Em Manaus, o pecado da gula encontra espaço privilegiado de danação diante da oferta de peixes saborosos, banana frita, queijo coalho, tacacá e outros pratos. Desperdiçar esses sabores seria o verdadeiro pecado da mesa manauara, que faz da cidade, nos seus 357 anos, celebrados neste sábado (24/10), candidata a integrar a Rede de Cidades Criativas da Gastronomia, grupo organizado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
Neste grupo, é consenso que a culinária regional tem especial destaque como uma das formas de conhecer a cultura da cidade.
Prato especial marca o aniversário no Mercado Adolpho Lisboa
No Mercado Municipal Adolpho Lisboa, a celebração do aniversário chega à mesa com uma receita criada para a data. Na Taberna do chef Cláudio Procópio, na parte superior do mercado, o destaque é o jaraqui com molho de camarão do rio e arroz cremoso de coco. O prato não faz parte do cardápio habitual do estabelecimento.
“Manaus aniversariando! Como é de praxe, todo aniversário de Manaus fazemos um prato diferente”, explica Procópio, carioca apaixonado pelos ingredientes e pelas receitas que levam o morador de Manaus a cometer facilmente o pecado da gula, definido como desejo ou apego desordenado por comer e beber.

Segundo Procópio, a receita reúne ingredientes presentes na alimentação regional. O jaraqui, conhecido na mesa dos manauenses como “o preferido”, é servido com molho de camarão do rio, que é diferente do camarão de mar, e arroz cremoso de coco.
Para o aposentado José dos Santos Natividade, que se identifica como “caboclo”, o prato preferido é o jaraqui com baião de dois e, dependento do bolso, não desperdiça um almoço com pratos típicos de Manaus. “Sinceramente nossa culinária não deixa nada a desejar para outros Estados, é protagonista”, disse.
Para a empresária Elizabeth Silva, o mais apaixonante é o pescado. “Aquele jaraqui frito, um tambaqui assado. Ninguém merece!”, afirma, que garante comer com gula estes pratos.
Sabores que preservam a identidade de Manaus

A culinária amazonense reúne ingredientes e preparações que atravessam gerações. O tucumã com queijo coalho, o tacacá preparado com tucupi, goma, camarão e jambu, além do tambaqui assado, estão entre os pratos associados aos hábitos alimentares de quem vive na capital.

Pernambucano, o chef e professor de Gastronomia Bruno Raphael Leitão, dono da Don Leitão Charcutaria, afirma que Manaus tem uma culinária única no País, marcada pela abundância de peixes e por insumos que remontam aos saberes dos povos originários, como a farinha e os derivados da mandioca, o bolo, a goma e a tapioca.
Esses sabores também despertam a curiosidade de visitantes que procuram conhecer a cultura local por meio da comida. Mercados, feiras, restaurantes e pontos de venda de alimentos regionais fazem parte desse circuito gastronômico.
A valorização dos ingredientes regionais e das receitas tradicionais ajuda a manter práticas culturais e atividades econômicas ligadas à alimentação. O pescado, por exemplo, conecta o trabalho de quem vive da pesca aos mercados, restaurantes e consumidores.
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O chef e professor de Gastronomia da Faculdade Senac Eraldo Oliveira, natural de Minas Gerais, trabalhou na candidatura de Manaus ao posto de Cidade Criativa da Gastronomia da Unesco. Ele diz que a ligação com os povos originários faz da gastronomia de Manaus uma das mais puras do País, pois as tradições gastronômicas de outros estados são fortemente influenciadas por elementos trazidos por negros escravizados ou por migrantes de países europeus. “Aqui temos influência também, mas a preferência é claramente pelo elemento indígena”, afirma.
Portanto, sendo de Manaus ou não, o sábado de aniversário da cidade permite, depois de ir à igreja, se confessar, pedir perdão e cumprir a penitência preescrita pelo padre, cometer só neste dia o pecado da gula: uma cambada de jaraqui frito, um escabeche de tucunaré, uma banda de tambaqui assada ou um pirarucu de casaca feito com farinha do Uarini, que não é de Manaus, mas já foi adotada como a preferida do manauara. Desperdiçar esses sabores é que seria pecado.
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