Enquanto ministros homens dominam as disputas mais recentes no Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, única mulher da Corte, não aparece no centro das controvérsias que movimentam o debate público.
Nas últimas semanas, os principais episódios envolveram nomes como Alexandre de Moraes, André Mendonça, Edson Fachin, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. As situações são diferentes entre si e não significam, necessariamente, envolvimento ou acusação formal contra todos os ministros citados.
O ponto que chama atenção é outro: quando o STF entra em crise, são majoritariamente homens que aparecem como protagonistas dos embates, decisões e disputas de poder.
Cármen Lúcia chegou ao Supremo em 2006, indicada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e foi apenas a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Corte. Hoje, continua sendo a única mulher entre os ministros.
Sua ausência dos episódios que dominam o noticiário não deve ser interpretada como prova de superioridade moral feminina ou como sinal de que mulheres estariam naturalmente afastadas de conflitos institucionais. Mas levanta uma questão sobre como o poder é percebido e representado dentro do Judiciário.
A representatividade, afinal, não se resume a ocupar uma cadeira. Também envolve quem aparece no centro das decisões, dos conflitos e do debate público.
A crise atual do STF evidencia, mais uma vez, um cenário em que homens continuam associados ao protagonismo nas disputas de poder, enquanto mulheres em posições semelhantes frequentemente são cobradas por atributos como equilíbrio, moderação e conciliação.
Mais do que perguntar por que Cármen Lúcia não está no centro da polêmica, talvez seja necessário perguntar por que, em uma Corte com apenas uma mulher, os conflitos de poder continuam sendo narrados quase exclusivamente a partir de figuras masculinas.
