam recentemente posições de destaque na política amazonense. Essa maior exposição pública amplia o nível de conhecimento do eleitor, mas também torna suas gestões e trajetórias mais suscetíveis à avaliação da população.
No caso de Omar Aziz, a rejeição aparece em patamar intermediário: 19,7% no IPEN e 18% na Action. Os números indicam que o senador mantém uma base consolidada, mas enfrenta resistência em parte do eleitorado.
Já Roberto Cidade registra rejeição inferior à de alguns dos principais adversários na pesquisa Action. O cenário pode indicar espaço para crescimento eleitoral, embora sua evolução dependa também do avanço do conhecimento de sua candidatura entre os eleitores.
Baixa rejeição não garante vantagem
Jamile Galvão ressalta que um índice reduzido de rejeição pode refletir tanto boa aceitação quanto menor exposição pública.
“Quando o candidato é pouco conhecido, não deu tempo de as pessoas criarem conexão ou resistência. Também não deu tempo de aparecerem problemas ou de os adversários passarem a enxergá-lo como ameaça”, explica.
Na avaliação dos especialistas, a rejeição observada na pré-campanha resulta de diferentes fatores. Ela pode estar relacionada à avaliação de gestões, ao desgaste da imagem pública, à identificação ideológica ou ao grupo político ao qual o candidato está vinculado. Jamile afirma que a identificação ideológica passou a exercer maior influência sobre o comportamento do eleitor brasileiro.
“Muitas vezes as pessoas votam em quem reverbera aquilo que elas acreditam. Em alguns grupos de eleitores, as ações acabam ficando em segundo plano e a identificação ideológica passa a ter um peso muito grande.”
Esse cenário ajuda a explicar por que alguns candidatos preservam apoio consistente mesmo enfrentando rejeição elevada, enquanto outros registram baixa rejeição, mas ainda não convertem esse quadro em intenção de voto significativa.
O voto de rejeição pode ser determinante
Segundo Galvão, em disputas polarizadas é comum que parte do eleitorado vote para impedir a vitória de determinado adversário, e não necessariamente por identificação com o candidato escolhido.
Esse comportamento pode ganhar importância em 2026 caso a disputa se concentre entre nomes amplamente conhecidos, como David Almeida, Omar Aziz, Roberto Cidade e Maria do Carmo. Nesse cenário, rejeitar menos pode ser tão estratégico quanto conquistar novos eleitores.
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Diminuir índices de rejeição exige planejamento e estratégia, afirma Jamile. “Uma campanha para diminuir rejeição não pode ser feita no achismo. Ela precisa ser baseada em dados, pesquisas e uma comunicação muito alinhada.”
Para Afrânio Soares, o tempo para reverter esse quadro já começou a correr. “Se essa rejeição não entrar em declínio até o início efetivo da campanha, ela pode se transformar em um teto eleitoral que vai impedir o crescimento.”
Os levantamentos divulgados em maio indicam que a eleição para o Governo do Amazonas poderá ser influenciada não apenas pela capacidade dos candidatos de conquistar novos eleitores, mas também por sua habilidade de reduzir resistências. Em um cenário marcado por nomes conhecidos e maior polarização, a rejeição tende a assumir papel central na disputa.
