Horas depois de o prefeito de Manaus, Renato Junior (Avante), atribuir ao Governo do Amazonas parte da responsabilidade pelo impasse no transporte coletivo e desafiar o governador Roberto Cidade (União Brasil) a apresentar os comprovantes dos pagamentos ao Sinetram, a resposta veio do Palácio do Governo com o vice-governador Serafim Corrêa (PSB), que está no exercício do cargo durante a viagem de Cidade. Coube a Serafim assumir a linha de frente da defesa do Executivo estadual e rebater as declarações do prefeito.
Em vez de adotar o mesmo tom do embate político, Serafim escolheu uma estratégia diferente. Economista e advogado de formação, e um dos políticos mais experientes do Amazonas, ele construiu sua defesa apoiado em argumentos jurídicos, responsabilidade fiscal e na interpretação da decisão judicial que trata do subsídio ao transporte coletivo.
O ponto central da coletiva foi o anúncio de que o Estado fará, em até 24 horas, o depósito de R$ 18 milhões ao Sinetram, valor que, segundo o governo, corresponde exatamente ao montante devido entre fevereiro e julho.
“O que é responsabilidade do Estado está definido em uma decisão judicial: pagar R$ 3 milhões por mês. Em seis meses, isso totaliza R$ 18 milhões. Esse é o valor que estamos depositando ao Sinetram”, disse Serafim.
A declaração responde, ainda que de forma indireta, ao desafio lançado horas antes pelo prefeito para que o Governo apresentasse provas dos pagamentos. Em vez de discutir o embate político, Serafim concentrou sua argumentação na tese de que a obrigação do Estado está limitada ao que foi definido pela Justiça.
A tentativa de separar o pagamento estadual da greve
Outro aspecto relevante da coletiva foi a tentativa de separar o pagamento do Estado da paralisação dos rodoviários. Enquanto a Prefeitura sustentava que o atraso dos repasses havia contribuído para a greve, o vice-governador afirmou que a origem do movimento está em outra ação judicial, relacionada a débitos discutidos entre o sistema de transporte e a Prefeitura de Manaus.
Ao citar que o próprio processo trabalhista faz referência a uma dívida atribuída ao município, Serafim procurou alterar o eixo da discussão. A narrativa deixou de ser exclusivamente sobre o repasse estadual e passou a incluir o passivo financeiro do sistema de transporte e a responsabilidade dos demais entes envolvidos.
Gestão fiscal como marca da trajetória política
O discurso também reforçou uma característica recorrente da trajetória política do vice-governador. Ao longo de décadas de vida pública, Serafim construiu a imagem de gestor voltado às contas públicas e ao equilíbrio fiscal. Essa postura ficou evidente ao justificar por que o Estado não reconhece o valor reivindicado pelo Sinetram.
“Como temos responsabilidade com o dinheiro público, não vamos pagar por um serviço além do que entendemos corresponder à efetiva prestação do serviço.”
A fala não apenas explica a posição do governo, mas também busca transmitir a ideia de cautela na aplicação dos recursos públicos. Em vez de ampliar o confronto político, Serafim procurou enquadrar a decisão como uma obrigação administrativa e financeira.
O tom institucional diante das críticas pessoais
Outro ponto que chamou atenção foi o tom adotado ao responder às críticas pessoais dirigidas ao governador Roberto Cidade. Questionado sobre a declaração de Renato Junior de que o governador estaria evitando o diálogo com a prefeitura, o vice-governador evitou o confronto direto.
“O governo não foge de nenhum prefeito. Muito pelo contrário. Todos os prefeitos que nos procuram são recebidos com carinho, humanidade e respeito.”
A resposta preservou um discurso institucional e buscou afastar a crise do campo pessoal, reforçando a disposição do Estado para manter diálogo com os municípios.
Ao anunciar o depósito dos recursos, fundamentar a medida em decisão judicial e relacionar a greve a outro processo em tramitação na Justiça do Trabalho, Serafim buscou redefinir os termos do debate. A partir desse movimento, a discussão deixaria de girar apenas em torno da existência ou não do pagamento e passa a envolver uma divergência sobre o valor efetivamente devido, a interpretação das decisões judiciais e as responsabilidades compartilhadas no financiamento do transporte coletivo de Manaus.
Se a estratégia produzirá efeito na disputa política entre Estado e Prefeitura dependerá dos próximos desdobramentos, especialmente da apresentação dos comprovantes do depósito anunciado e da repercussão dos documentos citados pelo vice-governador.
