A Amazônia Legal ganha um novo papel na corrida mundial por minerais considerados essenciais para a transição energética, o avanço tecnológico e a segurança econômica dos países. É o que mostra o estudo “Amazônia Legal: Minerais Críticos e Estratégicos – Diagnóstico Setorial”, elaborado pela Agência Nacional de Mineração (ANM) e lançado em julho.
O levantamento reúne, de forma inédita e sistematizada, informações sobre o potencial mineral, processos minerários, produção, investimentos, pesquisa, arrecadação de royalties e principais projetos em desenvolvimento na região. A proposta é oferecer uma base técnica para orientar decisões públicas e privadas e contribuir para a construção de uma futura Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
A dimensão desse potencial chama atenção: a Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos minerários brasileiros relacionados a esses minerais, com 38.732 processos. Em 2024, a região respondeu por aproximadamente 47,2% do valor da produção nacional de minerais críticos e estratégicos, movimentando cerca de R$ 106,3 bilhões.
Apesar dessa relevância, o estudo mostra que a atividade mineral amazônica ainda está concentrada principalmente em commodities tradicionais. O ouro representa 67% dos processos minerários relacionados aos minerais críticos e estratégicos na região, seguido pelo estanho, com 10%, e pelo cobre, com 7,3%. Nesse sentido, o Pará lidera os processos para minerais críticos, seguido por Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Tocantins.
“O estado do Pará lidera com ampla margem, somando 19.788 processos, o que representa 51,1%. Em seguida, Mato Grosso aparece com 7.345 processos (19,0%), seguido por Rondônia com 3.973 (10,3%). Tocantins e Amazonas também têm participação relevante, com 2.535 (6,5%) e 2.367 (6,1%) processos, respectivamente. Os demais estados, Roraima, Amapá, Maranhão e Acre, possuem percentuais mais modestos, sendo o Acre o menos representativo, com apenas 34 processos (0,1%)”, diz trecho da publicação.
A grande novidade apontada pelo diagnóstico é que a Amazônia pode ter importância ainda maior no futuro, justamente por abrigar recursos necessários para setores considerados estratégicos para a economia global. Minerais como níquel, nióbio, tântalo, potássio, cobalto e terras raras ganham destaque diante do crescimento da demanda por tecnologias de baixo carbono, baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e aplicações na área de defesa.
O estudo, porém, também revela uma contradição: embora a região tenha potencial para fornecer minerais estratégicos, algumas substâncias consideradas fundamentais para o Brasil ainda não possuem produção na Amazônia, como potássio, terras raras e cobalto. Para a ANM, ampliar o conhecimento geológico, estimular a pesquisa mineral e viabilizar projetos estruturantes são caminhos para reduzir essa lacuna.
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Entre 2006 e 2024, foram investidos R$ 40,4 bilhões em minas e usinas de beneficiamento de minerais estratégicos na Amazônia Legal, sem considerar o minério de ferro. Já os investimentos em pesquisa mineral somaram R$ 4,9 bilhões entre 2003 e 2024, concentrados principalmente em ouro e cobre.
Um dos pontos que mais interessa à região é a possibilidade de transformar o potencial mineral em desenvolvimento econômico e agregação de valor. A discussão não envolve apenas retirar o minério do subsolo, mas também avançar no beneficiamento e na industrialização, criando cadeias produtivas capazes de gerar emprego, renda, tecnologia e arrecadação dentro da própria Amazônia.
Ao mesmo tempo, o diagnóstico evidencia um dos maiores desafios para o futuro da mineração na região: conciliar o aproveitamento dos recursos minerais com a preservação ambiental e os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Parte do potencial mineral está localizada em áreas protegidas ou sujeitas a regras específicas, o que exige planejamento territorial, licenciamento ambiental, governança e consulta prévia quando aplicável.
O projeto coloca, portanto, a Amazônia diante de uma nova agenda. A região, que historicamente é vista como grande produtora de ouro, ferro, bauxita e outros minérios, passa a ser também estratégica para a chamada economia do futuro. O desafio será fazer com que essa nova corrida pelos minerais críticos não repita antigos modelos de exploração, mas resulte em desenvolvimento sustentável, agregação de valor e benefícios concretos para a população amazônica.
Em síntese, o diagnóstico da ANM mostra que a Amazônia não é apenas uma região com grandes riquezas minerais: ela pode se tornar uma das áreas estratégicas do Brasil na transição energética e tecnológica mundial. A questão central agora é como transformar esse potencial em oportunidade para a própria região, com responsabilidade ambiental, respeito aos povos e maior participação da Amazônia nos benefícios gerados por seus recursos.
Leia a íntegra do estudo: amazonia_legal_minerais_criticos_e_estrategicos
